AS ÁGUAS DA BOA NOVA


(15/3/2004)

Evaristo Eduardo de Miranda

Os encontros de Jesus com as águas são iluminados e inspirados pela tradição cultural e religiosa do judaísmo de seu tempo. Nos evangelhos encontram-se cerca de cinqüenta episódios de Jesus com as águas, difíceis de serem penetrados em toda sua riqueza, sem a contribuição da tradição judaica e do entendimento do corpo humano como território do sagrado. Existem diferenças e preferências hídricas.

O Primeiro Testamento cita 43 vezes o orvalho, o Segundo Testamento o desconhece e não recorre a esse suave transpirar dos céus. A boa nova das águas dispensou o orvalho e o sereno. As águas frias na forma de gelo também não refrescam os evangelhos. Nenhuma citação contra sete no Primeiro Testamento. A neve também é pouco lembrada: uma citação para evocar o brilho das vestes de Jesus na transfiguração (Mt 28,3) e outra para ilustrar a luz viva dos cabelos do Filho do Homem (Ap 1,14), contra 28 citações no Primeiro Testamento. O mesmo ocorre com o vapor: nenhuma citação contra seis no Primeiro Testamento. As águas da boa nova apresentam-se e ausentam-se nos rios, fontes, poços, mares, nuvens, chuvas, parábolas, vinho e secreções corporais. Dentre os principais episódios estão:

O batismo de Jesus nas águas do Iarden, o rio Jordão (Mt 3,11; Mc 1,8-10; Lc 3,16);

As nuvens e os úmidos céus (shamaim) ecoando vozes divinas (Mt 3, 13-17; Mc 1,9-11; Lc 3, 21-22) e envolvendo Jesus e seus discípulos (Mt 17,5; Mc 9,7; Lc 9,34);

Águas ausentes e presentes na provação de Jesus no deserto (Mt 4,1-4; Mc 1,12-13);

As águas transmutadas em vinho em Qaná de Galil, em Caná da Galiléia (Jo 2,1-12);

O chamado dos discípulos à beira d’água (Mt 4,18-22;Mc 1,16-20);

A pesca maravilhosa ou o reencontro da fertilidade das águas (Mt 13,47; Lc 5,1-11; Jo 21,1-11);

Depois de ensinar nas sinagogas, Jesus ensina à beira mar e até sobre as águas, sobre o mar (Mt 13,1; Mc 2,13. 3,7-9; Lc 5,3);

Jesus vem morar junto às águas, em Cafarnaum (Mt 4,13);

As águas do mar onde os montes podem ser lançados pela fé (Mt 21,21);

As águas do mar onde um sicômoro pode ser lançado pela fé (Lc 17,6);

As águas do mar onde uma legião de porcos se precipitou (Mt 8, 31-31; Mc 5,13; Lc 8,33);

As águas do mar onde Pedro é enviado lançar um anzol (Mt 17,27);

As águas do mar onde Pedro, confuso, nu e vestido, se lança (Jo 21,7);

As águas do mar onde quem escandalizar um pequenino será lançado com uma mó atada no pescoço (Mt 18,6; Mc 9,42; Lc 17,2);

Os passos noturnos de Jesus sobre as águas, como um fantasma, atemorizando e fazendo a pedra do Pedro, Shimon bar Ioná, flutuar (Mt 14,22-33; Mc 6,45-51; Jo 6,16-21);

O renascer do espírito e da água de um doutor de Israel, Nicodemos, Naq Demos (Jo 3,5);

Jesus batizando na Judéia (Jo 3,22) e João em Enon, perto de Salim, onde as águas eram abundantes;

As águas evanescentes da seiva de uma figueira sem frutos (Mt 21,19-20; Mc 11,20-21);

As águas evanescentes de uma semente germinando sobre pedras, sem umidade (Mt 13,6; Mc 4,6; Lc 8,6);

Os paradoxos da água viva que pede de beber, no encontro com a Samaritana e atado à cruz no Calvário (Jo 4,7. 19,28);

As palavras de Jesus aplicando a imagem da água a si próprio, junto ao poço de Jacó, Yakoov (Jo 4,13-14);

A transparência das águas corporais nas lágrimas vertidas diante do choro dos amigos do falecido Lázaro, El Azar (Jo 11,35);

As ondas e a tempestade no mar da Galiléia, no Lago Kineret (Mt 8,18-27; Mc 435-41; Lc 8,22-25);

Previsões meteorológicas do tempo de chuva e estiagem (Lc 12,54-55);

As águas das chuvas caindo sobre justos e injustos (Mt 5,45);

As chuvas e torrentes transbordando sem abalar a casa construída, como um templo, sobre a rocha (Mt 7,24-27; Lc 6, 49);

Um rico pede, num dedo do mendigo Lázaro, uma gota d’água para suportar o fogo eterno (Lc 16,24);

Aqueles que derem um copo d’água a um pequenino (Mt 10,42; Mc 9,41);

As águas da saliva na boca e nos ouvidos do surdo-mudo, curando-o com um Efetá (Mc 7,33);

As águas da saliva curam progressivamente os olhos do cego (Mc 8,23);

As águas da saliva no pó da terra e nos olhos de um cego de nascença (Jo 9,6);

As águas terapêuticas da fonte de Siloé (Jo 9,7.11) e a torre de Siloé;

As águas as saliva, como cuspe e escarros, no rosto de Jesus (Mt 26,67.27,30; Mc 10,34.14.65.15.19; Lc 18,32);

As águas carregadas numa bilha por um homem e não por uma mulher (Mc 14,13; Lc 22,10);

O paralítico curado junto às águas movimentadas periodicamente por um anjo (Jo 5,4-7) na piscina de Betzatá, em pleno shabat;

As águas e as mãos lavam e acariciam os pés dos discípulos (Jo 13,5-6);

As águas lavam as mãos de Pôncio Pilatos (Mt 27,24);

As águas não lavam as mãos dos discípulos, antes de comer (Mt 15,2.20; Mc 7,2-5);

As águas não lavam as mãos de Jesus antes de comer na casa de um fariseu e causam escândalo (Lc 11,38);

As águas voltam a hidratar uma mão mirrada, em pleno shabat (Mt 12,9-14; Mc 3,1-6; Lc 6,6-11);

As águas lavam o rosto ao jejuar-se (Mt 6,17);

As águas lavam as redes dos pescadores pecadores (Lc 5,2);

Como a água em Caná, agora o vinho é transmutado em sangue numa santa ceia (Mt 6,26-29; Mc 14,22-25; Lc 22,17-20);

As gotas de suor, como sangue no Gat Shemenim, Getsemani (Lc 22,44);

A sede na cruz, a esponja, o vinagre com água, o fel e a mirra (Mc 15,23; Lc 23,36; Jo 28,29);

O flanco direito aberto, vertendo sangue e água (Jo 19,34);

O santo suor, marcando um lençol por toda eternidade (Mc 15,46; Lc 23,53.24,12; Jo 19,40.20,5-7);

O ascender e a promessa de regressar entre as nuvens dos céus (Mt 24,30.26,64; Mc 13,26. 14,62;.Lc 21,27);

São maravilhosos episódios evangélicos para refletir na quaresma e na Páscoa. Através do mistério da encarnação, as águas mobilizadas no corpo de Jesus tiveram uma participação diferenciada em sua missão salvífica. As mesmas águas interiores nos habitam. Não é fácil captar o rastro das águas. Seu caminho de vai e vem, entre meandros de frases, parágrafos e capítulos da boa nova. Nos textos evangélicos, as águas revelavam sua luz nas lágrimas, no suor, na sede, na saliva e nos gestos de limpeza e purificação desse Nazareno. No sentido da ascensão, as águas tocam os pés, as mãos, a boca, os olhos e a pele. Jesus aplicou a si mesmo o título de água, de água viva. Quem bebe dessa água vê crescer sua sede. Não busca mais outra água. É habitado por um desejo insaciável de Infinito.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. As águas da Boa Nova. A Tribuna, Campinas – SP, 2004.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. As águas da Boa Nova. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 5, p. 1 – 2, 2004.

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