BATIZAR POR TRADIÇÃO


(7/8/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

Alguns ministros da Igreja criticam os pais que buscam batizar os filhos por tradição. Para esses ministros, batizar por tradição é batizar por costume. E o costume ou a tradição não são motivos válidos. Grave engano. A palavra tradição, do latim traditione, traditio, significa o ato de entregar, transmitir, dar ou deixar por herança. A tradição evoca: a transmissão oral de lendas, fatos etc., de idade em idade, geração em geração; a transmissão de valores espirituais através de gerações; o conhecimento ou prática resultante de transmissão oral ou de hábitos inveterados; a recordação e memória. Todos esses processos operam na gratuidade e são um dom. A palavra traição também tem a mesma raiz etimológica e designa o ato de entregar ao inimigo uma cidade, um segredo ou um país, mas nunca de forma gratuita. No campo pastoral, existem pelo menos três tradições a serem consideradas: a familiar, a apostólica e a eclesial. A Igreja batiza por tradição, batiza nas três tradições.

A tradição apostólica evoca as verdades concernentes à fé cristã, recebidas da Igreja primitiva e depois ensinadas às várias comunidades. O apóstolo Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, diz: “Eu vos felicito por vos lembrardes de mim em toda ocasião e conservardes as tradições tais como eu vo-las transmiti.” (1Co 11,2). O fato é que, na tradição, mediatizam-se, constantemente o passado e o presente. Se é verdade que a tradição apostólica não pode ser confundida com uma instituição particular, também é verdade que a Igreja católica a veicula e transmite, num dinamismo inigualável de fidelidade e inovação, inclusive no batismo.

A tradição eclesial não trata essencialmente da conservação ou da preservação de algo imutável ou passado mas de uma presença atual, a do Cristo. Nos evangelhos, a controvérsia sobre a tradição, tendo de um lado Jesus e do outro os fariseus e escribas, marca desde o início essa perspectiva renovadora do Cristianismo (Mt 15,1-9; Mc 7,1-13). Mesmo assim, muita gente associa a idéia de tradição ao conservadorismo, à manutenção de práticas, costumes e idéias ultrapassadas ou arcaicas. Desde os padres da Igreja, e em toda a tradição apostólica, Jesus é o sujeito e o objeto das escrituras sagradas, um Deus que tomou rosto humano. Batizar na tradição é revelar Deus e no mesmo movimento o homem, aqui e agora. Nunc et in hora.

O espírito da tradição é precioso. Quem busca batizar os filhos por tradição, como foram batizados seus pais e avós, merece uma acolhida calorosa e fraterna da comunidade cristã, partícipe da mesma tradição. Os pais sentem-se inserido numa cadeia de gerações, tocada pela luz da fé. Eles, como ascendentes diligentes, estão enxertados na árvore da vida, na genealogia celeste. Dentro dessa tradição, pretendem batizar e inserir seus filhos e descendentes. Como indica o Cânon 867: “os pais têm a obrigação de cuidar que as crianças sejam batizadas dentro das primeiras semanas”. As pessoas simples sabem que o batismo e o ato de batizar são uma tradição da Igreja, mesmo se não alcançam toda a sua dimensão. A palavra simples significa “sem prega”, sem dobra. Alguém que não se retorna sobre si mesmo mas está plenamente aberto à graça de Deus. Os simples são bem-aventurados. Às vezes, enfrentam incompreensão e hostilidade por parte de ministros da Igreja, extremamente secularizados e racionalistas, que os acolhem como ignorantes em matéria de fé. Quem deseja o batismo por tradição deve ser animado pedagogicamente a crescer na fé e em suas intuições profundas, e não desestimulado pela falta de caridade ou acolhida na Igreja.

A tradição judaica cuidava da transmissão de opiniões, fatos, explicações e decisões jurídicas dos doutores da Escritura, a tradição dos anciãos (Mc 7, 3-9), mas não da vida mesma desses doutores. No caso de Jesus, sua experiência humana e o drama da sua vida (paixão, morte e ressurreição) são tão importantes para Igreja quanto a sua palavra. O entendimento de suas palavras e sua vida deve ser aprofundado no seio de uma tradição viva, das famílias e da Igreja. Jesus é a exegese das escrituras. Aquele que elas revelam. O sacramento do batismo e todo o rito da iniciação cristã deveriam ser refletidos e aprofundados nessa perspectiva, em particular, por quem tem a responsabilidade do catecumenato. Desprezar a tradição ou, pior ainda, não entendê-la, é esquecer que nossa ascensão ao Pai depende também dos nossos ascendentes. De outra forma, seríamos filhos do Nada. Começaríamos em nós mesmos e – como muitas seitas de hoje em dia, desvinculadas da tradição apostólica – nos tornaríamos sementes de Caos “Assim, pois, irmãos, ficai inabaláveis e guardai firmemente as tradições que vos ensinamos, de viva voz ou por carta.” (2Te 2,15). Que o Cosmos da tradição brilhe em nosso firmamento!

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Batizar por tradição. A Tribuna, Campinas – SP, v. 91, p. 10 – 12, 2000.

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