CALE A BOCA


(18/8/2010)

Evaristo Eduardo de Miranda

Vamos chamá-lo João. Padre João. Boa gente. Amigo de longa data. Ele era um padre verdadeiro, de vida espiritual interiorizada. Ao mesmo tempo, ele era fraterno, alegre e cheio de humor. Suas pregações tinham um sabor de verdade interior e eram apreciadas por todos. Apaixonado por literatura e cinema, ele era um bom pastor para ovelhas que seu bispo lhe confiara. Homem livre e dinâmico, João, infinito e efêmero, morreu.

Foram muitos comentários elogiosos sobre sua vida. Um deles me marcou. Alguém disse: o padre João era tão atento ao outro e sua escuta tão respeitosa, que eu lembro mais seus silêncios do que suas palavras. O padre João pesava cada palavra nas conversas, nos sermões e nos escritos. Sua aparente imobilidade em reuniões, absorto, podia enganar e fazer pensar em alguém ausente. Na realidade, ele estava atento, desperto.

Sempre desperto diante da vida, sempre maravilhado pela vida, em todos seus aspectos: as pessoas, as árvores, as montanhas, as estrelas e, sobretudo os marginalizados, os deficientes. Ele me traz presente a atitude de Jesus no seu encontro com o jovem rico: “Jesus o olha fixamente e o ama” (Mc 10,21).

O padre se foi sem deixar rastros inúteis, sem reivindicar o menor reconhecimento. Partiu leve e nos deixou leves. Partiu em silêncio e nos deixou em silêncio. Um dominicano, J. Tauler, discípulo próximo de Mestre Eckart, disse certa vez num sermão de Advento, antes do Natal: “É por isso que você deve se calar. Então, o Verbo desse nascimento poderá ser pronunciado em ti e você poderá escutá-lo. Mas esteja certo que se você quiser falar, Ele deverá se calar. Você não pode servir melhor o Verbo do que se calando e escutando-O. Se então, você sair totalmente de si mesmo, Deus entrará inteiro em você. O quanto você sai, o quanto ele entra, nem mais, nem menos”. Como dizia Maurice Zundel: “Deus não se ausenta, somos nós que não estamos presentes”.

Agora, o silêncio absoluto do padre João é sinal da plenitude da Presença.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Cale a boca. A Tribuna, Campinas – SP, v. 3875, p. 15 – 15, 2010.

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