ALGUÉM MORRE


(6/2/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

O ritual das exéquias vai além de uma simples cerimônia de encomendação de defuntos durante o velório. Ele é um direito do cristão e um dever dos ministros da Igreja e da comunidade eclesial para com seus irmãos falecidos. O fato da maioria dos velórios ser realizada nos cemitérios facilitou o oferecimento dessa boa obra pela Igreja, no difícil ambiente urbano de nossos dias. Com a presença cotidiana de ministros leigos de exéquias nos cemitérios, esse serviço pastoral pode ser oferecido à imensa maioria das famílias enlutadas, em qualquer cidade, ao contrário do que acontece com outros sacramentos e serviços da Igreja.

Investido pelo bispo, cada ministro leigo dedica, em geral, um dia fixo da semana para estar num determinado cemitério. Ali ele presta um atendimento pastoral e litúrgico aos familiares e amigos dos falecidos. A pastoral da esperança ou das exéquias vem encontrando assim, novas formas de atender a comunidade e enriquecer a Igreja dos dons infinitos do Pai. A experiência pastoral desses ministros leigos vem sendo aprofundada, refletida e sistematizada em reuniões, estudos bíblicos e encontros mensais regulares.

A fonte principal das reflexões é a prática pastoral, nascida do encontro nos cemitérios com o povo humilde, vítima na vida e na morte de tantas violências e injustiças. As celebrações litúrgicas das exéquias realizam-se nas mais diversas circunstâncias: suicídios, assassinatos, natimortos e acidentados, além das mortes naturais, por envelhecimento, enfermidades etc. Os cemitérios são um retrato do viver e do morrer em nossa sociedade. São também um espaço onde a Graça de Deus opera, em pessoas abandonadas por todos, na vida e na morte. Elas ficam surpresas e sentem-se tocadas e amparadas pela presença inesperada da Igreja nos funerais de seus entes queridos. Afastadas da vida da Igreja há anos, ficam tocadas ao descobrir que a Igreja não esquece seus filhos e Deus muito menos ainda. Muitos decidem retomar sua caminhada comunitária. Chegam a voltar ao cemitério para agradecer aos ministros pela celebração realizada, para pedir orientações espirituais e para conversar sobre suas vidas!

Foi o que aconteceu a uma família. Ela voltou ao cemitério e procurou o ministro para agradecer e conversar. Na despedida entregaram me este pequeno texto. Por mas que procurasse a fonte não encontrei, mas reproduzo-o abaixo:

Alguém morre, e é como passos que param…

Mas, e se fosse o começo de uma nova viagem?

Alguém morre, e é como uma árvore que cai…

Mas, e se fosse uma semente germinando numa nova terra?

Alguém morre, e é como uma porta que bate…

Mas, e se fosse uma passagem revelando novas paisagens?

Alguém morre, e é como um silêncio que grita…

Mas, e se ele nos ajudasse a escutar a frágil música da vida?

Alguém morre, e é como uma chama que se apaga…

Mas, e se fosse outra iluminação, resplandecente e eterna?

Alguém morre, e é como o fim dos sonhos e esperanças…

Mas, e se fosse um despertar ainda maior dos sonhos e esperanças?

Alguém morre, e é como um amigo perdido…

Mas, e se fosse um encontro de todos os amigos, para sempre?

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *