ÁGUAS DE VIDA E MORTE


(23/12/1999)

Evaristo Eduardo de Miranda

Como todos os símbolos cosmológicos, a água é cheia de ambiguidades. Ligada à idéia da vida, que nela encontrou seu berço e dela é constituída, a água também evoca a morte, o afogamento, a força aniquiladora dos maremotos e inundações e o desastre dos naufrágios. Universal, ela alimenta a terra e mata a sede dos homens, das aves e dos cães. Sua massa oceânica, indiferenciada, representa o infinito das possibilidades, o gérmen dos germens e todas as promessas de desenvolvimento e salvação.

Todos os povos em suas manifestações religiosas foram buscar na água o elemento de transição, entre o sólido e o gasoso, entre a rigidez e a plasticidade, entre o peso e a leveza, entre a inconsciência e a consciência. Na tradição judaico-cristã, a água, elemento líquido vitalizante, símbolo maior do batismo, está presente em muitos ritos religiosos, transmutada em água benta. Se tradição judaico-cristã, a água também envolve muitos conteúdos simbólicos, da acolhida à despedida, do começo ao final, do batismo cristão e ao momento da benção do corpo nas exéquias, ela representa, antes de tudo, a perene transmutação do homem, sob o influxo da graça de Deus.

No Egito da violência e da escravidão, Deus transformou, através de um dos primeiros gestos proféticos de Moisés, a água em sangue. Um gesto terrível. Talvez a maior violência simbólica de todo o texto bíblico: a água transmutada em sangue. Séculos depois, Jesus Cristo numa festa em Caná, em clima de festa e núpcias, iniciando sua missão, transformou a água em vinho. Inebriou a todos de espanto e alegria. Talvez um dos mais belos sinais de todo o texto bíblico. E depois, no final da sua missão terrestre, mais uma vez durante uma santa ceia, Jesus transformará o vinho em seu sangue, indicando outro caminho para o exercício da liberdade humana. Esse triângulo de transmutações, associado à água, indica que ao longo da vida podemos nos aperfeiçoar, vivendo constantes transmutações.

Essas transmutações vão além das transformações materiais vividas por nosso corpo e pelos bens que o cercam. Pelas transmutações pessoais, divinamente inspiradas, vamos deixando de lado tudo que em nós não está destinado à eternidade. A espiritualização é como um processo de vinificação de nossa vida. Céus e terra se unem, fogo e água se esposam. Como o fogo dos relâmpagos, que nasce das nuvens e da chuva. No princípio, in arké, no arquétipo, o espírito de Deus movia-se sobre as águas. Em hebraico, a expressão “céus” evoca o lugar das águas e da vida. A vida sobre a Terra surgiu na água. Voltamos à água para reatar com a vida e nos purificar. E isso pode ser vivido num chuveiro, num banho de mar ou de cachoeira. Um momento de tato, de introspecção e relaxamento matricial, de retorno às origens, como no ventre da mãe, como no seio do Pai.

Em muitos rituais religiosos, precedidos ou seguidos de abluções, a água purifica, lava dos equívocos e ilusões, e evoca a graça de nos transformarmos. Pela água fomos batizados em nome da Trindade e imersos na graça de Deus. A água viva do batismo, para os cristãos, também jorrou do flanco do Cristo crucificado. Da imersão simbólica na morte e sepultamento de Cristo, emergirmos pelas águas, da inconsciência para a consciência plena! As águas podem ser o espelho aprisionador do ego, como no mito de Narciso ou ainda uma miragem no deserto para quem vive preso à roda da ilusão. Mas elas podem representar um lugar de revelação e teofania, berço de fertilidade, poço no deserto, oásis de paz, fonte de juventude, símbolo de benção e de infinita regeneração.

Nosso destino, pela água, está intimamente ligado a nossa origem. Vivemos como peixes, que devem descer o rio, enfrentar seus perigos, meandros e corredeiras até chegar ao mar da idade adulta e madura. Mas, como muitos, na hora da piracema, podemos mudar de rumo, subir a correnteza, voltar à infância e às águas cristalinas das origens, para adquirir sua transparência, sua fecundidade, sua leveza e sua perfeita simplicidade. Mesma origem, mesmo destino.

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