AS TRÊS REFEIÇÕES


(13/5/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

Três refeições enquadram praticamente toda a história sagrada. A primeira, uma verdadeira antirrefeição, ocorre no jardim do Éden. Envolve serpente, mulher, homem e fruto da árvore do conhecer bem e mal. A segunda, paradigmática, restaura e re-estabelece o que havia sido perdido com a anti-refeição do Éden e ocorre na instauração da eucaristia por Jesus. A terceira é escatológica: o anunciado banquete celeste, o banquete de núpcias entre o Esposo e sua Esposa, entre a virgem e seu Amado.

Na história sagrada, Deus só celebra sua aliança com seres separados, diferenciados em sua identidade. Enquanto o hebreu está fundido com o egípcio, não há possibilidade de aliança. A fusão leva à confusão. Em hebraico, textualmente, diz-se “cortar” uma aliança. E é no sexo o lugar escolhido por Deus para marcar sua aliança coma descendência de Abrahão. A circuncisão marca essa aliança, ao cortar um anel do prepúcio do recém-nascido. Da mesma forma, a aliança colocada no dedo pelos esposos, divide-o em dois e é símbolo de separação. Ela indica, ao separar o dedo único em duas partes, que dois seres diferentes, livres e com identidade própria, decidiram unir-se. Cada um respeitando a identidade e a integridade do outro. Esse é o sentido das verdadeiras alianças bíblicas, opostas à fusão, ao impulso de devorar o outro ou ser absorvido por ele, como num ato de canibalismo.

Os exemplos bíblicos dessa necessária separação libertadora, marcada pela presença da espada diferenciadora, são muitos. O de Salomão com as prostitutas é eloqüente (1Re 3,16-28). A primeira era tão apegada ao filho que dele não se separava sequer para dormir. Acaba por sufocá-lo! E troca os bebês. Elas comparecem diante de Salomão reivindicando a mesma e única criança viva. Salomão convoca a presença da espada. A mãe da criança morta aceita a divisão do bebê em dois. Que uma metade, uma igualdade, seja dada, a cada uma das mães. A mãe verdadeira prefere separar-se do filho, do que vê-lo morrer. Ela “toma” a espada e corta seu vínculo de posse com ele. Antes de o soldado levantar a sua espada divisora, a mãe já havia deixado o seu gume afiado cortar qualquer vínculo de posse entre ela e o filho. Ela ama mais o filho do que a ligação que a une a ele.

A mesma espada da alteridade Jesus veio trazer para separar os alienados, fundidos e confundidos, escravizados e imobilizados em falsas identificações. Então, porque o comer – do ponto de vista psicológico e psicanalítico geralmente visto como algo negativo, anulador de diferenças, desintegrador, associado ao “devorar” o outro – está tão presente na tradição religiosa judeu-cristã? Como entender que um dos principais ritos do cristianismo seja justamente a comunhão? Como entender essas refeições bíblicas e a participação eucarística à ceia do Senhor?

A anti-refeição do Éden

O Senhor de todo poder prepara sobre esta montanha

um festim para todos os povos,

um festim de carnes gordas e de vinhos velhos,

de carnes gordas suculentas e de vinhos velhos decantados.

Isaías 25,6

No texto infinitamente polissêmico do Gênesis (2,16), Deus ordena ao humano: “De toda árvore do jardim comer, comerás, mas da árvore do conhecer bem e mal, não comerás, sim, no dia em que dela comeres, morrerás, morrerás”. Existe então um comer que pode ser mortal. Deus não menciona o fruto, nem o não tocar, apenas o comer. Mas, no capítulo 3, a mentira está solta. A serpente começa sua fala mentindo, invertendo a ordem divina: “Então, Deus disse: `Não comereis de toda árvore do jardim´…”. Presa nas malhas do imaginário e da alienação, Eva mente como a serpente e agrega proibições por conta própria: “Nós comeremos os frutos das árvores do jardim, mas do fruto da árvore no meio do jardim Deus disse: Não o comereis, não o tocareis, para não serdes mortos”. Ora, Deus não proibiu fruto algum. Deus não falou não tocarás. Segundo Eva, Deus deu três proibições: não comer, não tocar, não morrer!

A serpente propõe: “Não morrer vós morrereis. Que Elohim conhece, que no dia de vosso comer dele, vossos olhos serão abertos, vós sereis como Elohim (como deuses) conhecedores bem e mal”. O comer proposto pela serpente anula todas as diferenças. É a perda total de identidade: comer a diferença. A serpente propõe o fim do monoteísmo (deuses), da diferença entre finito e infinito, da diferença entre sexos. Todos iguais. Ao invés de ser semelhante ao Deus da vida e da verdade, a serpente leva o homem a uma nova e falsa identidade: a de uma divindade a mais entre as outras. A diferença que desaparece no humano se transforma em multiplicidade indiferenciada nos deuses. Que beleza! Todos iguais: mesma língua, visão do mundo… Reduzir e eliminar todas as diferenças – tanto das iniqüidades como da identidade (freqüentemente umas levam às outras) -, é um sonho ou pesadelo rastejante que sonhamos acordados desde Babel.

“Eva toma de seu fruto. Ela come. Ela dá a seu homem com ela. Ele come”. Esses detalhes da operação, estranhos nesse texto, são fundamentais para entender-se sua dinâmica nada eucarística. Aqui, não é uma refeição, uma ceia, uma ação de graças. Eles não partem. Nem repartem. Ela come primeiro, depois dá e ele come. Daí em diante, a serpente, rastejando em duas dimensões, vai comer pó. O Homem, ereto em três dimensões, ao pó voltará. Vestes de pele cobrirão seus corpos, como o hímen e o prepúcio, membranas que velam o sexo. Para o Homem, o desejo de ser fusão para sempre, como na paixão ou no sonho, de abdicar da identidade pessoal, o leva a tornar-se ator e não autor de si mesmo. Tornar-se um dominante – dominado, sofrendo para parir, sofrendo para nutrir, sem porvir e sem ruptura desse estado. Na saída do Éden, entra-se no grande trabalho humano. Trabalhar o húmus do qual fomos tomados. Trabalhar o Homem.

A refeição eucarística

Feliz de quem participar da refeição no Reino de Deus!

Lc 14,15

Esse tema também já foi infinitamente interpretado, mas nunca esgotado em sua polissemia. Limitando-se ao estrito paralelo com a anti-refeição do Éden, vê-se claramente toda a terapêutica da última refeição de Jesus, já sinalizada como pródomo na ceia de Caná, na Galiléia. Seria a eucaristia uma operação inversa da diferenciação, da singularização tão necessária em cada indivíduo? As palavras transmitidas por dois mil anos de tradição eclesial indicam a direção desse ato de salvação.

Na celebração eucarística inaugurada por Jesus, a dialética do bem e do mal volta em plenitude. Na eucaristia não se trata somente do pão e do vinho, mas de uma fração do pão, muitas vezes traduzida – somente e equivocadamente – como partilha de pão. O assunto é retomado por Jesus a partir do mal: comer, mas por dom, e não por tomada ou posse. Imagine-se convidado para uma refeição numa casa em que o anfitrião solitário senta-se à mesa, come primeiro e depois convida os presentes para comer. É o que faz Eva, em sua anti-refeição do Éden. Não é o que faz Jesus.

O relato é praticamente o mesmo nos três evangelhos, textualmente: Ele tomou (o) pão, e tendo o abençoado, Ele o rompeu. E deu-lhes e disse: Tomai isto é o corpo de Eu.”

O verbo empregado não é o verbo repartir e sim partir, romper. Na eucaristia, Ele não reparte o pão, no sentido igualitário ou igualitarista, tão caro a alguns. Ele não dá a cada um a mesma porção, devidamente cortada, calculada ou pesada. Ele parte, quebra, rompe (klao em grego) o pão. Jesus toma um pão único, singular, o rompe e parte em pedaços. Esse partir, que não é repartir e gera partes desiguais, deveria ser objeto de uma reflexão mais aprofundada neste novo milênio e no Congresso Eucarístico.

O que dá Jesus a cada discípulo? Não é uma partilha de pão. Não se trata, nem de caridade, nem mesmo de justiça. Ele dá uma ruptura, uma fração de pão. Ruptura de pão precedida de uma benção. O pão único é rompido para alimentar cada um de separação, diferenciação e identidade única, condição necessária para a celebração da aliança com Deus. Jesus refaz uma diferenciação a partir do ato mesmo que a aboliria: pão e vinho. É uma diferença que é recebida, comida e absorvida.

Ele não fala: que isto seja o meu corpo, mas “isto é o meu corpo”, o corpo do Verbo. Não materialmente, do indivíduo Jesus, ainda fisicamente presente naquela noite! Ele fala do corpo do Eu sou, do Eu, revelado presente no pão rompido em pedaços. O vinho também não é só vinho, mas “vinho derramado”, vertido. Depois do pão rompido para libertar, o vinho vertido para aliar (“vinho da aliança”). Separação e aliança. Agora como veias diferenciadas de um sistema circulatório, do qual ele é o coração, cada discípulo levará este sangue novo, oxigenado, para renovar toda a face da Terra. A eucaristia, nesta leitura, representa uma refeição extraordinária, paradoxal, que afasta aqueles que ela reúne.

É dado graças (eucharistia): que este impulso, este corpo fusional e anulador das diferenças, seja rompido, quebrado, libertando os humanos para aliá-los num corpo de Palavra. Isso não poderia ser, sem corte, sem ruptura (kairós). Em muitos ritos religiosos, come-se o corpo do deus, em refeições totêmicas, marcadas pelo movimento fusional (devora-se o pai, no sentido freudiano). Na eucaristia, ao comer a fração desse corpo, passa-se do ídolo ao Verbo. A diferenciação no Verbo permite operar simbolicamente e celebrar as alianças entre sexos, gerações, raças e nações, guardando suas autonomias e identidades. Pertencer a Cristo e ao povo de Deus, entrar na comunhão dos santos, significa realizar uma ruptura, participar de uma ruptura. Cada um, quanto mais diferenciado e único, mais se aproxima da imagem de Deus. Como numa velha fábula judaica, onde a criança pergunta ao rabi: – Porque os homens são todos diferentes? E este responde: – Porque todos são imagem de Deus.

O banquete de núpcias

Assim comereis e bebereis em minha mesa em meu reino.

Lc 22,30

Aqui também o tema das bodas já foi lido e relido em interpretações espirituais surpreendentes e provocadoras. Desde seus primeiros séculos, para a Igreja, no banquete de núpcias de Caná na Galiléia, Cristo era a sétima jarra do vinho da alegria. As bodas de Caná prefiguram uma imagem repetidamente retomada no ministério de Jesus: a vinda do Filho do Homem como o festim messiânico (Ap 19,9). A passagem à eternidade é apresentada por Jesus como um banquete de núpcias (Mt 22,1-14), como o encontro da virgem com o esposo (Mt 8,11; Mt 24,43-51; Mt 25, 1-13; Lc 12,35-38; Lc 14, 15-24; LC 22,16.18.30). Jesus recorre às pulsões do sexo e da nutrição, para simbolizar as realidades escatológicas.

O banquete sagrado (Ex 24,11; Dt 16,13-15; 1Sm 9,13; Ne 8,10-12) era uma imagem da tradição judaica. Ciente e zeloso da Lei, do seu alcance e necessidade, por fidelidade, Jesus a ultrapassa. Existe um casamento místico ao qual todos nós fomos chamados. Fruto da harmonização de nossas antinomias interiores, no casamento místico, não se trata de fazer, mas de deixar-se fazer. Não se trata mais de vontade, mas de consentimento responsável. Assim como nos entregamos a Deus, Ele também se entrega a nós. Essas entregas mútuas e progressivas marcam nossa existência vacilante e são a fonte de nossa identidade única. Na passagem da morte, na hora da páscoa, diante dos céus abertos, essa entrega mútua poderá ser total. Esse conhecimento recíproco, oposto à fusão, fruto da aliança, será plenitude e eucaristia.

Relatos evangélicos são aproximações da experiência, da vida e da mensagem de Jesus. O alcance pleno dessa experiência não se esgota, nem é esgotada, nas e pelas escrituras. Cada um, num caminho de fidelidade às suas exigências interiores pode aproximar-se da vida humana de Jesus, assim como da sua vida única que é a vida verdadeira, fruto da alteridade de cada um de nós. Na medida em que somos fiéis a essas exigências, descobrimos novas exigências e novas realidades interiores que nos levam mais longe neste caminho de fidelidade. A cada chamado, uma resposta ativa. Resposta responsável. Responsável lembra bodas, pois significa casar-se (re-sponsa), desposar um tema ou uma causa.

Em certo momento, nesse caminho de fidelidade interior e profunda, começa-se a perceber que algumas dessas exigências não provêem somente de nós, mas de algo que nos ultrapassa. Ao atendê-las, ao acolhê-las, muitas vezes sem razões objetivas, estamos na plenitude da dinâmica da fé. Na Bíblia, os céus estão fechados quando não há mais comunicação com Deus. No banque celeste os céus estão abertos. Céus fechados significam inteligências fechadas sobre elas mesmas. Incapazes de ver outras coisas, de ver a presença da diferença e de se abrir realmente ao Outro. Como Narciso na mitologia, não saber que o Real é o Outro. Ele só tem olhos para si. Ao contrário da promessa da serpente, aqui realmente os olhos se abrem. O Outro pode existir. Os céus e a terra se comunicam. A inter-relação do humano com o divino traduz-se em bodas autênticas, libertadas do tempo e do espaço, no horizonte da eternidade e do agora.

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