ANCHIETA, AMBIENTALISTA E PATRONO DA BIODIVERSIDADE

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(20/4/2014)

Evaristo Eduardo de Miranda

O padre José de Anchieta foi sem dúvida o pai da biodiversidade, o primeiro naturalista da história do Brasil, e é reconhecido como patrono dos naturalistas brasileiros. Em pleno Século XVI, ele defendeu homens que não eram brancos, nem europeus, nem cristãos. E os animais.Anchieta chegou ao Brasil, enfermo, com 20 anos, na comitiva de D. Duarte da Costa, segundo Governador Geral. Ele construiu escolas, seminários e deu aulas de castelhano, português, latim, doutrina cristã e a língua brasílica. Anchieta recebeu um excelente preparo em Coimbra e um conhecimento elevado do saber e da cultura europeia. Dedicou muitas páginas à fauna brasileira. Dentre elas, uma longa carta ao padre geral Diolo Laines: “Epistola quamplurium rerum naturalium quae S. Vicentii provinciam incolunt sistens descriptionem” (Carta contendo a descrição de numerosas coisas naturais que povoam a província de S. Vicente).Esse zoólogo pré-lineano observou, mediu, investigou, comparou e só depois descreveu cada animal. O tamanduá (Myrmecophaga tridactyla tridactyla Linnaeus) ilustra uma das caracterizações circunstanciadas de Anchieta: “Há também outro animal de feio aspecto, a que os Índios chamam tamanduá. Avantaja-se no tamanho ao maior cão, mas tem as pernas curtas e levanta-se pouco do chão; é, por isso, vagaroso, podendo ser vencido pelo homem na carreira. As suas cerdas, que são negras entremeadas de cinzento, são mais rijas e compridas que as do porco, máxime na cauda, que é provida de cerdas compridas, umas dispostas de cima a baixo, outras transversalmente, com as quais não só recebe, como rechaça os golpes das armas; é coberto de uma pele tão dura que é difícil de se atravessar pelas flechas; a do ventre é mais mole. Tem o pescoço comprido e fino; cabeça pequena e mui desproporcionada ao tamanho do corpo; boca redonda, tendo a medida de um ou, quando muito, dois anéis; a língua distendida tem o comprimento de três palmos só na porção que pode sair fora da boca, sem contar a que fica para dentro (que eu medi), a qual costuma, pondo-a para fora, estender nas covas das formigas, e logo que estas a enchem de todos os lados, ele a recolhe para dentro da boca, e esta é a sua refeição ordinária: admira como tamanho animal com tão pouca comida se alimente. (…) não faz mal a ninguém, senão em sua defesa própria”.Defensor das onças, esse homem curioso e criterioso, capaz de medir o comprimento da parte interna da língua do tamanduá e descrevê-lo com tantos detalhes (morfologia da cauda), repete uma frase constante. Certamente, em seu pensamento, ela devia alcançar toda biodiversidade: “não faz mal a ninguém, senão em sua defesa própria”.

Anchieta descreveu o peixe-boi (Trichechus manatus manatus Linnaeus): “Há um certo peixe, a que chamamos boi marinho, os Índios o denominam iguaraguâ, frequente na Capitania do Espírito Santo e em outras localidades para o Norte, onde o frio ou não é tão rigoroso, ou é algum tanto diminuto e menos que entre nós…” Ele o identificou com um mamífero: a fêmea tem mamas nos peitos, onde os filhotes sugam ao nascer (“habet ad pectus, sub quibus et ubera ad quae proprios foetus nutrit”).Outro estranho mamífero para os europeus, descrito por Anchieta, foi a anta (Tapirus americanus Briss). “Semelhante à mula, um pouco mais curta de pernas; tem os pés divididos em três partes; a parte superior do beiço é muito proeminente: de cor entre a do camelo e a do veado, tendendo para o preto. Levanta-se-lhe pelo pescoço, em vez de crinas, um músculo desde as cruzes até a cabeça, com o qual, como é um tanto mais alto, arma toda a fronte e abre caminho por espessos bosques, separando os ramos daqui e dali. Tem a cauda muito curta, desprovida de crinas; dá um grande assobio em vez de grito; de dia dorme. e descansa, de noite, corre de um lado para outro; nutre- se de diversos frutos, e, quando não os há, come as cascas das árvores. Quando perseguida dos cães, faz-lhes frente a dentadas e coices, ou lança-se ao rio e fica por muito tempo debaixo d’água; por isso vive quase sempre perto dos rios, em cujas ribanceiras costuma cavar a terra e comer barro. Do seu couro, endurecido apenas pelo sol, os Índios fabricam broqueis completamente impenetráveis ás flechas”.anchieta2As singularidades do bicho-preguiça (Bradypus tridactylus brasiliensis Blainville) levaram Anchieta a evocar a obra da natureza (“o dotou a natureza”), em seu potencial de gerar seres organismos inimagináveis. Anchieta distinguia origem de criação, ao evocar as espécies animais e o papel da natureza e de Deus nesse processo. Em todos os animais exóticos, Anchieta nunca evoca diretamente como causa a de um capricho do Criador. “Há outro animal que os Índios chamam aig e nós `preguiça’, por causa da sua excessiva lentidão em mover-se; (…) tem o corpo grande, cor de cinza; a sua cara parece assemelhar-se alguma cousa do rosto de uma mulher; tem os braços compridos, munidos de unhas também compridas e curvas, com que o dotou a natureza para poder trepar em certas árvores, no que gasta uma boa parte do dia e alimenta-se das suas folhas e. rebentos: não se pode dizer, ao certo, quanto tempo leva em mover um braço; tendo porém subido, ali se demora finalmente, até que consuma a árvore toda; passa de- pois para outra, algumas vezes também antes de chegar ao cume; com tanta tenacidade se agarra no meio da árvore, com as unhas, que não se pode arrancá-lo dali, senão cortando-lhe os braços”. Em outro relato, as feições da preguiça serão resumidas como semelhantes às de uma velhinha “mau toucada”.O padre Anchieta descreveu a biodiversidade, com conceitos aristotélicos, evitando o polimorfismo, buscando uma forma, um padrão diferenciador, resultante da obra da natureza. Evoca formigas, mosquitos e insetos, e fala de mais de vinte espécies de abelhas selvagens, quando na Europa havia apenas uma. Sua consciência classificatória, em conflito com a sua capacidade de descrever tamanha diversidade, aparece nos caranguejos: “Seria fastidioso referir os gêneros dos caranguejos, e suas variedades e diversas formas. Deixo de falar dos que são terrestres, que vivem em cavernas subterrâneas, que para si mesmos cavam; em toda a parte são frequentes, exceto entre nós; de cor verde-mar e muito maiores do que os aquáticos. Alguns dos aquáticos estão sempre debaixo d’água: a natureza deu-lhes os últimos braços planos próprios para nadar; os mais cavam cavernas para si nos braços de mar (mangues); destes, alguns têm as pernas vermelhas e o corpo negro; outros são um tanto azulados e cheios de pelos; outros ainda têm duas cabeças, uma quase do tamanho do corpo todo e outra proporcional a este”.

Anchieta lançou os fundamentos da história natural brasileira. Descreveu 21 mamíferos, cerca de 20 de aves, uma dezena de ofídios, 13 insetos, 11 aracnídeos e crustáceos. E foi o primeiro autor a relatar o fenômeno da piracema. Ele fundava escolas, mas considerava-se, com humildade, na escola dos índios em termos de nomenclatura da flora e da fauna.

Para ele, não havia necessidade dos portugueses inventarem nomes para os animais. Eles já estavam nomeados. “Seria muito difícil representar por palavras as diversas espécies de formigas, das quais há várias naturezas e nomes; o que, di-lo-ei de passagem, é muito usual na língua brasílica, por isso que dão diversos nomes às diversas espécies e raras vezes os gêneros são conhecidos por uma denominação própria; assim, não há nome genérico da formiga, do caranguejo, do rato e de muitos outros animais; das espécies, porém, que são quase infinitas, nenhuma deixa de ter seu nome próprio, de maneira que com razão te admirarias de tão grande cópia e variedade de palavras”. O esforço dos jesuítas trouxe ao português esse tesouro linguístico. A tarefa não foi simples. “Em verdade não é fácil dizer quanta diversidade há de aves ornadas de várias cores”, escrevia em 1560. O trabalho de discernir era jesuiticamente prazeroso. E foi um verdadeiro exercício espiritual na vida do agora São José de Anchieta.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Anchieta, ambientalista e patrono da biodiversidade. EcoRio, 2014.

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