CARÍCIAS DE DEUS


(13/5/1994)

Evaristo Eduardo de Miranda

Nós cristãos tentamos falar e tocar em Deus, mas ficamos surpreendidos quando Ele nos acaricia. As vezes temos uma visão tão dura de nós mesmos e da humanidade que recusamos o toque divino. Como Pedro, não queremos que Deus nos lave os pés. Não aceitamos nossa dimensão divina. Aceitar nossa participação na divindade é um poderoso crescimento. É a porta da compaixão. É, como ensina S. João da Cruz, o toque delicado do Verbo Divino, que pela delicadeza do seu ser divino, penetra sutilmente a substância da nossa alma, e tocando-a toda, delicadamente, Nele a absorve inteira, em divinos gêneros de deleites e suavidades…

Trabalhei durante anos na região do deserto do Saara, de onde guardo fortes lembranças dos ritos de lava pés. Sempre visitava um chefe nômade da nação tuaregue. Tive varias experiências espirituais junto com ele, no meio do deserto. Os tuaregues são famosos por sua perspicácia, por seus raciocínios elaborados e por sua hospitalidade sagrada. Ainda guardo em minhas retinas a lembrança cristalina do rito que acompanhava minha aparição em seu acampamento.

Após longa viagem pelo deserto, eu chegava sempre exausto, ressequido, coberto de pó e areia. Os tuaregues nunca iam me receber ou acolher. Pelo contrário, se escondiam, discretamente, em suas tendas para não serem vistos. Um desavisado se julgaria persona non grata e talvez prosseguisse seu caminho. Mas o significado desse eclipse dos tuaregues está no respeito do outro, de sua condição humana.

Ao meu encontro vinha sempre – e unicamente – um escravo buzu. Os buzus são bastardos, mestiços de tuaregues brancos com outras etnias negras. Ele me oferecia um assento na sombra e uma cabaça de água fresca para beber, ligeiramente incorporada com cereais. Como uma água onde se lavou arroz. Refresca e alimenta um pouco. Logo em seguida desatava meus sapatos e me oferecia uma bacia com água para lavar os pés (Gn 18:4). Com os pés lavados, refrescado, eu cochilava na sombra por uns minutos.

Sempre acordava com sonoridades crescentes. O chefe tuaregue surgia à distância, agora devidamente revestido de seus paramentos. Ele me saudava com sua comitiva de nobres e servidores. Tambari Agali, esse era seu nome, sempre parecia surpreso, quase esbaforido e se dirigia a mim como se eu tivesse acabado de chegar. Estávamos prontos para o encontro. Recuperado da viagem e do cansaço, eu também o saudava com entusiasmo sob os olhares ternos, satisfeitos e quase profissionais do escravo buzu.

Buscamos o Divino, queremos abraçá-lo e sequer nos tocamos. O vemos como algo externo a nós. Um pouco como os hebreus no tempo de Moisés, Deus é algo externo ao coração humano. Mostra-se num arbusto ardente ou em sinais cosmológicos. Quanta gente ainda hoje O busca em imagens, montanhas, astros, cristais, plantas e locais exóticos. Intocável e inatingível são quase sinônimos. E nós por acaso não somos habitados pelo divino? Nosso corpo não é morada desse Deus? No Antigo Testamento, essa descoberta de Deus habitando em cada um de nós, começa com o profeta Elias. Em Elias, Israel descobre Deus falando em cada um. No mais profundo interior de cada um. Como uma brisa suave e sutil (I Re 19,9-14), Deus fala com o homem a partir dele mesmo. Deus se esconde em nós.

Ainda assim alguns sentem essa voz como um eco. Deus vibraria nossas cordas, sem que isso nos dera dimensões divinas. Mas ao se fazer homem, e habitar entre nós, Deus divinizou a humanidade de forma absoluta. Esse tema está amplamente abordado no Novo Testamento e em toda a doutrina da Igreja sobre a Encarnação. Difícil agregar algo que já não tenha sido dito. Mas, um dos belos exemplos disso está na cerimonia do lava-pés (Jo 13,1-17). Tradicionalmente acentua-se nesse episódio o aspecto da humildade de Jesus Cristo. Fazer-se pequeno e escravo. É verdade. Mas, um dos conteúdos mais absolutos desse episódio é o reconhecimento gestual, por Cristo, de nossa dimensão divina e sacral. Jesus reconhece a divindade em nós. Lava nossos pés. Toca-nos e nos acaricia, abrindo o caminho para a instituição da Eucaristia, onde o Mistério nos alimentará.

No lava-pés, o gesto do Cristo é talvez o mais belo e expressivo de toda a Bíblia sobre o reconhecimento do caráter divino do corpo, da criatura e da pessoa, feita a imagem e semelhança do Criador. E o desafio está, pela via da Graça, em descobrir essa sacralidade de e em nosso corpo. De ouvir em nosso interior as vibrações do Espírito. Reconhecer nos toques e carinhos dos outros, os sinais do amor do Outro. Pela oração e pela ação, conhecer, reconhecer e aceitar a dimensão divina que sutilmente penetra todo o nosso ser, corpo, alma e espírito. Ela pode crescer infinitamente, em cada um de nós. Basta dizer como Pedro: lava-me dos pés a cabeça. Acaricia-me dos pés a cabeça.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. As Carícias de Deus. A Tribuna, Campinas – SP, v. 90, p. 6 – 7, 1999.

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