AS MAIORES VÍTIMAS DO DESEMPREGO


(28/4/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

Novidade assustadora para muitos, os altos índices de desemprego vitimam a sociedade brasileira. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil definiu os desempregados como tema central da Campanha da Fraternidade-99. Mas existem brasileiros vivendo o desemprego, em níveis nunca atingidos no país: as pessoas deficientes. Excluídos por excelência, os deficientes físicos, sensoriais e mentais enfrentam uma discriminação crônica e gravíssima em matéria de emprego, em qualquer região, categoria ou área profissional. São milhões de pessoas para quem grande parte da sociedade sequer cogita da possibilidade do direito a um trabalho. E quantos não foram vitimados por acidentes de trabalho!

O trabalho é instrumento fundamental na realização de qualquer pessoa adulta. Um trabalho criativo – útil aos outros, fonte de renda para atender as necessidades e gostos pessoais – é direito e aspiração de todos. O trabalho está entre um dos principais valores que permitem a uma pessoa deficiente adquirir e viver de forma autônoma. Nele manifesta-se também nossa necessidade e obrigação de servir aos demais. São motivos lícitos, legítimos e engrandecedores da realidade humana e do próprio trabalho.

Mas se é verdade que o mundo do trabalho integra cada vez mais deficientes físicos e sensoriais, o mesmo não ocorre com os deficientes mentais. Milhares de desculpas, expressas ou tácitas, são apresentadas por empresas e familiares de deficientes: eles não entendem o trabalho, dão uma má imagem da empresa, cometem muitos erros, não têm como integrar-se na cadeia produtiva, não existem vagas onde possam atuar, não são competitivos, reduzem a produtividade, seria arriscado para o deficiente, é perigoso etc.

Uma vez transcorrida a etapa educativa formal, a qual um número cada vez maior de deficientes têm acesso, graças a inclusão escolar, é normal que encontrem uma ocupação, dediquem-lhe boa parte de seu dia, realizando um trabalho de maior ou menor produtividade, como as demais pessoas. Hoje existem fórmulas paliativas de emprego para deficientes mentais: oficinas, centros especializados e até trabalho em empresa comum, sob coordenação de APAEs, por exemplo. Essas opções têm características e objetivos diferentes: manter a pessoa ocupada ou simplesmente entretida, realizar tarefas simples e até produzir bens para o mercado. Todos esses modelos são necessários pois preenchem um papel social importante, mas o que familiares e deficientes reivindicam é a inclusão social: participar da cadeia produtiva, em função do grau da deficiência e das características pessoais de cada um.

O trabalho é um valor quando está a serviço das pessoas. Servimos os outros e nos beneficiamos. Com indica o Dr. Jesus Flores, catedrático da Universidade de Cantabria, para o deficiente mental, o trabalho amplia a autonomia pessoal, as relações, a linguagem, a capacidade cognitiva, o sentimento de identidade e a satisfação pessoal.. Mesmo se existem riscos inerentes ao mundo do trabalho: exploração, manipulação, violências etc.

Diante do quadro de desemprego no Brasil, a colocação das pessoas com deficiência mental no mundo do trabalho é um magnífico e desejado desafio. Ele enseja a crença na capacidade dos deficientes e a demanda um apoio adequado da família e amigos para tentar essa experiência autônoma. Apoio para encontrar um emprego; para aprender e realizar as tarefas de sua responsabilidade; para adaptar sua vida a nova realidade social que inclui chefe, companheiros, horários, deslocamentos, direitos, deveres…; para que os companheiros o aceitem, não o subestimem, nem superprotejam; apoio para solucionar problemas que podem surgir ao longo da experiência e, finalmente, um apoio corajoso e confiante da família para esse membro, que agora amplia bruscamente seu universo e sua autonomia.

Existe também uma necessidade especial de tempo, numa sociedade que tem pressa. O Dr. Flores destaca que o trabalho não deve converter-se no único interesse da pessoa portadora de deficiência. Ela deve ter tempo para elaborar, seguir sua formação e cuidar da forma física. Tempo para abrir-se para outras experiências humanas que enriqueçam sua existência pessoal. Por isso, o tempo de trabalho dos deficientes, às vezes, implica em horários flexíveis, compatíveis com a realização de outras atividades. É esse apoio, essa fraternidade, esse tempo que ajudam os deficientes a encontrarem os sentidos de sua rica existência.

Como contribuir para abrir as portas do trabalho para as pessoas deficientes? Sejam algumas horas semanais ou o dia inteiro, segundo as capacidades pessoais e as possibilidades reais das empresas, o fundamental é construir a comunidade humana em sua diversidade e alteridade. O trabalho comum e ordinário deve ser fonte de satisfação, gratificação para todos e não desesperança ou motivo de frustração. Empresas que empregam deficientes sabem a qualidade dessas pessoas e a contribuição inestimável e inédita que trazem ao mundo do trabalho. Parentes, amigos, colegas de trabalho e empresários vivem, mais uma vez, com surpresa e alegria, a frase do evangelho: “A pedra que os construtores rejeitaram, tornou-se a pedra principal (Mt 21, 42)”.

1 comment for “AS MAIORES VÍTIMAS DO DESEMPREGO

  1. 18 de agosto de 2016 at 23:24

    É difícil conseguir emprego hoje, muitos desempregados no país.

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