ADVENTO E TERAPIA CORPORAL


(17/8/1999)

Evaristo Eduardo de Miranda

Ao lado da alienação corporal, a busca de um conhecimento mais abrangente da realidade do corpo na vida pessoal mobiliza cada vez mais. Além dos cuidados hedonistas com o corpo, e de toda a indústria e comércio associados a esse fenômeno, busca-se um entendimento mais holístico do corpo. Ele seria mais satisfatório do que os modelos tradicionais, pois incorpora “tudo” o que é oferecido pela biologia, pela medicina, pela psicologia, pelas tradições e religiões.

Busca-se também um corpo perfeito fundado na ciência ecológica e genética. Uma espécie de corpo original, depurado dos “acréscimos” da história, sem mácula ou defeitos, graças a limpeza promovida pela engenharia genética, pelas operações transgênicas e ao esgotamento do mistério de seu genoma, totalmente decodificado. Acende-se de uma nova forma, laica e pós-moderna, o desejo da sobrevivência e da imortalidade, através de terapias que vão do corpo ao planeta ameaçado.

Para a tradição cristã, a verdadeira terapia corporal leva à integração e à disponibilidade. A presença do Espírito pode tornar-nos pessoas cada vez mais simples (sans plis, etimologicamente sem dobras, sem pregas, sem rugas), não recurvadas sobre si mesmas, abertas ao transcendente e mais espontâneas, como o perfume das flores, o sorriso das crianças e o vôo dos pássaros. A vida espiritual, a vida simplesmente, deveria ficar distante de práticas religiosas, sociais ou terapêuticas que tornam as pessoas complicadas, culpabilizadas e culpabilizantes.

O primeiro passo terapêutico é a abertura para receber, para conhecer. O desejo de receber é inerente a criatura, assim como o impulso à doação. Nossos olhos buscam sempre novas realidades. Nossos sentidos aspiram a novas impressões. O infinito do desejo, insaciável no humano, deve ajudá-lo a contatar com o Infinito. E o corpo é um território de encontro. Conhecer o próprio corpo é vivê-lo. A verdadeira tradição judaica e cristã liberta o homem das dualidades espírito/matéria, corpo/alma e amor/lei. Elas esgarçam, rasgam e diabolizam o humano. Não se trata de negar o corpo ou a matéria, mas, graças a nossa não identificação e não apropriação desses planos do Real, poder santificá-los e transfigurá-los. O conhecimento do simbolismo do corpo na tradição judaica e cristã pode ser um instrumento para compreender melhor seu dinamismo, sua inteireza e seus caminhos únicos de comunicação com o divino, segundo o que o Mistério der a conhecer a cada um, segundo o estado evolutivo de cada um. Não o fazemos porque temos um corpo, mas porque somos corpo.

Ser capaz de colocar o amor onde ele não está, onde ele não está mais, transformando a água cinzenta do cotidiano no vinho embriagante das núpcias, das bodas de Caná. Os sentidos existem para nos despertar para realidades situadas além dos sentidos. O apelo dos sentidos e de nos levar além dos sentidos. Não fixar, limitar ou reduzirmos a pessoa aos sentidos e aos desejos que a alimentam. A tragédia é a de tomar por única realidade o que os sentidos e desejos percebem. A liberdade está em entender o campo dos sentidos como símbolos e sentimentos interiores desse corpo, reduzido por tantos a uma grande e estéril exterioridade.

O tempo de advento evoca o que Deus se fez corpo. Ao contrário das outras religiões, o cristianismo não começa dizendo o que o homem deve fazer para se salvar, mas o que Deus fez para salvá-lo. O cristianismo é a religião da graça. E para acolher a graça de Deus basta estar disponível, com as mãos vazias. Sem a priori, nem preconceitos, sem onipotência ou autossuficiência. No mistério da encarnação, Deus se contrai. O infinito se faz finito. Deus assume a fragilidade e a glória do corpo humano.

Um belo conto de Natal da tradição cristã relata que entre os pastores que se dirigiram ao estábulo para adorar Jesus havia um muito pobre. Todos traziam algum presente. Ele não trazia nada e sentia muita vergonha. Chegando ao presépio, os pastores apressaram-se em entregar seus presentes. Maria não sabia como receber todos aqueles dons, com o menino Jesus nos braços. Vendo o pastor de mãos vazias, foi a ele que ela confiou o menino Jesus. A sorte desse pastor pobre foi a de chegar diante de Jesus com as mãos vazias. É também a nossa.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *