AS ÁGUAS NA TRADIÇÃO JUDAICA


(12/1/2004)

Evaristo Eduardo de Miranda

Para a tradição judaica e cristã, muito coisa surgiu e pode surgir das águas: um peixe, uma baleia, um batizado, um rumor, um Moisés, uma caravela, um alísio, uma esponja, um tzadik, uma âncora, muitos corais, canoas e redes, além de cantos e pérolas. E até moedas de ouro, de prata, dracmas e didracmas evangélicos, sorrindo dos cobradores de impostas na boca de um peixe pescado por Pedro (Mt 17, 12-27). No relato bíblico da criação (Gn 1), Deus cria os céus, a terra e a luz, mas não cria as águas. Para alguns, elas já existiam. Precederam a criação. De onde surgiram? As águas não são mencionadas de forma explícita. São como pressupostas no relato bíblico da criação.

O mundo criado, Deus mobiliza e usa as águas para fazer barro com o pó da terra e modelar o humano. Nobre propósito. Daí em diante, as águas seguirão sendo convocadas pelo divino e pelo humano ao longo de todo o texto bíblico. Das 664 citações ou empregos da palavra água na Bíblia, 591 ocorrem nas úmidas páginas do Primeiro Testamento. No Novo ou Segundo Testamento são apenas 73 citações. Como nas águas do texto do Primeiro Testamento, existem episódios fortes, belos, poéticos, trágicos, cômicos, sinistros, românticos, miraculosos…. enfim, de todo o tipo.

Nessas quase 600 citações do Primeiro Testamento estão, entre muitos episódios, o das águas brotando no deserto para salvar a escrava e concubina de Abrão, Agar e seu filho; as águas infinitas do dilúvio (mabul); as do orvalho, das chuvas e tempestades bíblicas; as águas dos rios (Mesopotâmicos, Yaboc, Jordão…) atravessadas por homens caminhantes e passantes (ivrim); as águas das emersões (Moisés no Nilo); das imersões (Jonas); as das transmutações (água transmutada em sangue, em amargura); as águas partidas e separadas como muralhas na travessia do Mar dos Limites (Yam Sof), do Mar Vermelho; as das nascentes, cisternas e poços (Berot, Ber Sheba, Jacó…), fontes de alegrias, de namoros, de guerras e disputas; as águas em gotas, copos, jarras, vasos e bebedouros; a águas das abluções cultuais e rituais (lavando pés, corpos, mãos, entranhas de animais, vestimentas etc.); as raras águas das secas decretadas por profetas… e tantas outras. E as águas terrestres são também as águas corporais.

Depois da tragédia do jardim do Éden, o humano deverá ganhar o pão com as águas do suor da sua fronte, uma forma de santificação. A mais santa das águas será sempre fruto de dons pessoais e entregas corporais. Santificação, contaminação e imaculização, sempre possível e presente em todas secreções líquidas e humanas: saliva, esperma, sangue menstrual, lágrimas, urina e suor.

Em hebraico, não existe a palavra água, no singular. Elas são sempre plural: águas, maim (mem-iud-mem), cuja pronúncia lembra, em português, a palavra mãe. Há algo de ambigüidade, de ambivalência, nessa pluralidade hídrica, nesse agá dois ó, nesse mem dois iud, como em todo envoltório materno. As águas matriciadoras, uterinas e misericordiosas (rahamim, rehemim em hebraico), essas fontes da vida, também matam, afogam, inundam e destroem. Podem ser fontes de morte. As águas de fontes murmurantes, límpidos regatos, orvalhos reluzentes, chuvas abençoadas e criadeiras, são as mesmas das tempestades, trombas d’água, inundações, nevascas, maremotos e tsunamis, aquelas vagas imensas produzidas por terremotos submarinos ou erupções vulcânicas.

Para a tradição mística judaica, e por conseqüência para a cristã, existe na origem de tudo duas águas: as de baixo e as de cima. Viviam juntas, integradas, unas, placidamente. No tohu-et-bohu, na desordem e no vazio, no assombro e na admiração. Em hebraico, tohu (tav-hei-vav), segundo Rashi, traduz o assombro e admiração do homem quando fica surpreso e confuso pelo seu vazio, pelo vazio do mundo. O assombro do vazio. Já bohu (beit-hei-vav), é uma expressão de vazio e desolação.

Essas expressões estão no início do relato bíblico da criação (beit), no livro do Gênesis, que os hebreus designam apropriadamente de Bereshit. Para a tradição judaica, a palavra bereshit contém toda a Torá! O sopro de Deus planava eroticamente sobre as faces das águas, alpani hamaim, diz textualmente o hebraico da Torá (Gn 1,2), al (ain-lamed) pani (pei-nun-iud) hamaim (hei-mem-iud-maim). Faces?

Como as águas, as faces também são sempre plural, em hebraico. E as faces bíblicas (panim) não são apenas fachadas, metades de um rosto, caras exteriores, caras metade ou aparências superiores ou inferiores. São faces internas, viscerais, intestinas. A palavra “faces” dá origem, em hebraico, ao verbo voltar-se, tornar-se, dirigir o olhar ou a consideração para algo, o equivalente em português de facear. Como na expressão: volta-te para o pó ou ao pó voltarás. Considere, dirige teu olhar, tua inteligência para o fato: és pó, terra, adamá. Uma reflexão muito distante do tom de sepultura das leituras superficiais dessa passagem do Bereshit (Gn 3,19). Essa consideração evoca a sacralidade do Humano e da Terra.

O face a face do divino com o humano é sacralizante. As faces hebraicas, duplas e plurais, sinais de alteridade relacional, são como as folhas de janelas azuis numa branca e reluzente casinha do sertão brasileiro. Elas unem interior e exterior, abrem para os dois lados, como as verdadeiras janelas. Para o úmido e para o seco, para a terra e para a água. Como o alfabeto hebraico.

As letras hebraicas são construídas a partir de três realidades geométricas: o ponto, a linha e o plano. Por extenso, iud escreve-se em hebraico (iud-vav-dalet). O iud é um ponto, vav uma linha e dalet um plano. A palavra iud, em suas letras, iud-vav-dalet, se desdobra em ponto-linha-plano. A palavra guematria, tão cara à cabalá, vem do grego geometria. Existe uma leitura, uma visão geométrica das letras hebraicas para a cabalá, anterior mesmo ao sentido das equivalências numéricas do alfabeto. Existem muitos segredos nas letras hebraicas emersas das águas e das tintas dos escribas.

Seu espelhismo dual e aquático já aparece na própria palavra maim (mem-iud-mem). Ela se escreve com três letras, com um mem de cada lado do iud. Da direita para a esquerda e da esquerda para direita pode-se ler ma e mi. Em hebraico, ma e mi correspondem aos pronomes interrogativos “o que?” e “quem?”. No centro, matriciada como num útero, está a letra iud.

A letra mem também se apresenta sob duas formas no alfabeto hebraico, sob duas geometrias. As duas grafias do mem são um símbolo da matriz que constituem as águas primordiais, uma aberta e outra fechada. As águas, como a palavra maim, contém um iud no coração de seu segredo. O iud, como um grão de mostarda, é a menor das letras do alfabeto hebraico. As energias aquáticas são inseparáveis da potência do iud, dessa semente, de onde elas germinam. As águas primordiais e matriciadoras são reveladas na Torá, antes mesmo do dia Um, antes mesmo que o verbo de Deus tenha começado a “dizer”.

Ao planar sobre elas, o Espírito, o Sopro Divino, o Ruah HaKodesh, as preenchia de sua potência paterna e as cobria como uma mãe, para delas fazer surgir toda a Criação: o arquétipo Pai-Mãe é um princípio de Unidade. Desde o “dia segundo” manifesta-se o princípio da dualidade, da separação das águas, em águas de cima e águas de baixo, chamadas de mi e ma pela tradição oral.

A letra mem indica também a origem, a proveniência, mi em hebraico. Por exemplo, para dizer: eu sou do Brasil, diz-se em hebraico: ani miBrasil ou miIsrael ou miLublin. Uma palavra e um lugar, oposto e antagônico ao das águas, é o deserto. A palavra deserto, em todo o Tanah, evoca realidades históricas, experiências divinas, campos de revelação e uma grande densidade espiritual. Em hebraico, a ausência das águas, o deserto, midbar, significa textualmente “da Palavra”, miDavar, proveniência e origem da palavra, da Torá, da Revelação.

Mi e ma são dois pronomes interrogativos em hebraico e significam respectivamente “quem?” e “o que?”. “Quem” é Deus? “Quem” é Elohim (alef-lamed-he-iud-mem)? Ao dividir-se essa palavra em dois tem-se uma primeira resposta. Ele é “Aquele”, eile, (alef-lamed-he) que está nas alturas (mimem-iud). Ele também fez “o que” (mamem-he) em baixo: Adão, adam (alef-dalet-mem). Os místicos do judaísmo contemplam na palavra Elohim (alef-lamed-he-iud-mem) o “Homem superior, das alturas” e em Adam (alef-dalet-mem), o “Homem inferior, de baixo”.

Os dois nomes, Elohim e Adam, estão contidos pelas mesmas duas letras alef e mem (final) e evocam em hebraico a palavra mãe, em (alefmem). No Nome, Elohim, Deus é Mãe e carrega em seu seio as três letras iud-he-lamed, cujo valor numérico total é 45 (30+5+10), o mesmo de Adam (1+4+40), segundo o valor semântico das letras do alfabeto hebraico.

Essas três letras, lamed-he-iud expressam a vocação de Adam. Ele deve deixar-se guiar (lamed) do he para o iud, para levar todo o cosmos do he ao iud. O Adam é chamado como uma mãe a parir-se, continuamente, sucessivamente, de terra em terra, de adamá em adamá, como na história do povo de Israel. O dalet, no coração de Adam (alef-dalet-mem), é o símbolo das portas (delet) pelas quais o homem deve passar para realizar-se, até o último lugar (maqon – mem-quf-iud-mem), a terra derradeira, Deus.

Em Adam, o Homem é um ser feito de vapor (ed) (alef-dalet), um dos estados das águas, e desejo. É também outra realidade líquida, um Homem de sangue (dam – dalet-mem). É esse sangue que os mistérios cristãos apresentam numa progressão simbólica das águas ao Espírito (1Jo 5,8). O sangue, essa vida líquida, em hebraico, é a base e a raiz de várias palavras: demut (dalet-mem-vav-tav), a semelhança (Gn 1,26), vocação final do Homem pelo mistério do seu sangue; dami (dalet-mem-iud), a porta (dalet) do mi (mem-iud), o silêncio, o calar, o repouso e a tranqüilidade de quem situa-se ou chega a outro patamar nesta existência. O valor numérico de mi é 50 (40+10) e evoca na cabalá a entrada na outra dimensão, o número seguinte da realização, da plenitude do 49 (7×7).

Dentre muitas palavras hebraicas, em dumá ou dumah (dalet-mem-he), tem-se a porta (dalet) do ma (mem-he), a calma, a tranqüilidade e no limite, a simulação (demé) de um túmulo; em damá ou damah, tem-se o verbo parecer, assemelhar-se; em dema (dalet-mem-ain), tem-se a palavra lágrima, o sangue (dalet-mem) do olho (ain). Enfim, todas essas palavras assemelhadas e consangüíneas, espelhadas na raiz dalet-mem podem deixar o leitor atordoado, do verbo hebraico demdem (dalet-mem-dalet-mem) ou no sadio crepúsculo, no dimdum (dalet-mem-dalet-vav-mem). O crepúsculo é sempre uma passagem, entre luz e trevas. É um lugar adequado ao humano. Os místicos sabem: a luz total cega tanto quanto as trevas totais. Como a falta absoluta de água ou sua abundância, são capazes de matar por sede ou afogamento.

Deus criava a partir do quê? De que ma? De que origem? De que procedência, de qual mi? Do nada? Nesse caso, haveria uma dimensão que não era ou onde não estava Deus: o nada. Então, Deus não estaria em toda parte, não seria tudo, o que seria um absurdo. Na outra hipótese, Ele criaria a partir de algo já existente, e nesse caso seria mais modelagem, do que criação. A cabalá tem uma intuição interessante sobre essa aparente contradição, sobre a qual tantos teólogos já se debruçaram: o tzimtzum, a contração. Deus estava em tudo e era tudo, o Absoluto. No momento da criação, Ele se contraiu. Para dar espaço à criação, para dar espaço ao outro, como na relação amorosa, Ele se retira, se contrai. Para os místicos cristãos, essa contração paradoxal irá até o ponto de caber num útero, numa matriz materna, através do mistério da encarnação (kenose).

A raiz mi (mem-iud) tem valor semântico 50 (40+10) e expressa o mundo divino, as águas de cima, que contraíram-se numa totalidade, num todo, num tudo, kol em hebraico, também de valor 50 (caf-lamed = 20+30). O mundo do mi é o mundo dos arquétipos. É o valor jubiloso da letra nun, da entrada em outras dimensões, da passagem das sete semanas após Pessah, páscoa, de Shavuot, do jubileu festejado a cada 50 anos. No sexto dia da criação, o primeiro Adam, o Adão, Hadam (he-alef-dalet-mem) também corresponde a energia do 50 (5+1+4+40).

Na origem, Deus também foi instaurando – aos poucos – uma certa temporalidade. Um pouco assustada, a criação foi deixando as dimensões da eternidade, para cair no tempo e no espaço. Naqueles tempos, os dias começaram a ser contados a partir do entardecer. Essa tradição segue até hoje no calendário judaico e na liturgia judaica e católica. Os dias serão designados no texto bíblico como segundo, terceiro, quarto etc. Mas este, foi chamado dia um e não dia primeiro, como abusadamente escrevem alguns tradutores. Segundo a mística judaica, o Divino era único em seu mundo e os anjos só foram criados no segundo dia. Dia um, último dia uno.

No dia segundo, no dia do dois, em sua obra de dualidade, o Divino separa as águas com um firmamento, com uma lâmina, raqia (resh-kuf-iud-ain), uma camada sólida e firme entre as águas, no centro das águas. Através dessa operação de extensão, terminam separadas em águas de cima e de baixo, o firmamento represando as primeiras. Segundo Rashi, há uma distância, um espaço, entre as águas superiores e o firmamento, bem como entre o firmamento e as águas que estão sobre a terra. Disso conclui-se: as águas estão suspensas pela ordem, pela palavra do Rei. Ele criou um face a face entre as águas, entre águas e firmamento, um vis-à-vis aquático. O firmamento, traduzido pelos LVXX na Septuaginta por stereoma, significava suporte, matéria firme, de onde a genialidade de São Jerônimo ao adotar na Vulgata essa palavra para traduzir raqia. Com o tempo, pelo latim eclesiástico, firmamentum, essa palavra adquiriu o sentido de abóboda celeste. Não era o sentido original desejado por São Jerônimo, nem pelo texto hebraico, como sinaliza André Chouraqui.

Ao contrário do que pensam os astronautas, os céus bíblicos são úmidos e cheios de águas. Em hebraico, a palavra céus, shamaim, pode ser decomposta em: sham + maim. Textualmente, significa: lá (sham) tem águas (maim). Os céus são as águas superiores, conforme o relato do Gênesis 1,6-7. “Deus disse: ‘Que haja um firmamento (um teto) e que ele separe as águas das águas!’ Deus fez o firmamento (o teto) e separou as águas inferiores do firmamento das águas superiores”. Ele separa as águas sob o teto e sobre o teto. A esse teto, chamará céus (Gn 1,8).

A terra firme e seca, como o firmamento, imagem do consciente, também emerge do meio das águas de baixo, imagem do inconsciente. Seco e úmido, consciente e inconsciente, duas dimensões a serem harmonizadas. É através de uma operação de concentração, do alinhamento das águas de baixo, sob os céus, em um único ponto, que o seco se faz visível, uma imensa pangea (Gn 1,9). O alinhamento das águas, o Divino chamará mares e o seco, terra. Elohim diz: “A terra arrelvará de relva, ervas semeando sementes, árvore-fruto produzindo fruto por sua espécie, cuja semente traz em si sobre a terra”. E é assim (Gn 1,11). A terra e o ar estão entre duas grandes massas de águas. Quando Deus decide escancarar as aberturas, as lucarnas dos céus, os reservatórios do grande abismo despejam sua água aniquiladora sobre a terra. Foi assim no dilúvio, mabul, (mem-beit-vav-lamed) (Gn 7,11). O dilúvio foi como uma circuncisão cósmica, para levar a termo (realizar, completar) toda carne (Gn 6,13). O dilúvio é também uma matriz memma do fruto bul (beit-vav-lamed), no centro.

Operação de extensão e de concentração e surgem os quatro elementos: águas superiores, céus, terra e águas inferiores ou mares. As águas são a imagem da indiferenciação primordial. Para a tradição judaica, a emergência da consciência exige extensão, separação e concentração das águas, do inconsciente. O homem desperto e geocêntrico é um retrato da emergência do seco, iluminado pela luz celeste, pela energia dos céus.

Se maim, águas, é sempre plural, em sua multiplicidade, o mesmo ocorre em hebraico com a palavra céus, shamaim. Em hebraico, ao falar-se ou evocar-se as dimensões celestes, emprega-se sempre o plural. Não existe nessa língua, nem no texto bíblico, nem neste, a palavra céus, no singular. Os céus, shamaim, comportam vários níveis, várias potências, vários nomes e vibrações estruturantes cuja totalidade é Adonai. Em inglês, os céus são chamados de heaven e não se confundem com o céu azul sobre nossas cabeças, o sky. Em português, quando se fala de “céu”, tudo pode confundir-se. Alguém poderá até imaginar que, ao viajar de avião ou numa nave espacial, ficaria mais perto de Deus. Melhor pronunciar céus!

Na maior das orações cristãs, a da filiação a Deus (Mt 6,9; Lc 11,2) utilizam-se seis palavras: Pai Nosso que estás nos céus. Em hebraico são duas: Avinu (Painosso ) shebashamain (noscéus), textualmente. A palavra shamain, céus, também pode ser decomposta em shem + main. Shem significa o Nome, o Santo Nome. Baruh haShem!, dizem os judeus. Bendito seja o Nome! Entre o Nome e Deus, não há distância. Eqüivalem-se. Por isso, diz a oração do Avinu: “Santificado seja o vosso Nome”. É o mesmo que dizer: Deus seja santificado.

Os cabalistas sempre viram nas “águas de cima” o princípio masculino da fecundidade: chuva, orvalho, esperma… em relação com as “águas de baixo”, o princípio receptivo e feminino: mares, rios, lagos e oceanos, as matrizes. Como o ying e o yang. As águas de baixa não ficaram vazias. Ali surgem as vidas, haim (het-iud-iud-mem), também sempre plural em hebraico, como os céus e as águas. “As águas pulularam de uma profusão de seres vivos” (Gn 1,20). Uma pululação superlativa e da maior alegria. E nunca mais os seres vivos viveram longe da água, principal matéria prima de seus corpos. Eles habitarão as águas e serão por elas habitados.

A palavra hebraica meged (mem-guimel-dalet) significa o melhor e tem origem em gad (guimel-dalet), a sorte, a felicidade. Cujo gérmen está em dag (dalet-guimel), o peixe, cuja energia semântica é sete (4+3). Peixes e águas são indissociáveis, mesmo se inconfundíveis. São plurais e abundantes. Indiferenciados e multiformes. A dupla expressão: sentir-se como um peixe, dentro ou fora d’água, traduz duas possibilidades ou situações, que em si, dizem tudo. E o peixe, é um dos símbolos primazes do cristianismo.

Se os cristãos fizeram do peixe um dos seus símbolos, é porque ele era também o símbolo do próprio Cristo. Em grego, a palavra peixe, Iktus, é o anagrama da palavra Cristo. Nesse ideograma, cada uma das suas cinco letras é vista como a inicial de palavras que traduzem Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador: I de Iesus, Jesus, k de Kristos, Cristo, T de Theu, Deus, U de Uios, Filho, S de Soter, Salvador. Daí a presença de numerosas figurações de peixes nos monumentos cristãos como pias batismais, igrejas, túmulos, altares etc. Hoje anda até em evangélicos automóveis. Contudo, no Tanah, os peixes são mencionados entre as imagens de Deus proibidas aos israelitas “Não vos corrompais fabricando um ídolo… imagem de qualquer peixe que vive nas águas sob a terra” (Dt 4,16.18), mesmo se divindades em forma de peixe sejam desconhecidas em Canaã, no Egito antigo ou na Mesopotâmia.

2 comments for “AS ÁGUAS NA TRADIÇÃO JUDAICA

  1. DIMITRI LUÍS FRANCO BAREA
    8 de junho de 2018 at 07:10

    Adorei o texto! Há como compartilhar a bibliografia consultada?

  2. Cintya Alves
    12 de setembro de 2018 at 20:15

    Muitíssimo rico e interessante.

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