ACHADOS E PERDIDOS

(23/12/1998)

 

Evaristo Eduardo de Miranda

 

Como é perturbador a gente se perder. Como é difícil procurar um endereço ou um lugar desconhecido, numa cidade desconhecida. Todos já passamos por isso. Desorientados, acabamos por pedir informação para alguém, para um desconhecido. As explicações são sempre parecidas. Do tipo: para chegar lá, siga em frente, vire a segunda a direita, depois no terceiro sinal siga a esquerda e ao chegar numa espécie de praça, na primeira rua… A gente se perde ainda mais, esquece as recomendações e é obrigado a pedir nova orientação. Mas, qual não é o nosso alívio (e alegria) quando, ao pedir uma informação desse tipo, a pessoa diz simplesmente: eu te acompanho até lá! Ou ainda: venha atrás do meu carro, siga-me!

Essa situação banal, comum no cotidiano, é uma representação bastante fiel das relações existentes entre a condição humana e a revelação divina. Um dia, cansado de ensinar o caminho, explicar, orientar – pelos melhores sábios, mestres e profetas – e de continuar vendo tanta perdição, o Cristo vem a nós e diz: vou acompanhá-los pessoalmente, ou ainda: sigam-me! O mistério da encarnação representa uma mudança radical na situação da criatura frente ao seu Criador. Esse é o significado do Advento, celebrado pelos cristãos no Natal: podemos retomar o caminho, pois o próprio Deus veio nos acompanhar. Apesar da excitação do comércio e dos negociantes do templo, no período do nascimento de Jesus, os cristãos celebram o significado da Sua vinda e o alcance inédito do Seu advento. Nas comemorações de Natal, os filhos encontram o caminho da casa dos pais. A família volta a reunir-se. As estradas convergem. Muitos encontram seu verdadeiro caminho e podem deixar ilusões que lhes foram propostas.

Mas não é fácil penetrar nesse mistério nos tempos atuais. São tantas coisas a mais para lembrar nestes dias de dezembro: compromissos de fim de ano, presentes de Natal, décimo terceiro salário, fim das aulas, planejamento das férias, balanço de mais um ano, um novo emprego… Perdidos em nossos cotidianos, agregamos mais necessidades ilusórias ao nosso oceano de carências. Esta pequena parábola, dos achados e perdidos, nos convida a consagrar alguns minutos à reflexão. Qual o significado, para o humano, da mudança anunciada há dois mil anos por um anjo a uma jovem em Nazaré: Deus se fará homem e habitará entre nós?

Hoje, num mundo globalizado, o desejo de saber e poder está sendo levado a limites nunca imaginados. Com a modernidade, o homem deseja ser, e sente-se cada vez mais, onipotente e onisciente. Pelo bem ou pelo mal, o homem moderno pretende ser seu próprio salvador, autor de sua própria redenção, construtor de sua própria religião e, nesse sentido, busca tornar-se um deus. É como se tivesse conseguido comer o fruto proibido da árvore do conhecimento, no jardim do Éden, sem entender que o chamado é para que nos tornemos esse fruto, ao longo da vida. Diante dessa nova espiritualidade, dessa nova era, onde – em plena ilusão – o homem se faz deus, o Natal relembra o oposto: Deus se fez homem e habitou entre nós!

 

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Achados e perdidos. A Tribuna, Campinas – SP, 2000.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Achados e Perdidos. Jornal Universidade, Curitiba – PR, p. 05, 1998.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Achados e Perdidos. Boletim Santa Isabel, Campinas – SP, p. 02, 1996.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Achados e Perdidos. Jornal Integração, Campinas – SP, p. 02, 1996.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Achados e Perdidos. Gazeta Regional, Jaguariúna – SP, p. 02, 1996.

 

 

 

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