BENTIDA ENTRE AS MULHERES


(28/4/2006)

Evaristo Eduardo de Miranda

A mentalidade protestante, sectária ou neopagã é alheia à piedade e à devoção marial. Para muitos, a única referência é a escritura, Jesus Cristo e a graça. Para outros, existe uma visão marcadamente masculina da redenção: Deus é pai, Jesus é homem e o Espírito Santo é masculino. A tradição católica sempre reservou um espaço diferenciado para a mulher na história da salvação. Fato histórico, Maria é um lugar de investimento privilegiado da religiosidade popular na evangelização católica.

Para a Igreja, Maria não é um modelo de mulher e sim é um modelo de fé e um exemplo de mulher. Na religiosidade popular, associada ao feminino, Maria cumpre três papéis: proximidade: ela é a mãe atenta a todos os seus filhos (degredados de Eva); defesa da identidade cultural: ela é celebrada nos traços culturais de cada povo e lugar; proteção, cura e libertação: capaz de libertar de todas opressões, proteger das ameaças e conduzir à justiça (destrona poderosos e eleva os humildes).

Com respeito às mulheres e Maria, o discernimento teológico e pastoral não autoriza manipular, nem desprezar a fé dos mais humildes ou seus sentimentos filiais e maternos. A referência ao sentido da fé dos fiéis (sensus fidelium) deve ser usada com prudência e precaução. Não se pode confundir sentimento religioso com fé cristã. A grande responsabilidade dos teólogos católicos e dos movimentos eclesiais é a propor o lugar real de Maria na salvação, na Igreja e na vida dos homens e, principalmente, das mulheres.

Em primeiro lugar, a “mariologia” não é um capítulo isolado da teologia, centrado exclusivamente na pessoa de Maria. A autêntica “teologia marial” está integrada no “mistério do Cristo e da Igreja” (Vaticano II). É justo aprofundar a relação entre Maria e o Espírito Santo, que é feminino em hebraico. Mas não se pode estabelecer entre ela e o Espírito Santo uma relação comparável a união entre a humanidade e a divindade de Jesus, como o faz Leonardo Boff no livro Trindade e Sociedade ao afirmar uma “comunicação pessoal (hipostática) do Espírito Santo à Virgem Maria”. Na Virgem tudo se refere ao Cristo e dele depende (Marialis cultus. n. 25).

Em segundo lugar, é necessário purificar, sobretudo nas revistas e movimentos marianos, a apresentação da doutrina e piedade para Maria como se ela fosse uma deusa. A virgindade de Maria é fé universal dos cristãos e uma verdade revelada (Lc 1, 34-35). Ela era desconhecida do público (Lc 3, 23) e foi proclamada na Igreja primitiva e nas profissões de fé, como um fato sobrenatural, como o fora em Lucas e Mateus (1,18).A concepção virginal não é o fundamento da divindade de Cristo mas somente o seu sinal revelador. Ela não é fruto da união mitológica de um deus com uma mulher, como ocorre entre os deuses pagãos. Ela atesta: em Jesus a própria pessoa do Filho eterno de Deus se encarnou humanamente em Maria. A tradição judaica nunca esperou, nem espera, uma concepção virginal do Messias. Isso até levou à fábula talmúdica sobre Jesus, na qual ele é apresentado como um filho adulterino de Maria com um soldado romano.

Existem razões de diversas ordens para a virgindade de Maria. De ordem pedagógica: trata-se de uma nova criação e não de uma nova geração. Deus não é pai biológico de Jesus. E se fosse José, Jesus não se revelaria como filho único. De ordem ontológica: Cristo é o Verbo divino encarnado. Se ele fosse fruto da relação de duas pessoas humanas, ele seria uma pessoa humana. É como um rapto celeste, evocado por S. Tomás de Aquino: Maria acolhe uma pessoa divina pré-existente como dom gratuito do amor de Deus, não como fruto de uma vontade humana, um dom humano (Jo 1,12-13).

A virgindade de Maria é um sinal de sua consagração a Deus na concepção e na vida. O próprio e único de Maria não é ser virgem ou a mais pura das virgens. Mas ser virgem na própria maternidade. Sua virgindade floresce na maternidade que, ao invés de destruí-la, a consome e consagra (L.G. 57). Sempre virgem, significa sem gerar outros filhos e marca o prolongamento do “sim” dado à encarnação. Ela renuncia a toda relação carnal para ser unicamente mãe do Cristo. Como muitas leigas consagradas e religiosas o fazem e encontram em Maria um modelo de fé.

O princípio da hierarquia das verdades foi proposto no Concílio do Vaticano II. Existem verdades da ordem dos fins (por exemplo, a Trindade) e da ordem dos meios (por exemplo, a hierarquia eclesial). A teologia marial não é secundária mas é segunda com relação ao Cristo de quem ela depende e de quem recebe sua legitimidade. As aparições não tem o papel de fundar a fé mas servi-la. E não cabe atribuir a Maria o que é próprio de Deus (inflacionismo), como perdoar. Por isso, a Igreja recomenda privilegiar a representação da Virgem com o seu Filho, sempre coloca diante dela, como nas imagens de N. S. Auxiliadora e tantas outras.

As mulheres cristãs devem ter claro o que são os dados centrais da fé e os dados periféricos. E isso implica vigilância e exigência. Mesmo na devoção a Maria.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *