ÁGUA VIVA


(28/12/1996)

Evaristo Eduardo de Miranda

Trabalhei alguns anos na África, no sul do deserto do Saara. Guardo luminosas e coloridas recordações dessa região onde a água é um tesouro supremo e sagrado. Quantas vezes, em meio a um trabalho ou viagem, havia paradas obrigatórias para o pessoal muçulmano rezar. Era sempre assim, várias vezes por dia, onde quer que estivéssemos. Antes de buscar a Meca, com todo o rigor, eles lavavam a cabeça, os braços e os pés. A água era acariciada contra a pele.

Esse belo e forte rito de purificação, antes das orações, ficou para sempre marcado em minha memória. Deus me deu de visitar muitas dessas silenciosas e frescas mesquitas – de Marrakech a Nova Delhi – onde as fontes para purificação murmuram e cantam. Os árabes não constróem fontes para vê-las, como nós ocidentais com jatos luminosos e majestosas estatuárias. Eles as fazem para ouvi-las! Cada uma tem sua música aquática. Um ocidental conturbado e apressado pode visitar esses locais, preso ao visual, sem nunca sequer ter a revelação e o contato com a música da água.

Esse silêncio obrigatório, para ouvir a melodia da água, ajuda nas abluções e nas orações que se seguem. Nessas ocasiões pensava sempre no riacho cada vez mais seco de nossa água benta na entrada das igrejas. Como não fazê-lo diante desse rio caudaloso das fontes de nossos irmãos muçulmanos.

Nossa alma tem sede de Deus (Sl 41,2-3). Infelizmente perdemos o contato físico com o água batismal. Creio profundamente no seu poder simbólico e na sua ajuda, sobretudo quando se trata de entrar em contato com o divino em nós mesmos (Ex 40,30-31). Como entrar nas igrejas e não relembrar nossa entrada na Igreja, pela porta dos mistérios, pela graça do batismo. Tristeza imensa invade-me em igrejas onde essas fontes, já tão pequenas, encontram-se secas como se fossem uma crendice a ser banida ou trouxesse um perigoso risco de contaminação, como me disse certa vez um padre europeu, muito antisséptico. Nas celebrações litúrgicas é importante lembrar sempre ao povo o porquê dessa água benta, o poder desses ritos de purificação e sua força alegórica para nossos corpos secos e esgotados (Sl 62,1).

Talvez por isso, diante do frescor da graça divina em nossas vidas, nos surpreendemos e exclamamos como Pedro: Tu Senhor me lavar os pés! (Jo 13,6). Que susto! Às vezes vamos mais longe e à surpresa agregamos a recusa. Não! Não é possível que eu tenha sido escolhido. Não é possível que eu realize essa tarefa. Eu sou pecador. Eu sou fraco. Eu sou infiel. Eu sou mil vezes incrédulo. Tu não me tocarás. Tu não me lavarás os pés. Não, jamais! (Jo 13,8). Como se diz: Deve haver algum engano. Eu não. Não pode ser. Como Jonas, as vezes preferimos mergulhar no Mar Tenebroso e ser tragados pelo grande peixe das pulsões, a molhar os pés na estrada de Deus. Mas a nossa páscoa é feita também dessas hesitações‚ necessárias (Mt 12,38-42): o sinal de Jonas; ser sepultado três dias e três noites, para poder ressuscitar (Mt 16,1-4 e Lc 11, 29-32).

Tocados por Deus, banhados nas águas do Batismo, nos basta aceitar que Deus, às vezes, nos lave os pés (é a alma!) para estarmos inteiramente puros (Jo 13,10) ou talvez puramente inteiros. Como na expressão tão comum em português: ficar de alma lavada ou lavar a alma. Em harmonia com nossos contrários e opostos. Reconciliados em nós. Prontos e prestes para servir. Quem beber dessa água nunca mais terá sede, diz o Cristo para a samaritana. Diante da água viva não se trata mais de saber se Deus está ou não entre nós, como se perguntava o povo de Israel com sede no deserto (Ex 17,1-7). Trata-se de reconhecer e aceitar que Ele está em nós (Jo 4,5-42) e nós Nele (Jo 17,22-26). Amém.

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