ÁRABES-CRISTÃOS DO ORIENTE MÉDIO

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(10/8/2004)

 

Evaristo Eduardo de Miranda

 

No primeiro domingo de agosto, dia do Senhor, uma série de igrejas cristãs foi atacada no Iraque, em Bagdá e Mossul, causando mortes e deixando muitos feridos. Foi um fato inédito. Mesmo sob o regime de Sadam Husseim, os cristãos-árabes coabitavam com os muçulmanos-árabes e o ministro das relações exteriores do Iraque, Tarek Assis, era um cristão. Árabe nunca foi sinônimo de muçulmano. Milhões de árabes são cristãos. E milhões de maometanos no Extremo Oriente, na África e nas Américas não são árabes. Boa parte dos brasileiros de origem árabe é cristã. Há séculos, as populações cristãs não sofriam tantas ameaças como atualmente no Oriente Médio e Terra Santa. E existe um alcance espiritual particular nessa tragédia.

Um quarto da população cristã do Iraque, de mais de um milhão de membros, já havia deixado o país desde 1991, vitimada pela guerra, pelo embargo, pelas dificuldades econômicas, mas não religiosas ou políticas. Agora surgem novas razões para abandonar a terra natal. O mesmo fenômeno ocorre em outros países do Oriente Médio. A população cristã da Síria – que deu à Igreja sete papas e vários imperadores romanos – está reduzida a cerca de 1,2 milhão de fiéis, metade do que havia em 1950. Na Terra Santa (Jordânia, territórios palestinos e Israel), a situação é critica e João Paulo II conclamou os cristãos de todo o mundo a apoiar as comunidades cristãs, exortando as ordens religiosas a manterem sua presença na região.

O Papa tem razões de sobra para se preocupar e despertar os cristãos. Em Jerusalém, onde começou a história do cristianismo, os cristãos são apenas alguns milhares contra 50.000 em 1948. Diante de uma hostilidade militante por parte da administração israelense, vitimados diretamente pelo conflito israelo-palestino (quem não recorda os trágicos episódios de ocupações e cercos de igrejas, incluindo a da Natividade, em Belém e Nazaré), os cristãos são apenas 70.000 na Cisjordânia, 3.000 em Gaza e 120.000 em Israel. No Egito, ainda restam seis milhões de coptas, mesmo se a emigração prossegue em direção aos Estados Unidos, Austrália e Nova Zelândia. No Líbano, após os desastres da guerra civil, os cristãos estão reduzidos a cerca de um milhão e meio de fiéis. A emigração foi tamanha que conventos cristãos maronitas têm surgido na Europa para acompanhar essa diáspora.

Hoje, o mundo árabe conta com cerca de 12 milhões de cristãos. Eles estão em casa no Oriente Médio. Compartilham os hábitos, a língua, a cultura e uma série de tradições com os povos da região. São herdeiros de um precioso patrimônio cultural, artístico, litúrgico e teológico, único em todo o mundo. Ali surgiu e dali expandiu-se o cristianismo. As primeiras regiões evangelizadas foram o Iraque atual, a Síria, a Turquia e a Armênia, uma guardiã de tesouros bíblicos e escritos dos primeiros cristãos, sobre a qual já tivemos a ocasião de escrever nesta publicação. Foi na Turquia, em Antióquia, que pela primeira vez, os membros dessa nova corrente religiosa, autodenominaram-se cristãos.

O Oriente Médio é a terra dos Padres da Igreja, dos Padres do Deserto, das grandes experiências místicas e monásticas, dos primeiros teólogos da Igreja, dos sete concílios que, do século IV ao VII, formularam em Nicéia, Calcedônia e Efésio, os fundamentos da doutrina cristã, o dogma da Trindade, os “símbolos da fé” ou os “Credos”, a dupla natureza de Cristo, “verdadeiro homem e verdadeiro Deus” etc. Quotidianamente entramos em comunhão com essa tradição eclesial, com essa tradição eclesial – por atos, pensamentos e palavras – aqui em nossa cidade, aqui em nossa casa.

As igrejas cristãs do Oriente são todas minoritárias, divididas numa quinzena de Patriarcados e num grande número de ritos e línguas. Apesar das divisões, construíram, como minorias, uma verdadeira “mensagem” de diálogo e tolerância interconfessional, como proclamou João Paulo II no Líbano, em 1995. Foram vítimas das conseqüências da expansão do Islã; das cruzadas; dos massacres e conquistas das grandes potências; do saque de Constantinopla, há exatamente 800 anos; da indiferença do cristianismo latino; do antissemitismo europeu; do etnocentrismo de tantas missões católicas e da arrogância de muitas missões protestantes, baseadas num modelo de supremacia ocidental. Agora, o amálgama entre cristianismo e um Ocidente com as cores dos EUA, faz novas vítimas. Abandonar as Igrejas cristãs do Oriente Médio seria realizar o desejo dos extremistas islâmicos e de estados desejosos de uma expansão racista e étnica na região.

Não se trata de encontrar bons e maus, numa realidade tão complexa. Ninguém tem o privilégio do sofredor ou da vítima neste caso. Ninguém tem o monopólio do direito ou da razão. Está-se diante de uma tragédia, no sentido grego do termo, e não de um faroeste, como afirma lucidamente o escritor israelense Amós Oz. As comunidades de cristãs do Oriente Médio, e principalmente as da Terra Santa, devem ser preservadas, assim como as comunidades muçulmanas e judaicas no Ocidente. Devemos tê-las todas presentes em nossas orações. A consciência eclesial e comunitária dessa situação há de inspirar ações concretas, na dimensão de cada coração fraterno. Que ninguém se esqueça: Ab Oriente lux. A luz vem do Oriente.

 

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Árabes-cristãos do Oriente Médio. A Tribuna, Campinas – SP, v. 95, p. 8 – 9,2004.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Árabes-cristãos do Oriente Médio. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 5, p. 01 – 02, 2004.

 

 

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