A VOZ ORACULAR DOS CÉUS

(10/9/1999)

 

Evaristo Eduardo de Miranda

 

Na sinagoga de Beth Alfa na Galiléia, um mosaico do século VI representa o zodíaco com seus doze meses e as quatro estações envolvendo o carro do sol. Cada povo tem sua maneira de medir o tempo e nos tempos bíblicos não havia um calendário universal como nos dias de hoje. O ritmo do ano solar é o mesmo em toda a terra, mas existem variações conforme os países, latitudes, climas e estações em cada lugar. No Egito, por exemplo, existem três estações bem marcadas ao longo do ano. Em Roma, as quatro estações – primavera, verão, outono e inverno – são bem diferenciadas. Em Israel, praticamente só existem duas estações: passa-se rapidamente da estação seca e quente (verão) para a estação úmida e fria (inverno) (Gn 8,22). Em boa parte do Brasil tropical, a temporalidade é parecida, duas estações bem definidas: uma seca e mais fria (inverno) e uma quente e úmida (verão).

As implicações dessa temporalidade sobre o calendário litúrgico e as festas religiosas são muito grandes, mesmo se desconhecidas por muitos. O cálculo do tempo sempre esteve ligado a religião e às suas festas. A base desses calendários sempre foi o caminhar do carro solar nos céus, tanto na sinagoga de Beth Alfa e em tantas catedrais e igrejas cristãs. Ou seja, um ano solar corresponde ao período decorrido para que o nascer do sol ocorra exatamente no mesmo ponto extremo na linha do horizonte de onde se distanciara. Esses pontos são conhecidos como solstícios (sol estaciona).

A riqueza simbólica dos eventos celestes acompanha o calendário agrícola, o ritmo da vida e da natureza, inspira festas e eventos religiosos. O solstício de inverno é o dia mais curto do ano: 21/22 de junho no hemisfério sul, associado à fogueira e à festa de S. João. O de verão apresenta o dia mais longo: 21/22 de dezembro, associado ao nascimento de Cristo e ao triunfo da luz. Podem-seintroduzir entre essas duas datas, dois momentos cosmológicos especiais em que a duração do dia é igual a da noite: os equinócios (equi-noite, noite igual). O equinócio da primavera ocorre em 23 de setembro (associado a S. Mateus) e o do outono, em 21 de março, associado a festa de S. José, o homem justo e equilibrado. Nesses dias de absoluto equilíbrio, em qualquer ponto da terra, o dia e a noite duram exatas doze horas. Quem reflete espiritualmente e liturgicamente sobre essas datas nos dias de hoje?

No livro do Eclesiastes, um dos capítulos mais conhecidos é o que evoca o inexorável caminhar cosmológico do tempo: “Existe um momento para tudo e um tempo para cada coisa sob o céu. Um tempo para nascer e um tempo para morrer; um tempo para plantar e um tempo para arrancar a planta.” (Ecl 3,1). Essas certezas cosmológicas, constatadas empiricamente a partir dos ciclos solares e lunares levaram a tradição judaica e cristã a construir certezas espirituais e a ver no cosmos os sinais de Deus, como uma fala oracular permanente. Em todas as civilizações os homens buscaram em modelos cosmológicos a sustentação para suas experiências de vida. Projetaram nos céus o que assistiam na terra. A perfeição e beleza do Cosmos (da mesma raiz deriva cosmética!) se tornou, graças a uma matemática repetição dos sinais celestes (dia/noite; estações; fases da lua etc.), uma garantia de resultados para determinados processos pessoais e sociais. “Enquanto a terra durar, semeadura e colheita, frio e calor, verão e inverno, dia e noite nunca cessarão” (Gn 8,22). Como contemplar hoje a natureza e os céus? Como, a exemplo dos magos, ser capaz de ver no firmamento os sinais de Deus?

A visão cosmológica sempre marcou profundamente as festas religiosas judaicas. O tipo de livro que contém as orações de todas as festas do ano litúrgico judaico é chamado mahzor, ciclo. As Igrejas ortodoxas e o ritual bizantino mantiveram uma belíssima liturgia, profundamente impregnada de sentido cosmológico. No ritual romano, a ênfase antropológica foi tanta que acabou por ofuscar a dimensão cosmológica. Que celebrante sabe exatamente como, no sentido cosmológico, está construído o ano litúrgico? Assim como a temática dos sonhos incomoda, e não é suficientemente explorada em nossos púlpitos, a fala oracular dos céus, os ciclos lunares e solares, as constelações e a natureza ainda não encontram o devido espaço em nossas liturgias.

Ao ver o Cruzeiro do Sul na abobado celeste, sinal de orientação divina em meio as trevas, próprio ao nosso hemisfério, poderíamos lembrar do nosso batismo. Naquele dia também foi traçada uma cruz na abobado de nossa cabeça. O Cruzeiro do Sul é um sinal celeste convida-nos a caminhar em direção de nós mesmos e do Pai. Na Amazônia, um sacerdote amigo recolhe o pólen das flores – esse ouro vegetal, sinal da fertilidade e da vida para os povos indígenas. No batismo, ele marca a cruz na testa dos bebes (Dominicus character) com um traço dourado de pólen. Esse gesto tão maravilhoso e significativo une o cosmos, a vida e o sopro divino. Os jesuítas fizeram grandes esforços de inculturação da fé no meio indígena, fortemente baseados nos ciclos celestes. Em todas as missões guaranis, no centro do pátio principal, havia um relógio solar.

No evangelho de Lucas, o nascimento de Jesus é plenamente situado no tempo (“no tempo de Herodes”- Lc 1,5), no calendário (“ano quinze do governo de Tibério César…” – Lc 3,1-2) e nos três tempos da história da salvação: o tempo do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O tempo do Pai é marcado por Maria e Zacarias celebrando a ação de Deus salvador e termina com o “dom da Lei e dos profetas” (Lc 16,16). O tempo do Filho inicia-se com João Batista preparando seus caminhos (Lc 1,76) e é declarado por Jesus na sinagoga de Nazaré, após a leitura da passagem de Isaías. Em Jesus, o ano jubilar começou. Não se trata mais de uma utopia. Com sua ascensão aos céus, o período inaugural do reino de Deus termina e o Espírito não repousa mais somente sobre Jesus. Ele é dado a todos os discípulos, “servidores da palavra” (Lc 1,2). O Ressuscitado ordena que sejam “testemunhas em Jerusalém, em toda Judéia e Samaria e até os confins da terra” (At 1,8). Esse terceiro tempo não acabou. Lucas não contou o fim dessa aventura. Somos todos convidados a escrever novos capítulos, todos os dias.

Os capítulos atuais deveriam sondar os céus e o mar, resgatar franciscanamente a sabedoria dos animais e das plantas e contemplar carmelitanamente a Noite da Transcendência, resposta às trevas da criatura. O homem urbano necessita mais do que nunca de referencial cósmico e do tempo para sua contemplação. Com sede da riqueza da vida, ele termina por buscá-la em cristais, florais, horóscopos e amuletos. Bebe areia ao invés de água viva. Para a mística judaica, antes da criação, Deus ocupava tudo. Para criar, Ele teve que contrair-se. O Incriado limitou-se para dar espaço à criação e a criatura. Essa contração é conhecida como tzimtzúm. No Cosmos, podemos contemplar cotidianamente o sinal desse amor. Na própria criação, Deus também parou para contempla-la e nos legou o shabat, o nosso domingo. Tempo de graça para descansar em Deus, estar juntos em família e contemplar sua obra. Tempo de libertação do ativismo e da ação. Uma história rabínica fala de um rei que construiu uma câmara nupcial, ornou-a de afrescos e decorou-a com pinturas. O que faltava? Uma noiva que entrasse ali. Da mesma forma o que faltava ao mundo? O shabat.

A capacidade de ouvir a voz oracular dos céus voltará na medida em que nossa liturgia explicite pedagogicamente seus tempos, seus vínculos cosmológicos e convide o interior de cada um a uma verdadeira contemplação. Esse vínculo com o cosmos, apagado por um excessivo antropocentrismo e sociologismo em nossas celebrações, distanciam do Incriado e da criação, mas pode ser encontrado na beleza da liturgia pascal judaica:

“Se a nossa boca estivesse cheia de canto como o mar,

e nossa língua, de júbilo como o bramido de suas ondas,

e nossos lábios, de louvor como a amplidão do firmamento,

e nossos olhos resplandecessem como o sol e a lua,

e nossas mãos se estendessem como as águias no céu,

e nossos pés fossem ligeiros como os da corças,

não chegaríamos a Te agradecer,

Senhor, nosso Deus e Deus de nossos pais,

e a bendizer Teu nome,

por uma infinitésima parte

dos benefícios que nos fizeste.”

 

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A voz oracular dos céus. A Tribuna, Campinas – SP, v. 90, p. 12 – 13, 1999.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A voz oracular dos céus. Jornal de Ciência e Fé, Curitiba – PR, 1999.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A voz oracular dos céus. Revista de Liturgia Nº 156, Novembro/Dezembro, 1999.

 

 

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