ADORAR SANTOS


(23/9/2001)

Evaristo Eduardo de Miranda

Por que? Outro dia, alguém me disse que não entendia porque os católicos adoravam santos. Queria uma explicação, já que em sua igreja não haviam santos, imagens etc. Respondi: os católicos não adoram Maria, nem adoram santos. Só adoram Deus que está nos céus. Os santos são venerados, imitados e cultivados por seus exemplos. Como deve ser venerado um bom pai, uma boa mãe e toda e qualquer pessoa que se torna uma imagem de Cristo aqui na Terra. Expliquei que havia três razões principais para venerarmos os santos na Igreja católica. Ele ouviu com atenção.

A primeira razão é simples: na Igreja católica, nós temos santos. Existem igrejas que declaram não ter santos. Não é o caso da nossa. São bilhões de santos na assembléia celeste. Essa assembléia é aquela em que alguém estranhará estar presente. Nunca ouvira falar do Cristo ou da Igreja! É verdade, mas quando Eu tive fome tu me deste te comer, tive sede e me deste de beber…(MT 25,31-46). Estes são mais numerosos do que todos que professaram a fé cristã. São mais de três milhões de anos de evolução dos humanóides sobre a Terra e apenas quatro mil anos da chamada História da Salvação. A Assembléia dos Santos é imensa. A Igreja sempre conclui suas ladainhas invocando todos os santos e santas de Deus. Em particular, invoca e evoca aqueles que buscaram seguir Jesus na vida, conscientes de sua condição humana e de filhos de Deus: os santos declarados. A Igreja os canoniza, apresenta e recomenda ao mundo como exemplos. São uns 2500. Homens como Santo Antônio, São João da Cruz, Santo Expedito… Mulheres como Santa Teresinha, Santa Rita de Cássia, Santa Catarina…

Segunda razão: a veneração aos santos faz parte da tradição judeu-cristã e é recomendada pelas sagradas escrituras. A carta aos Hebreus, por exemplo, diz: Lembrai-vos de vossos santos, de vossos guias… que vos ensinaram a Palavra de Deus. Considerai como viveram. Considerai como morreram e imitai-lhes a fé (Hb 13,7). Os santos e santas, homens e mulheres, leigos e religiosos, adultos e crianças, são irmãos cujas vidas representaram exemplos de triunfo sobre situações difíceis, análogas as vividas por todos nós. Por sua história pessoal, manifestam a variedade dos dons do Espírito Santo na Igreja. Os mesmos dons podem ser derramados sobre nós. Em sua função reveladora e de sinal, os exemplos dos santos impulsionam para o Eterno (Hb 13 e 14).

Terceira razão: cremos na comunhão dos santos. Nossa santificação começa nesta vida e não termina com nossa morte. Pela morte, os falecidos comparecem diante de Deus e vivem sua páscoa. Iluminados por Deus revisam suas vidas, fazem um juízo de sua existência, completam o que faltou para sua santificação. Diante de Deus, entendem o que não entendiam, aceitam o que não aceitavam, podem crer no que não acreditavam e dizer sim para Deus onde sempre disseram não. Perdoam o que não perdoavam e são perdoados por Deus. Se pai e mãe sempre estão dispostos a perdoar seus filhos e acolhê-los na família, o que dizer de Deus? Seu amor é infinito. Nascemos para poder morrer, diz S. Gregório de Nissa. Para completar nosso nascimento e crescimento como filhos de Deus. A morte nos leva a penetrar no coração do mistério pascal cristão. A passagem da morte exige decisão e conversão. Ninguém se salva sozinho. Conversão e salvação não são obras individuais. A pessoa não se salva, por força de vontade. Somos salvos pela graça de Deus, auxiliados pelo corpo místico de Cristo, a Igreja. Na comunhão dos santos, oramos uns pelos outros. Os católicos não rezam para os mortos, mas pelos mortos. Pela conversão plena dos vivos e falecidos. Os santos rezam conosco.

O Concílio do Vaticano II destacou o papel dos santos nas relações e na comunhão da Igreja Peregrina com a Igreja Celestial: a vida, daqueles que sendo homens como nós, se transformou com maior perfeição em imagem de Cristo (2Cor 3,18). Eles se tornaram um manifesto ao vivo, diante dos homens, da sua Presença e do seu Rosto. Nos santos, Deus mesmo nos fala e oferece um sinal do seu reino, para o qual somos atraídos poderosamente com tão grande nuvem de testemunhos nos envolvendo (Heb 12,1). “Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens: o homem Jesus Cristo” (1Tm 2,5). Assim como o padre, o pastor e o fiel intercedem junto a Deus por um enfermo, da mesma forma a intercessão e a invocação dos santos não desvia, nem anula a Mediação de Jesus. A intercessão, na comunhão dos santos, aponta, indica e exalta a única e verdadeira Mediação. A vida dos santos e sua veneração nos ajudam, na comunhão eclesial, a ir ao Pai, pelo Filho no Espírito Santo. Entendeu?

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Adorar Santos. A Tribuna, Campinas – SP, 2001.

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