AS SETE IGREJAS E A CAMPANHA DA FRATERNIDADE


(17/12/2013)

Evaristo Eduardo de Miranda

Na próxima Quaresma, a Campanha da Fraternidade da Igreja católica (CF 2014) terá como tema o tráfico de pessoas e como lema: É para a liberdade que Cristo nos libertou (Gl 5,1). Que liberdade é essa para qual Cristo nos libertou? E que Igreja é essa, lutando pela libertação dos cativos?

Liberdade e Fraternidade

Muitos ensinamentos bíblicos começam assim “Se o teu irmão…”. A fraternidade é sempre apresentada como um fundamento do dever de justiça para com todos. “Que o teu irmão viva com você…” (Lv 25,36). Que ele viva ao teu lado, na mesma casa, no mesmo trabalho, na mesma comunidade. Aceito e não rejeitado, acolhido e não discriminado, ajudado e não explorado, amado e não esquecido, livre e não escravizado.

O termo fraternidade é pouco utilizado na sociedade contemporânea. Para os católicos, a fraternidade é como uma imposição de consanguinidade. Ninguém pode escapar. A solidariedade não se impõe como fato da natureza, mas vêm de uma atitude pessoal. A solidariedade depende da boa ou da má vontade de cada um, diante de uma opção de atitude solidária. Ela é no máximo uma obrigação moral relativa. Apalavra da moda é solidariedade, mas a Igreja organiza uma Campanha da Fraternidade. Não seria mais eficiente organizar uma campanha da solidariedade? Não. Organizações não governamentais fazem isso melhor. A Igreja não é uma organização não governamental, disse o papa Francisco. O que ela faz na Terra, mexe com os céus!

A luta dos cristãos e particularmente da Igreja católica pela liberdade dos cativos não começou agora. São Paulo na carta aos Gálatas já anunciava a irredutibilidade da pessoa humana: somos todos iguais, todos os irmãos. Na história da Igreja, dois exemplos merecem destaque: a Ordem dos Mercedários e a Bula Papal Sublimis Deus.

S. Pedro Nolasco, em 1218, fundou a Ordem da Bem-Aventurada Virgem Maria das Mercês, voltada para redenção de cativos. Realizou ações de resgate de cristãos em poder de muçulmanos, disposto a dar a própria vida, para libertar prisioneiros que corriam perigo de perder a fé. Esse santo heroico, redentor de escravos, faleceu a 6 de maio de 1249 e é invocado como Patrono da Liberdade. Implantada nas Américas, a Ordem dos Mercedários trabalha com todos os temas da CF 2014.

Com o descobrimento da América, os índios foram escravizados, mesmo se defendidos pelos padres. O Papa Paulo III a interviu para sustentar seus missionários, a sua Igreja e afirmou, solenemente, na bula Sublimis Deus de 1537, que os índios eram homens e tinham alma. E naquele tempo, uma bula papal contava muito mais do que nos dias de hoje. Era como se fosse uma espécie de resolução da assembleia geral da ONU. A bula Sublimis Deus é considerada por juristas a primeira declaração universal dos direitos humanos. O primeiro pronunciamento papal verdadeiramente Urbi et Orbi.

As Sete Igrejas

Que Igreja é essa ao lutar fraternamente pela libertação dos cativos? Sete dimensões eclesiais levam a Igreja católica a lutar, até hoje, pela liberdade dos cativos. Nesta Quaresma, a CF 2014 com sua temática pode ajudar na reflexão sobre essa realidade de difícil compreensão: a Igreja.

Em primeiro lugar, a Igreja é um corpo. Uma imagem simples, uma das primeiras do Novo Testamento. Os católicos se sentem membros de sua Igreja. E os membros são uma parte desse corpo: a Igreja. Sua parte principal, a cabeça, é Jesus Cristo (1Cor 12, 12-14). Como escravizar um de seus membros? Ou um de seus órgãos ou uma de suas partes?

Em segundo lugar, a Igreja é o Povo de Deus. Para ser membro desse povo, dessa nação, não basta nascer em tal ou tal lugar ou falar uma língua. O católico se torna um cidadão desse povo por nascimento espiritual, pela água e Espírito (batismo). Tem até certidão e sinais de identidade (cruz, terço etc.). O povo de Deus é livre (Gl 3,27-28).

Em terceiro lugar, a Igreja é um povo convocado. Os católicos são pacíficos, mas não passivos. Eles não aceitam nenhuma forma de escravidão (Jo 8,30-34 e até 50). Não são escravos. Nem do poder político, nem das paixões humanas. Meditam as coisas de Deus e as proclamam, junto com sua liberdade. A Igreja é um povo de profetas, reis e sacerdotes. O governante do povo católico, do leigo ao Papa, está a serviço. Seu programa político é colocar-se a serviço de Deus e do outro: libertar e não escravizar.

Em quarto lugar, Igreja é a relação entre Jesus e os católicos. Não há separação e eles estão em constante relação mística. Igreja em todo momento da vida do católico. É sinal da cruz para cá e para lá, rezas e expressões (Deus te abençoe; Deus lhe pague…). Entre Jesus e os católicos, o sangue circula o tempo todo, como entre o coração e os membros do corpo. Vivemos em Cristo (Gl 2,20).

Em quinto lugar, a Igreja é a Esposa de Cristo. Essa é uma imagem da intimidade espiritual profunda de cada um com Jesus. A Igreja é o conjunto das relações de amor de cada um e de todos com Cristo. Essa relação é tão forte que o Senhor não está apenas no meio de nós, mas dentro de cada um, na profundidade do ser. Somos templos do Espírito que vivifica, ilumina e conduz num caminho de liberdade. Correntes e laços são deixados para trás. Jamais seremos escravos ou traficantes de nós mesmos ou alienados às realidades e ilusões deste mundo.

Em sexto lugar, a Igreja é transcendental. A Igreja é Peregrina e Triunfante, terrestre e celeste. A Igreja não é uma organização não governamental. Ela é sobrenatural, é comunhão dos santos, dos remidos, os libertos do poder da morte! Com a caminhada, muitos santificam suas vidas. Não é possível amar Jesus Cristo e não amar a Igreja. Quem ofende um deles, ofende o outro.

Em sétimo lugar, a Igreja é uma instituição. Existe a organização institucional da Igreja, sem a qual ninguém sobrevive. Adaptada e adaptável, a Igreja está sempre mudando e se renovando. O Papa Francisco é um exemplo. Ele reforma e renova estruturas eclesiais. Ele busca sempre a liberdade de evangelizar e libertar cada ser humano na pessoa de Jesus.

Corpo. Povo de Deus. Povo liberto e a serviço. Relação mística. Esposa e Templo do Espírito. Comunhão dos Santos. Divinamente Instituída. A Igreja é muito mais do que tudo isso e do que aquilo à qual a reduzem. Deus nos ajude a refletir, a nos converter e a fazer da próxima Quaresma e da CF 2014 uma expressão do ser Igreja e da Igreja.

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