CAOS E VIOLÊNCIA


(8/2/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

“Não pensem que eu vim trazer paz à terra;

eu não vim trazer a paz, e sim a Espada”.

Mateus (10:34-35)

Como Perseu somos chamados a usar a espada e cortar a cabeça da Medusa do Caos. Como Perseu, neste virada de milênio, temos um encontro marcado, pessoal e intransferível, com a violência. Na rua, em casa, no trabalho, em nossa agenda pessoal já tivemos e teremos muitos encontros com situações de violência, até no sentido mais estrito do sangue derramado. Mas etimologicamente violência em latim significa força (vim). E a força tanto pode ser usada pelo Mal como para derrotar o Mal. A violência, em sua ambivalência, é um chamado ao discernimento, à medida e à coragem. Somente quem realiza um casamento com seu Cosmos interior, somente o ser inteiro, está pronto para usar judiciosamente a espada da violência. Sobre essa dimensão, na tradição judaica e cristã, o Espírito fala e coaliza há milhares de anos. Nesse lento e pedagógico caminho do Caos ao Cosmos, muitas pessoas – assustadas diante da violência dos dias de hoje – parecem querer voltar ao Caos ou se imobilizar numa pretensa atitude doutrinal de não-violência. O que ensinam a Bíblia e outras tradições religiosas no tocante o trato e o convívio com a violência e a desmedida?

Na tradição judaica a grande revelação sobre a violência, e sobre o discernimento que deveria acompanhar seu uso, está no próprio nome do Ser: YHWH, Jeová, Javé ou Yahweh. Admite-se geralmente Yahweh como uma forma arcaica da terceira pessoa do imperfeito do verbo ser, significando: “Ele é” e ainda: “Ele faz ser”. Quando Deus fala dele mesmo, emprega a primeira pessoa: “Eu sou” (Ehyeh). Mas na famosa resposta a pergunta de Moisés: “Qual é teu nome?” os intérpretes modernos vêem “Eu sou aquele que sou”, insistindo sobre a transcendência inominável de Deus. Mas esse nome sagrado, YHWH, impronunciável para os judeus, era “vocalizado” na leitura das consoantes do tetragrama que compõe: YOD, HE, WAL, HE. Esse tetragrama possui um significado e uma revelação simbólica fundamental: a espada. Onde Yod é o pomo, Wal a lâmina e He – de cada lado da lâmina- os dois gumes de afiados cortes.

Y

H H

W

O Livro de Zohar, ampla reflexão rabínica e judaica, sobre as sagradas escrituras, desenvolve esse aspecto considerando a forma e o significado de cada letra grafada em hebreu. Um precioso comentário da teóloga francesa Annick de Souzenelle sobre esse tema é apresentado, de forma resumida, a seguir. Lembremo-nos somente que para se construir como Ser, como Verbo, como Logos, o homem deverá fazer uso da Espada. Como diz Paulo aos Hebreus: “A Palavra de Deus é viva, eficaz e mais penetrante do que qualquer espada de dois gumes; ela penetra até o ponto onde a alma e o espírito se encontram, e até onde as juntas e medulas se tocam; ela sonda os sentimentos e pensamentos mais íntimos. Não existe criatura que possa esconder-se de Deus; tudo fica nu e descoberto aos olhos dele; e a ele devemos prestar contas” (HEB 4:12). E nesse sentido, não só a criatura não pode se esconder de Deus, como as leis ontológicas que a estruturam são absolutas.

O sangue representa a vida e a presença divina no vivente. Verter o sangue é de uma inimaginável gravidade, fruto de uma amnésia da consciência. Moisés passa por essa experiência quando mata e enterra um egípcio ao encontrá-lo oprimindo e maltratando um de seus irmãos hebreus. Esse ato, mesmo em legítima defesa de um oprimido, o levará ao exílio na terra de Madiã. Com os anos as conseqüências desse ato levarão ao despertar de sua consciência e a a experiência pessoal de Deus. Moisés engajará a força e a violência no processo de libertação de seu povo como saída do Caos indiferenciado – onde hebreus e egípcios, bem e mal se misturavam – em direção ao Cosmos espiritualizado. De forma equivocada, para se singularizar e se “diferenciar” do irmão Abel, temente a Deus, Caim o assassina. “A voz do sangue do teu irmão clama a mim desde a terra ” (GN 4:10). O sangue de teu Yod, subentendido YHWH, o Verbo. Mas Deus não mata Caim. Deus o condena ao trabalho e ao exílio e a meditar sobre seu crime até sua morte. Caim teme pela sua vida. Deus avisa: ai de quem matar Caim, sete vezes será castigado (GN 4:15). Ao marcá-lo, com a marca do criminoso, Deus o protege para que não o ferisse qualquer que o achasse. Esse texto arquetípico visa mais banir a pena de morte, a vingança e a desmedida do que denunciar a famosa “maldade” do gênero humano. Não sejamos capturados fusionalmente pelo ódio, não nos tornemos assassinos como Caim, marcado para sempre pelo seu ato.

Também no Egito dos Faraós, estabelecido sobre conquistas sanguinárias, os homens serão chamados a um processo alquímico de transmutação, do visível ao invisível. E o primeiro ato de violência será a praga (prodígio) pela qual se transformará ou transmutará a água do Nilo, símbolo da vida, em sangue. A água, a umidade e as trevas, por oposição ao seco e a luz, representam no judaísmo o inconsciente, o irrealizado, o incompleto. Para sair da inconsciência o homem deve se forjar uma espada. Uma espada para separar e diferenciar, cortando as fusões e confusões. Mas a dificuldade do povo hebreu em sair do estado de fusão em que se encontrava com a sociedade do Egito será muito grande. YHWH, que não se compraz nem deseja o sofrimento de seu povo, será obrigado a endurecer o coração do faraó repetidas vezes até que o povo hebreu adquira consciência e discernimento para iniciar sua caminhada de libertação.

Essa emergência diferenciadora não significa o abandono do inconsciente, mas sua integração. Um símbolo dessa integração, vista não como emergência do inconsciente no consciente, mas como a capacidade de ir de um ao outro, é encontrado na figura da rã. Em hebreu tsephardin, a rã, significa a emergência do conhecimento. A rã tem a capacidade de saltar do úmido para o seco e vice-versa. Ela representa, como em muitos contos de fada, a emergência do conhecimento escondido no inconsciente (água). Nos contos de fada, a aceitação, a amizade e o casamento com a rã, anunciam quase sempre o casamento do homem (animus) com seu outro lado, o escuro e das profundezas, para trazê-lo a luz (seco). Apresentado freqüentemente como o lado “feminino” do ser (anima), o inconsciente é uma realidade cheia de energias latentes. Uma força de informação constitutiva no homem a partir do seu interior, e não do exterior, por um processo de transmutação.

O inconsciente não é um amontoado de sucata, formado de fatos sem valor reprimidos e rejeitados pelo indivíduo, mas uma matriz, um poço artesiano do qual brota toda criatividade, como assinala Robert Johnson ao confrontar as teorias de Freud e Jung. O saber adquirido do exterior, como no caso dos livros e dos estudos, é pesado, exige esforço de memorização e tem sua sede no cérebro. Ele só esclarece o ser na medida em que abre o acesso ao saber nato, a fonte de todo o saber. Este é fruto do amor. Saber e saborear têm a mesma raiz. Em espanhol emprega-se inclusive a mesma palavra, saber, para indagar o gosto de algo ou o conhecimento. Provar desse fruto é leve e não requer nenhum esforço de memória. A rã representa o saber saboroso. Ele já habita em cada homem mas precisa ser trazido à luz, ao seco. Mesmo assim, sedento de poder, o homem busca em externalidades um saber idolatrado. Este ao invés de elucidar e iluminar, ilude. Etimologicamente essas três últimas palavras são muito próximas. Na elucidação o obscuro é trazido à luz. Na iluminação, a luz é trazida até o objeto. Já na ilusão, a luz ofusca e cega tanto quanto as trevas totais. Como superar essa etapa de desejo de aquisição do conhecimento somente pela via exterior, tão valorizada hoje em dia? Superando a fala e o fascínio da serpente do paraíso. O homem não pode ficar alheio aos potenciais de seu próprio ser psíquico e esperar tudo de frutos milagrosos que certas doutrinas e ideologias anunciam prodigar imediatamente. Como certa tradição rabínica interpreta, o erro de Adão e Eva foi a impaciência de não saberem esperar seu amadurecimento interior, seu casamento com o Cosmos interior. Casamento místico que Parsifal realizará na lenda do Santo Graal. Como ele, muitos outros príncipes, princesas e gente do povo realizarão essas bodas simbólicas nos vários contos de fada. No fundo a serpente oferece um fruto no qual o homem ainda não se tornou.

Que a serpente não decida por nós! Os objetos de conhecimento adquiridos de forma exterior ao indivíduo são uma ilusória tesourização de um saber estranho ao essencial do homem. Este os percebe com a mesma superficialidade que percebe a si mesmo. Nessa “coisificação” do ser e do conhecimento, o amor está ausente. O homem fica cego a sua interioridade e cego a toda realidade que lhe escapa. Esquece-se que, como na fábula do Pequeno Príncipe, o essencial é invisível aos olhos. Nessa situação de amnésia, o inconsciente emerge como um ente devorador. Como na praga das rãs no Egito, o inconsciente invade o dia a dia das pessoas nos seus mínimos gestos e decisões. As riquezas potenciais de seu interior se tornam seus demônios. O aparente conteúdo recusado se torna paradoxalmente explícito mas invisível em cada ato e momento. O comportamento áspero e violento toma conta das pessoas na sociedade, no trabalho, no lar, no quarto e na cama. Quanto do vandalismo maculando cidades e bens públicos, quanto da própria destruição da natureza e da exploração do homem pelo homem não são a expressão de um comando inconsciente de tristes e horríveis realidades interiores.

“O Nilo ferverá de rãs, que subirão, entrarão em seu palácio, nas casas e quartos e até em sua cama; o mesmo acontecerá na casa de seus ministros e de seu povo, nos fornos e amassadeiras ” (EX 7:28-29). Os fornos e amassadeiras, lugares respectivos do fogo e da água na elaboração do pão, representam a invasão das duas matrizes primordiais e opostas: o peito e a barriga ou tórax e o ventre. como são vistas na China e na India. Mircea Eliade mostra como na África os fornos tem a mesma denominação dos úteros, o que torna os ferreiros (Ogun), verdadeiros obstetras da natureza. A pedra de amassar o grão, é sempre envolvida de simbolismos nas diversas culturas, em particular a transmutação da pedra em pão. Essas duas matrizes primordiais serão retomadas mais tarde no batismo com água do Cristo, a partir do qual nascem novas criaturas. É o Cordeiro de Deus, tornado o Pão da Vida, quem envia o batismo de fogo no Espírito. O homem verdadeiro, o ser inteiro, pela sua interior-idade ouve seu coração e realiza o casamento dos opostos de forma erótica e harmoniosa. Já o homem cego e fragmentado, na ânsia de se construir, acaba dirigindo a Espada contra o outro, contra o exterior, quando Ela deveria ser dirigida ao seu interior, em primeiro lugar. Na tradição religiosa judaica o homem deve crescer como a árvore do conhecimento, da qual o fruto será o casamento dos opostos: do seco e do úmido, do realizado e do irrealizado, da luz e das trevas. O paradoxo é sempre aparente. Ao dizermos água pura, afirmamos algo inequívoco mas absurdo: água fogo, já que pura vem do grego pyros, fogo. Em muitos contos de fada o encontro com a rã sempre leva o protagonista a aventuras interiores (cavernas, mergulhos em poços escuros, travessia de noites escuras, etc). A rã revela ao homem sua dimensão feminina e a mulher o lado masculino, mudando de forma ambivalente, o sinal de seu conteúdo arquetípico. Esse casamento dos contrários pela força do crescimento interior foi exemplar no caso de Jesus.

Foi num casamento, num matrimônio, nas bodas de Caná, que Jesus começou seu ministério. E o fez transformando a água em vinho e não em sangue. É interessante destacar que Caná tem a mesma raiz que Caim (adquirir). Isso ocorre e só é possível após a tentação de quarenta dias no deserto, onde Jesus dialogou com seu lado escuro e mais profundo. Após a transmutação do seu interior, ele mesmo forjou sua Espada, cuja lâmina dos desejos será sempre afiada na mó do amor. Enquanto Caim a dirigiu contra o Outro, Jesus a dirigiu contra si mesmo. Por isso, no passado, muitos santos cristãos já apresentavam Jesus como a sétima jarra das bodas de Caná e a água transmutada em vinho nas primícias de seu sangue. Encerra-se a necessidade de transformar-se a água em sangue como na primeira praga do Egito. Agora é dado a conhecer um outro caminho. A água se torna vinho como primícias do sangue que será vertido pela salvação do mundo. A vinificação é alegoricamente a espiritualização da vinha. É a emergência do Incriado no criado, unidos como o Ying e o Yang, como sal da terra e luz do mundo. É a subida pelos graus de energia e consciência, do visível para o Invisível. Essa dinâmica quase sempre se opera, à sombra da espada, com a violência necessária ao exercício do discernimento e da integração, separando para integrar: separar o hebreu do egípcio ou a verdadeira mãe da falsa-mãe no episódio das prostitutas e do célebre Julgamento de Salomão.

A sombra redentora dessa espada é trazida por Jesus quando afirma: “Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a Espada. De fato, eu vim separar o filho de seu pai, a filha de sua mãe, a nora de sua sogra. E os inimigos do homem serão os seus próprios familiares” (MT 10:34-36). Uma das chaves da compreensão desse texto polissêmico está na espada diferenciadora, como sinaliza Marie de Balmary no livro Le Sacrifice Interdit – Freud et la Bible. O sentido dessa espada, em grego machaira, não significa a arma de combate mas, inicialmente, o grande punhal usado nos sacrifícios. Ao invés de levantar os familiares uns contra os outros, como em certas traduções antigas da Bíblia em português, as traduções recentes resgataram o sentido de “fazer dois”, de separar em dois o que poderia se tornar um, se a espada não chegasse a tempo. Como no sacrifício de Isaac, Abraão se separa de um filho que não lhe pertencia. Ao aceitar o pedido de Deus, Abraão sacrifica o vínculo possessivo e estéril com seu filho único. O filho que se tornasse um com seu pai se tornaria a mesma coisa que seu pai! O mesmo a filha com sua mãe. Essa ausência de separação está na origem de tantas infelicidades e desgraças de pessoas que mantém com um dos pais um estado fusional, parecido a situação intra-uterina onde dois formavam um. Quem é a mãe segundo Salomão? É aquela que ama seu filho mais do que sua ligação com seu filho. É aquela que sacrifica sua ligação com o filho. Enquanto a outra mãe, possessiva, é apresentada no texto como tendo sufocado e matado involuntariamente seu filho, por dormir com ele na mesma cama! A verdadeira mãe aceita que a espada, invocada por Salomão, passe entre ela e seu filho, para que este viva. Ao falar, a mãe verdadeira não aceita a arbitragem proposta por Salomão e, pelo amor, escreve a história, sob a sombra redentora da espada.

A diferença entre “eu te amo porque você é meu” e “eu te amo porque você é seu” tem a dimensão da lâmina de uma espada, numa feliz expressão de Marie Balmary. Esses pensamentos, freqüentemente inconscientes ou implícitos, dependendo da inteireza do ser podem decidir a felicidade ou a desgraça dos seres humanos. Como essa autora sinaliza, enquanto em nossas línguas e em nossa época a idéia de pacto, contrato e casamento traz imagens de ligação e nós atados, no hebreu bíblico se “corta” uma aliança com alguém. Separar pai e filho, diferenciar filha e mãe é um trabalho que a espada opera inclusive entre não parentes, entre nora e sogra. Esse destaque é importantíssimo pois como no livro do Gênese, o homem é chamado a deixar seu pai e sua mãe (diferenciados) e se unir a sua mulher. Como o homem poderia fazer isso se a nora fosse igual a sogra? Ele estaria trazendo para sua casa a própria mãe! Ele estaria voltando para a própria mãe! E quantos não engajam suas vidas nesse caminho! A tragédia de Édipo é o exemplo desse curto-circuito do desejo. Pensa estar casando com uma estrangeira, de outra cidade, quando na realidade casa-se com sua própria mãe.

Essa preocupação com a diferenciação é permanente na Bíblia. Os mandamentos de Deus ensinam honrar pai e mãe e não os pais. Isso significa reconhecer cada um, pai e mãe, na sua condição e alteridade. Para muitas pessoas só um dos pais conta realmente, o outro ficando em plano secundário. Talvez seja uma das realidades mais comuns a serem enfrentadas nos consultórios de psicólogos e psicanalistas. Quem honra pai e mãe não confundidos, com seus devidos pesos, não pertence mais a nenhum. Honrar significa reconhecer o peso de cada um, já que a raiz hebraica do verbo honrar, cabad, tem o sentido de pesar. Como sinaliza Marie Balmary o peso representa a primeira maneira de se apreciar o valor nas trocas. Apreciar a devida dimensão do outro é evitar a violência cega e agir na medida, evitando que o inconsciente invada nossa vida como as rãs da segunda praga do Egito. Sabemos como é difícil, muitas vezes, encontrar a palavra certa para elogiar ou criticar alguém. É difícil encontrar os termos justos ou a medida para analisar um ato ou uma omissão. Nossa fome, fraqueza e impaciência nos levam a querer tudo e já, sem refletir, como Adão e Eva ao comer do fruto proibido. Diante da violência, ameaçados ou vítimas, nossa reação é ainda pior. Caímos na trágica desmedida onde o que se pensa propor para conter a violência pode gerar mais violência num ciclo infindável.

A expulsão do paraíso acontece sob a ira aparente do Criador em sua primeira decepção com sua criatura. No texto do Gênese os castigos são também de aparente desmedida: o homem vai viver do suor de seu rosto, a terra seca lhe negará seus frutos, as dores do parto serão aumentadas, voltarão ao pó, um anjo com espada de fogo guarda o caminho da árvore da vida… Mas ao ver suas duas criaturas nuas, partindo para a dura realidade do mundo, Deus sente pena e lhes fornece vestes de pele que Ele mesmo confeccionou (GN 3:21). Imaginemos Deus com agulha e linha! Essa alegoria singela e carinhosa mostra a medida substituindo a ira e a desmedida. Logo em seguida, a primeira geração de sua geração, levanta de novo sua ira. Mas Deus distingue e diferencia o pecado do pecador e poupa Caim da morte.

No passado, e ainda hoje, famílias inteiras desapareceram porque para vingar uma morte matou-se mais um. Isso por sua vez levou a mais uma vingança e assim sucessivamente. Cidades e até povos desapareceram em infindáveis banhos de sangue. Contra essa tragédia, totalmente contraproducente, Deus dá outro caminho. Quem comete um crime, deve. Mas pagará de outro modo. Uma coisa é a culpa, outra é a pena. Quem derrama o sangue deve refletir sob sua culpa, arrepender-se e purificar-se. E deve também cumprir e pagar sua pena. A pena de morte, para alguns, até pode ser – paradoxalmente – uma isenção simultânea da culpa e da pena. Perante a Lei alguém que deve pagará, mas de outra forma. É a única via para não cair-se na tragédia e na espiral da violência. Bibliotecas de livros jurídicos versam sobre esse tema. Na tradição judaica e cristã a verdadeira morte seria aquela advinda do não arrependimento. E essa morte, só o próprio indivíduo pode se decretar caso, durante o cumprimento de sua pena, não se arrepender e se purificar. Esse tema encontra-se em todas as civilizações através de contos, lendas e mitos que graças às suas linguagens simbólicas ajudam a situar o homem na natureza e na sociedade. Nas mais diversas culturas os homens em sociedade aprenderam o engano do caminho da vingança e da desmedida. Na Grécia antiga temos as tragédias de Ésquilo (As Suplicantes, Os Persas, Prometeu Acorrentado, Oréstia…), de Sófocles (Traquínias, Antígona, Ajax, Edipo Rei, Electra, Filoctetes e Édipo em Colono) e de Eurípedes (Ciclope, Alceste, Medéia, Hipólito Porta-Coroa, Andrômaco, Hécuba, Ifigênia em Aulis,…) mostrando como e quanto a vida está na medida e não no descomedimento.

Em Antígona, como na maioria das tragédias, é difícil tomar posição. Difícil dizer quem está certo ou errado. Creonte, Antígona, Hêmon, Eurídice,… todos têm suas razões e equívocos. Estamos diante do universo da nevrose. Não existe medida. Não existe diferenciação clara. Quem deve falar não fala. Quem deve ouvir não ouve. Quem deve ver não vê. Quem deve ser não é. Na tragédia a maioria está surda e muda e sem perdão. É muito difícil perdoar, mas só há vida no perdão. O verdadeiro perdão e a verdadeira compaixão não são o resultado de uma atitude moral mas sim o fruto de um discernimento e amadurecimento psicológico. Um mundo sem perdão é nevrótico e terrível. Nele os inocentes pagam. Como de forma dramática em Vigário Geral, bairro do subúrbio do Rio de Janeiro, onde dezenas de inocentes foram fuzilados em suas casas durante uma noite de 1993 como vingança por um crime cometido por traficantes. Os inocentes pagam, assassinados por centenas de milhares na guerra civil de Ruanda e em outras partes do mundo.

Em Édipo, tragédia onde se toca em tantas dimensões da alma humana e de forma inesgotável, retenhamos apenas uma reflexão sobre a violência e o discernimento. Na tradição seguida pelos autores trágicos, Polínice é o irmão de Édipo, esposo de sua mãe e portanto irmão de seus filhos! Ser irmão de seus filhos significa o fim da História. No incesto não há mais História. Atinge-se metaforicamente a eternidade sobre a Terra. E isso seria o verdadeiro inferno: a eternidade sobre a Terra. O descomedimento rapidamente toca a ética e a moral. Enquanto a vida está na medida, a desmedida impera nos mitos. Sonhos coletivos, fábulas de tribos, os mitos buscam integrar o Caos e o Cosmos. Tentam explicam a origem do Universo, dos homens, das leis físicas, biológicas e sociais. A tragédia gera os mitos na cidade, na polis. A tragédia é também a incapacidade de metaforização; é a incapacidade de alegorização. Teria nosso povo, teatral e carnavalesco, perdido a capacidade de metáfora e de alegoria no tratamento do crime ao defender a vingança pessoal e a pena de morte?

Na Grécia antiga as Erínias (Aleto, Tisífone e Megera), às quais os romanos identificaram as suas Fúrias, eram deusas primitivas que encarnavam a vingança e se apresentavam como perturbadoras da razão. Elas puniam todos os crimes e faltas suscetíveis de perturbar a ordem das coisas no sentido físico e moral, bem como as leis da natureza. Sobretudo os crimes como hybris ou descomedimento, através do qual o homo se esquece que é humus, barro, argila, um simples mortal, na feliz descrição de Benito Brandão. Violentas, não obedeciam nem reconheciam os deuses Olímpicos. A vingança do sangue derramado na Grécia, até a reforma jurídica de Sólon, levou ao extermínio de famílias inteiras. A tragédia acabou levando à lei. Ela se tornou lei, lei dos tribunais. As cidades legislaram. Em termos religiosos muito contribuiu o deus Apolo para humanizar os hábitos antigos concernentes aos homicídios, através do oráculo de Delfos. Transformando a vingança de sangue pessoal e a lei do talião em catársis e julgamento pelos tribunais. Delfos pregou a sabedoria socializada, o meio-termo, o equilíbrio e a moderação. A hybris foi enfim ultrapassada. Nas Eumênides, terceira tragédia da trilogia esquiliana Oréstia, a deusa Atená dirige a seguinte mensagem a seus cidadãos:

Ouvi, agora, o que estabeleço, cidadãos de Atenas,

que julgais a primeira causa de sangue.

Doravante o povo de Egeu conservará, sempre renovado, este

Conselho de Juízes. (…)

O respeito e o temor, dia e noite, manterão os cidadãos

longe do crime. (…)

Nem anarquia, nem despotismo, esta é a norma que,

a meus cidadãos, eu aconselho observarem com respeito. (…)

Se respeitardes, como convém, esta augusta instituição,

tereis nela um baluarte tutelar para o país e para a cidade.

Incorruptível, venerável, inflexível, tal é o Tribunal,

que aqui instituo para vigiar, sempre acordado,

sobre a cidade que dorme.

Agora, cerca de dois mil e quinhentos anos depois, como poderíamos ir no caminho inverso: fazer justiça com as próprias mãos, instaurar a pena de morte, abandonar as leis, deixar de lado a civilidade, retornar à tragédia, mergulhar na barbárie? Tanto mais que na tradição judaica e cristã existe a Lei Simbólica. Nela, sempre que se deve qualquer coisa, se deve sem medida com o dano causado! Ainda nas Eumênides, Atená fala às Erínias para que aprendessem a se tornar deusas do amor, dispensadoras de prosperidades para os atenienses, que as retribuirão através do culto e de homenagens. “Se o vosso amor ao amor das Erínias responder, através brilhantes e eternas homenagens, vós vos mostrareis ao mundo, todos juntos, conduzindo vosso país e vosso povo, pelos caminhos do direito e da justiça!” Também nós, no mundo de hoje, não devemos temer a conversa com as vozes das Erínias vingadoras. O mundo é mesmo perigoso. A vingança é e sempre foi um péssimo negócio. Viver é entrar na fornalha. Devemos completar, pronunciar e realizar nossa pequena palavra na defesa da ordem sobre o Caos, da razão sobre a loucura, do perdão sobre a vingança, da vida sobre a pena de morte e do direito do homem sobre o direito das trevas.

Cada homem pode forjar uma Espada e usá-la no sentido da transmutação de seus conhecimentos inconscientes em saber e sabedoria. Nunca em poder ou idolatria. Da mesma forma em que a água foi transformada em vinho em Caná e não mais em sangue como no Egito. Pelo amor esse vinho será transmutado em sangue e ainda pelo amor esse sangue será transformado em Espírito de salvação. Na tradição cristã, Jesus se apresenta como a verdadeira videira e seu Pai o agricultor. “Todo ramo que não dá fruto em mim, o Pai o corta. Os ramos que dão fruto, ele os poda para que dêem mais fruto ainda.” A vinificação é uma espiritualização da vinha, como já dissemos, mas também da vida no sentido figurativo apresentado por Jesus. Na última ceia Jesus transforma o vinho em sangue de aliança, derramado em favor de muitos. Jesus anuncia que, daquele dia em diante, não beberá mais do fruto da videira até o dia em que, com seus discípulos, beberá o vinho novo no reino de seu Pai (MT 26:27-29). As próprias palavras do Cristo sobre o cálice (MC 14:24) contradizem o componente negativo do ritual pascoal dos hebreus que pedia a Deus de derramar sua fúria sobre as nações (SL 79:6). Pelo sangue se chega ao Espírito presente no vivente, dentro da grande cadeia do Ser.

E para sermos inteiros será sempre necessário deixar pai e mãe, deixar nossa casa, deixar nossa terra, deixar nossos deuses e ir em busca de nós mesmos, como no chamado de Deus a Abraão. Não através de uma ascése mutilante mas abandonando tudo que em nós não é destinado a eternidade. Esse processo de libertação, sob o critério de bens eternos, conduz ao núcleo imortal de cada ser. Tudo é bodas para quem encontra o Ser inteiro. Estar na medida. Não devorar o outro. Afiar a lâmina dos desejos na mó do amor. Ir da água ao vinho, do vinho ao sangue e do sangue ao Espírito. Até chegar na “bebedeira” mística de Pentecostes, quando em línguas de fogo o Espírito foi derramado sobre os primeiros e erotizados discípulos. Os êxtases místicos quase sempre se revestem de erotismo pois o verbo grego érasthai significa: estar inflamado de amor. Sabendo esperar, perdoando e amando, o homem encontra a chave e o critério decisivo no trato e no convívio com a força e a violência, pois como diz Paulo aos Coríntios (13:4-10):

“O amor é paciente, o amor é prestativo;

não é invejoso, não se ostenta,

não se incha de orgulho.

Nada faz de inconveniente,

não procura seu próprio interesse,

não se irrita, não guarda rancor.

Não se alegra com a injustiça,

mas se regozija com a verdade.

Tudo desculpa, tudo crê,

tudo espera, tudo suporta.

O amor jamais passará.

As profecias desaparecerão, as línguas cessarão,

a ciência também desaparecerá.

Pois o nosso conhecimento é limitado;

limitada é também a nossa profecia,

Mas, quando vier a perfeição,

desaparecerá o que é limitado.”

Evaristo Eduardo de Miranda

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