ABRIR UMA PORTA


(10/12/1999)

Evaristo Eduardo de Miranda

Era uma vez um castelo sem portas. As crianças que chegavam não podiam entrar. Adultos também não. Como desvendar seus mistérios? Como porta não havia, história também não existia. E ninguém podia viver feliz para sempre. Acabou acabando a história e morreu a Vitória. Quem não sonhou com uma porta aberta? Com uma passagem vitoriosa? Quem não enfrentou a dura realidade da porta fechada no trabalho, na família, no amor? Daqui uns dias, em clima de Natal e de chegada do ano 2000, a cidade de Campinas une-se para abrir uma misteriosa porta, bem no centro da cidade.

A palavra mistério vem do grego mysterion, em cuja raiz encontra-se myon que significa “manter fechado”. Como no miocárdio, músculo que encerra os mistérios do coração e , vez por outra, enfarta. Mistério é aquilo que é mantido fechado, atrás da porta. Como abrir as portas dos mistérios? Os verdadeiros mistérios não existem para ser desvendados ou revelados, mas penetrados. Como abrir a porta do Mistério? Atravessando sua passagem.

A idéia da passagem marca o final do ano: nas escolas campineiras, milhares de crianças e jovens passaram de ano, enquanto outros entraram na PUCCAMP, UNICAMP etc. Para muitos, o ano 2000 representa a luta para obter uma primeira entrada na escola. Por razões de trabalho, muitas pessoas também se transferem para Campinas e 2000 será para eles a entrada numa nova cidade. Tantos esperam ver aberta a porta do emprego. Tantas promessas de mudanças, tantos desejos na passagem do ano. Ano novo, vida nova.

O deus das passagens na Roma antiga era Janus bifrons, um dos deuses mais queridos dos romanos. Representado por dois rostos em sentidos opostos, era o deus da abertura, do início, das passagens e das portas. Deixou belos vestígios em nossa língua: as palavras janela (abre para dentro e para fora) e janeiro, que marca o início do ano. No evangelho de S. João (10,9), Jesus também apresenta-se como uma porta, uma passagem: “Eu sou a porta; se alguém entra por mim será salvo, sairá e voltará e achará com que se alimentar.” Penetrar e ser penetrado pela porta da fé não significa engajar-se numa estrada sem volta. Jesus diz claramente: sairá e voltará. Não como na divertida introdução do filme Agente 86 (quem lembra?), em que portas vão fechando-se ameaçadoramente após cada passagem. Ou como em seitas religiosas, pouco divertidas, onde para sair, corre-se risco de vida. Entrará e sairá, diz Jesus. Quem aceita o Mistério em sua vida atravessa suas passagens cheio de esperança. Verá e integrará, como num casamento místico, interior e exterior, pró e contra, razão e intuição, esquerdo e direito, material e espiritual, céu e terra, feminino e masculino, ação e contemplação, consciente e inconsciente, imanente e transcendente.

Passagem não precisa ser sinônima de ruptura, mas de renovação dentro de uma contínua unidade. A vida de cada um não se resume as dimensões do cotidiano. Aspiramos por outras dimensões. E existe uma Realidade, muito mais rica, concreta e fantástica do que o que costumamos chamar de realidade. Por milênios, a revelação dessa Realidade tem sido a obra dos artistas, poetas, místicos, xamãs e sacerdotes. Através da harmonia dos símbolos e dos ritos, eles nos ajudam a entrar em contato com dimensões sagradas, bem além de nossas limitações individuais. Como num conto de fadas para adultos.

É o que acontecerá na manhã de Natal, dia 25, às 8:30 h. A cidade tem um encontro na Catedral. Inaugurando o ano jubilar de 2000, D. Gilberto, o arcebispo de Campinas, estará abrindo – num ritual bonito de ver e viver – uma das portas da catedral. Sinal de perspectiva nova, de luta por um ponto final nas exclusões sociais e pessoais, essa aventura é uma convocação à passagem. O convite é para todos os homens e mulheres de boa vontade, que vivem nesta cidade. Irmanados participaremos desse rito de passagem. Cada um ciente dos seus desejos e desafios, na virada de milênio. E nessa passagem não seremos guiados por um sábio ancião, mas por uma criança. Ela acaba de nascer, há dois mil anos, em Belém. Ela abriu uma porta no castelo hermético dos homens. Agora nos convida a participar da história, na certeza de um final que é começo feliz. Seja criança, seja curioso! Venha abrir e passar por essa porta.

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