ÁGUA BENTA


(8/12/2003)

Evaristo Eduardo de Miranda

O homem é o único animal capaz de distinguir a água comum da água benta. Distinguir e discernir. Para os católicos, as manifestações de sede de Jesus não eram apenas a vontade de um pouco de água. As lágrimas de Jesus não eram um mero fruto da emoção. Ao lavar os pés de seus discípulos, Jesus não cumpria apenas um ritual de higiene. As menções evangélicas ao seu suor não podem ser reduzidas ao fruto de um esforço corporal. Ao usar sua saliva para curar cegos e um surdo-mudo, ao tocar seus olhos, ouvidos e boca com essa líquida secreção, Jesus não escandalizou nenhum dos presentes. Essas águas interiores e corporais de Jesus de Nazaré são a expressão de realidades espirituais. Ele as sacralizou ao entrar no rio Jordão para ser batizado e até o momento em que de seu flanco, perfurado por uma lança, brotou sangue e água, símbolos para a Igreja da redenção e da graça batismal.

Os católicos batizam e são batizados com água benta, uma água sacralizada através da oração de um sacerdote. A mesma água do batismo é usada para abençoar o corpo dos defuntos e as pessoas em diversas cerimônias religiosas. A mesma água batismal está colocada na entrada das igrejas para que os batizados retomem o contato com seu batismo. Como S. Tomé, o incrédulo, que colocou sua mão no corte de onde brotou sangue e água do corpo de Jesus, os católicos tocam nas águas fecundas das pias de água benta. E levam essa água benta, símbolo de sua salvação batismal, em garrafinhas, para cá e para lá. E com certificado de origem: água benta de Fátima, de Lourdes, de Aparecida etc. Alguns católicos têm verdadeiras adegas de água, das mais diversas e sagradas origens (Bonfim, Aparecida, Lourdes, Fátima, Jerusalém, Santiago de Compostela, Roma…). e passíveis de serem usadas nos mais diversos contextos e desafios. Para a Igreja católica, a água benta é um sacramental, como os ramos bentos da celebração do Domingo de Ramos, na abertura da Páscoa. Além de espantar vampiros, água benta serve para muita coisa.

As águas na natureza vão da fonte ao mar. Do mar às nuvens nos céus e retornam com as chuvas. A vida dos católicos lembra o ciclo da água. Na piracema, milhares de peixes nadam rio acima e vencem obstáculos. Eles voltam atrás, buscam as águas cristalinas da reprodução, do nascimento, da geração. A vida adulta lhes ensinou o caminho rumo ao mar, rio abaixo. Ficaram cegos de tanto ver paisagens, portos, pessoas, presas, predadores, aventuras e desventuras. Um dia, para viver verdadeiramente, eles voltam às origens, ao princípio, ao começo. No princípio era o Verbo. Quem ia, volta. A conversão é uma necessidade na vida. Numa simples pia de água benta, os católicos lembram seu batismo, sua infância, sua origem divina e a necessidade de tornar-se criança para entrar no reino dos céus (Mt 18,3).

A paixão de Jesus foi a de ser abandonado pelo Pai e pelos que ele amou. Jesus não desejava ser tomado. Ele só pode e só quer ser tomado pelo Pai. Ele não foi tomado por nada, nem ninguém. Num desapego e abandono total, Ele entregou-se ao Pai. Ele voltou à origem, à fonte. Como muitos peixes na piracema, ao longo da vida ou mesmo antes de chegar ao mar, rio abaixo, os católicos dão meia volta, nadam contra a corrente e voltam às águas cristalinas de sua origem, à sua Igreja, à água benta de seu batismo. Jesus voltou para o Pai. E quando tudo parecia consumado, morto e paralisado, seu flanco verteu sangue e água. Benta.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *