AS CHAVES DO REINO


(16/5/2002)

Evaristo Eduardo de Miranda

Existem chaves preciosas para superar a passagem das antinomias, do interior e exterior, do atar e desatar, do abrir e fechar, do entrar e sair. Na tradição cristã, quem recebeu o poder das chaves foi Pedro. As consoantes da palavra Petros (PTR), em hebraico (petehá ou potehá), significam “aquele que abre”. Simbolicamente, quem recebe as chaves tem o papel da iniciação e discriminação. O poder das chaves permite ligar e desligar, abrir ou fechar, coagular e dissolver. É fundamentado nessa tradição que João Paulo II enfrenta sua velhice, vai ao México e canoniza o primeiro santo indígena das Américas.

Jesus confiou sua Igreja, e as chaves de suas portas, a Pedro, em duas ocasiões.A primeira foi no norte da Galiléia, no início de sua missão (Mt 16,13). “E vós, quem dizeis que sou?” (Mt 16,14). Simão Pedro, interpretando todos os discípulos ou falando por si mesmo, responde e diz: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” (Mt 16,15). Pedro reconhece em Jesus e declara o Messias, mashiá, o ungido de Deus, escolhido para ser o rei de Israel e seu salvador. Mais tarde, os cristãos entenderão Jesus como aquele com quem Deus mantém uma relação filial inigualável, a quem foi confiada a missão da salvação dos homens (Mt 1,21; 2,15; 3,17; 4,3; 11,25-27; 26,23).

“Em marcha, Shimon bar Iona, porque nem carne nem sangue te revelaram isso, mas sim meu pai que está nos céus! Mas eu mesmo te digo: Tu és Petros – Pedro – E sobre essa pedra – petra – Eu construirei minha igreja. As portas do Sheol não serão mais fortes que ela. Eu te dou as chaves do reino dos céus. O que ligares na terra será ligado nos céus. O que desligares na terra será desligado nos céus.” (Mt 16, 17-21). No aramaico falado por Jesus, Pedro e pedra são palavras masculinas, o que dá mais perfeição a esse trocadilho. Na primeira vez que Jesus encontrou esse apóstolo, já havia mudado seu nome: “Tu te chamaras Céfas, isto é, pedra” (Jo 1,42). Os nomes impostos por Deus não são palavras vazias ou gratuitas. Na organização social da igreja nascente, Pedro terá um papel de fundamento, de pedra angular e não de tropeço!

Nessa perícope de Mateus, Cristo dirige-se exclusivamente a Pedro. Usa pronomes pessoais tu, te etc.; usa a conjunção copulativa e, do adjetivo demonstrativo enfático esta, além do nome de origem Simão, do nome de família Bar Iona, para em seguida, conferir-lhe plenos poderes sobre essa comunidade divinamente inspirada: dar-te-ei as chaves do céus. A metáfora da entrega das chaves era comum no oriente como símbolo do poder. Possuir as chaves de uma casa, palácio ou cidade era ter em mãos o direito de admitir ou rejeitar pessoas, era ter o direito de abri-la e fechá-la. Ainda hoje, quem vende ou aluga uma casa confere o pleno domínio sobre ela a um terceiro quando lhe entrega as chaves. Esse sentido de poder está no Apocalipse: “tenho as chaves da morte e do inferno, isto é, o poder da morte e do inferno” (Ap 1,18) e ainda “Isso diz o Santo e o Verdadeiro, aquele que tem as chaves de Davi: se ele abre, ninguém fecha, se fecha, ninguém abre” (Ap 3,7).

Todos os evangelistas, sem exceção, ao falar dos doze e listar seus nomes, dão Pedro em primeiro lugar, um lugar de honra e de primaz, enquanto Judas Ish Hariot fica sempre com o último. É assim em Mateus (10,2-4), em Marcos (3,16-19), em Lucas (6,13-16) e nos Atos dos Apóstolos (1,13). O termo grego prótos, traduzido como primeiro, – “O primeiro é Simão que se chama Pedro” (Mt 10,2) – quer dizer primeiro em posição, em honra e dignidade. Como em Mateus (20,27): “o que entre vós quiser ser o primeiro, seja este vosso servo” ou em Marcos 12,28: “Qual era o primeiro de todos os mandamentos?” para logo agregar “Nenhum outro mandamento há que seja maior do que estes” (Mc 12.31). O termo também designa o “príncipe”, de onde a expressão da tradição cristã “príncipe dos apóstolos” atribuída ao apóstolo Pedro, como nos Atos dos Apóstolos (28,7): “Naqueles lugares havia umas terras do príncipe (protos) da ilha, chamado Públio…”.

A tradição do papado tem suas raízes em Pedro. Foi o papa quem convocou, presidiu e confirmou todos os concílios gerais da Igreja, desde Nicéia até o Vaticano II. Um testemunho importante da primazia do papado ocorreu nos anos 90, no início do cristianismo. A igreja de Corinto estava em crise. João evangelista vivia em Éfeso, perto de Corinto. Para resolver seus problemas, a igreja local recorreu a Roma, ao papa, e não a João. O papa Clemente (90-99) enviou um delegado com uma carta – cujo conteúdo foi guardado junto às escrituras, por aquela comunidade, durante séculos. Suas determinações foram acatadas. Porque João não interferiu, nem a ele recorreu-se? Porque não recebera de Cristo esse poder de direção e governo da Igreja, expresso claramente como serviço, numa aurora relatada no evangelho de João (Jo 21).

Duas chaves estão presentes no brasão papal como símbolo do legado de Pedro, uma de ouro e outra de prata. Elas indicam o ideal do papado capaz de ver e superar a dualidade das coisas, os prós e contras, o interior e exterior, o inconsciente e consciente, o racional e intuitivo, orientando passagens e transições, marcando a evolução do passado ao futuro, de um estado a outro, de uma visão a outra, de um universo a outro. O papado é como uma janela aberta. As palavras janeiro (que abre o ano) e janela (que abre para os dois lados) têm a mesma origem etimológica.

No brasão papal está materializado o duplo aspecto do poder, diurno e noturno. Imanente e transcendente. Sobre o papa está a responsabilidade do sucessor do apóstolo Pedro e a tarefa de buscar manter a unidade dos doze. Quem exerce um poder sem conhecimento cai no autoritarismo, nas relações de força. A pessoa se torna o que fecha e não o que abre. Mas cada apóstolo também recebeu esse poder através de Pedro. Cada um de nós recebe um poder que pertence a todos. João no pé da cruz não se torna “filho” de Maria? Para a Igreja católica, cada apóstolo é símbolo de um dom recebido.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. As chaves do Reino. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 3, p. 1, 2002.

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