A TENTAÇÃO DE MARIA


(7/8/1997)

Evaristo Eduardo de Miranda

O absurdo

Diante de um ser luminoso, penetrando misteriosamente sua casa, o que você faria? Pediria socorro? Ficaria imóvel, paralizado? E se ele falasse? Você responderia? O que você diria se ele lhe chamasse de escolhida? Como uma jovem pobre e humilde pode ser escolhida? Escolhida para quê? E se fosse para ser a mãe de uma divindade? O que você pensaria? Preciso acordar? Devo ver um psicólogo? Devo contar o caso para minha melhor amiga? Corro o risco de acabar internada numa clínica para esquizofrênicos? Buscaria uma explicação racional para esse absurdo total? Consultaria alguém da hierarquia eclesial? Seria possível uma aparição? E o que pensar quando a voz anuncia, nada mais nada menos, que seu corpo será a maternidade, não de um deus, mas de Deus? Diante do mistério Maria só perguntará: como se fará isto, visto que não conheço varão?

A tentação

Após a aparição, ela se pergunta: foi real ou estou enganada? Pode haver prova da verdade desta inimaginável experiência? Ou a resposta estará num absurdo ainda maior? Como minha prima, já velha, será mãe? Estará Isabel gerando um filho há seis meses? Como eu não soube de nada? Porque creio e duvido? Terei coragem de ir até lá verificar? E se, ao contar esta estória absurda para Isabel, ela tratar-me de louca? Porque, apesar do risco, saí tão apressada para encontrá-la? Seria a única maneira de verificar esses acontecimentos? Porque vem a idéia de retornar a cada curva do caminho? Porque sigo em frente contra toda evidência do ridículo? Como fui ter a pretensão mais desmedida que algum mortal já teve? Porque após o descanso sob essa árvore, revendo minha vida, me vem a vontade de deixar tudo e voltar para trás? Porque seguir tão apressada? Qual não será o meu ridículo ao contar essa estória a Isabel? De qual absurdo ela rirá mais: da minha gravidez divina ou da sua, extra temporã?

Como nunca imaginei que a casa de Isabel fosse em montanhas tão distantes? Porque tenho mais dúvidas do que as pedras do caminho? Mas não fui eu quem disse: eis aqui a tua serva, cumpra-se a tua palavra? Porque a dúvida aumenta mais quanto mais me aproximo da casa de Isabel? Porque tremo? Porque a voz não sai? E se ela não estiver em casa? Devo esperar que chegue à porta? Devo gritar? Devo, com este grito, terminar este primeiro parto? Será minha voz a primeira a visitar Isabel? O que me aterrorizará mais: sua velhice estéril ou seu corpo já transformado por uma inimaginável gravidez de seis meses? Bastará vê-la para crer? Porque invado a casa gritando seu nome? Será que ela ainda não me ouviu? Porque ao entrar na casa de Zacarias tudo parece uma vertigem onde só a fé, que me abala, me mantém firme? Haverá eco para a viagem ensandecida desta pobre serva extenuada? Haverá resposta para meu clamor repetido a cada passo e a cada tentação nesta longa caminhada?

Vozes femininas

“Bendita ‚és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! E como eu tenho a honra, que a mãe do meu Senhor, venha visitar-me? Pois, apenas soou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino saltou de alegria em meu ventre. Sim, feliz a que acreditou na realização do que lhe foi dito da parte do Senhor!”, exclama Isabel. (Lc 1,42-45). Acabaram as perguntas e a tentação de Maria. Talvez antes de ver Isabel, as palavras de júbilo e alívio brotam num cântico que já foi de outra mulher: “Minha alma engrandece ao Senhor e meu espírito se rejubila de alegria em Deus, meu salvador, porque pôs os olhos sobre a baixeza de sua servidora. Doravante todas as gerações me proclamarão bem-aventurada” (Lc 1,46-48).

Maria não fugiu da sua tentação. Não devemos fugir das nossas. O chamado é para conversar com nosso lado escuro e às vezes, até, tocá-lo delicadamente. Harmonizar nossos opostos, num casamento místico e virginal. Diante do impossível, a humilde serva do Senhor enfrentou sua tentação, como seu Filho fará mais tarde, no deserto da vida. A tentação e a adversidade são o nosso caminho de crescimento. Todos têm o direito de serem postos a prova. Maria não ouviu somente a voz do Anjo e de Isabel. Ela ouviu a voz de seu filho, na manjedoura e quando do rapto celeste da assunção, festejado em 15 de agosto. Maria, Porta do Céu, segue ouvindo e atendendo nossas vozes. Milhões de vozes, repetindo, todos os dias: Ave Maria, cheia de graça! O Senhor é convosco. Bendita sois vós entre as mulheres e bendito é o fruto de vosso ventre, Jesus!

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A tentação de Maria. A Tribuna, Campinas – SP, v. 3762, 1999.

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