A SINFONIA DAS RELÍQUIAS

(30/8/1998)

 

Evaristo Eduardo de Miranda

 

Um relógio do ex-presidente Kennedy foi leiloado por 700.000 dólares. Um vestido, que Lady Diana usou uma única noite, foi a leilão por quase 200.000 dólares! Outros objetos da ex-princesa de Galles têm um grande valor sagrado, para quem os possui Tem sido assim com gente famosa e artistas falecidos, como Elvis Presley, John Lennon e tantos outros. Após a morte dos Mamonas, quanta gente não enfrentou uma arriscada caminhada pela mata, para obter uma lembrança do grupo. Pessoas emocionadas apresentavam ao regressar, como troféus, pedaços de vestimentas ou objetos que, supostamente, haviam pertencido aos membros do grupo. Após a morte de Daniel, cantor da dupla João Paulo & Daniel, os fãs precipitaram-se no local do acidente, na rodovia dos Bandeirantes, em busca de algum resto ou lembrança. A imprudência de alguns causou até mortes e atropelamentos!

Esse desejo dos fãs ou seguidores de possuírem algum objeto que pertenceu, foi usado ou tocado pelo seu líder é muito antigo. Sobre relíquias e despojos, o Cristianismo possui referências muito antigas. A tradição sempre afirmou que a basílica do Vaticano havia sido construída sobre o túmulo de São Pedro. Clemente, bispo de Roma no final do primeiro século, já falava do martírio de Pedro no circo de Calígula e Nero, na colina do Vaticano, e de como o apóstolo fora enterrado numa necrópole vizinha. Os resultados das escavações arqueológicas sob a basílica do Vaticano, autorizadas por Pio XII, de 1939 a 1950, confirmaram os textos antigos: a necrópole do Vaticano está estabelecida num lugar fundador do Cristianismo. Eusébio de Cesaréia, no século II, escreveu sobre a veneração dos cristãos aos despojos de Pedro: “Discutindo por escrito contra Proculus, ele (Gaius) disse, a propósito desses lugares onde foram depositados os despojos sagrados dos ditos apóstolos (Pedro e Paulo), as seguintes palavras: Para mim eu posso mostrar os troféus dos apóstolos. Se você quiser ir ao Vaticano ou sobre a via de Ostia, encontrará os troféus daqueles que fundaram essa Igreja””.

Uma carta escrita por volta do ano 160, por autor desconhecido, relata a morte do bispo Policarpo de Smirna que chegou a conhecer o apóstolo João. Após relatar as respostas de São Policarpo, diante de um proconsul romano que insistia para que ele maldissesse o Cristo, a carta descreve seu martírio, sua morte na fogueira e conclui com as seguintes palavras: “Mais tarde nós pudemos recolher seus ossos, mais preciosos do que pedras preciosas de grande preço e mais preciosos do que o ouro, para depositá-los num lugar conveniente. É lá, sempre que possível, que o Senhor nos dá de nos reunirmos na alegria e no regozijo, para celebrar o aniversário de seu martírio, de seu nascimento, em memória dos que combateram antes de nós, e para exercer e preparar aqueles que devem combater no futuro”.

Relíquias têm significados simbólicos e espirituais para quem as possui e venera. Elas representam um elemento tocado, habitado, manipulado ou a própria matéria daquele que é venerado pelo exemplo. Para a Igreja, santos e santas, homens e mulheres, leigos e religiosos, adultos e crianças, são histórias de vidas, exemplos de triunfo sobre situações difíceis, análogas as vividas pelos cristãos de hoje. Os santos, por sua história pessoal, manifestam a variedade dos dons do Espírito Santo na Igreja.

Esses mesmos dons podem ser derramados sobre todos cristãos. Em sua função reveladora e de sinal, os exemplos dos santos impulsionam para o Eterno (Hb 13 e 14). O Concílio do Vaticano II destacou o papel dos santos nas relações e na comunhão da Igreja Peregrina com a Igreja Celestial: a vida daqueles que, sendo homens como nós, se transformou com maior perfeição em imagem de Cristo (2Cor 3,18). Eles se tornaram um manifesto, ao vivo, diante dos homens, da sua Presença e do seu Rosto. Nos santos, Deus mesmo nos fala e oferece um sinal do seu reino, para o qual somos atraídos poderosamente com tão grande nuvem de testemunhos da verdade do Evangelho nos envolvendo (Hb 12,1).

Há cem anos, faleceu na França uma santa, bem mocinha: Teresinha do Menino Jesus. Seus escritos e palavras, recolhidas como relíquias por suas irmãs de monastério, provocaram um movimento de renovação na Igreja. Para Teresinha, Deus não nos ama porque somos bons, mas para que nos tornemos bons. “Senti que a única coisa necessária era unir-me sempre mais intimamente a Jesus, “o resto me seria dado por acréscimo”. Com efeito, minha esperança nunca se iludiu.” Teresinha entendeu muito cedo que o que nos move é o desejo. E o seu desejo era o de ser santa. Ser boa, para ela era pouco. Morta, ela não teve direito ao descanso eterno. Está atarefadíssima no céu. Atende pedidos, intercede e derrama bênçãos como chuvas de rosas sobre a terra. No ano passado foi declarada doutora da Igreja pelo Papa João Paulo II. Este ano, parte de suas relíquias cumprem uma viagem missionária pelo mundo. Teresinha que, dos 16 anos até a morte com 24, nunca saiu do Carmelo de Lisieux é, paradoxalmente, padroeira das missões.

Venerar suas relíquias é uma forma especial de sentir-se perto, ao lado, de sua realidade material, que o sopro divino levantou do pó. Longe de qualquer sentimento de necrofilia, as relíquias evocam a vida eterna, a vida em plenitude, a pequena via para chegarmos a Deus. Suas relíquias vêm a Campinas. Será uma oportunidade para todos os homens de boa vontade aproximarem-se da materialidade de uma vida dedicada à Transcendência. Na Igreja, eu serei o Amor, dizia nossa santinha. A presença das relíquias, daquela que relembrou a importância da infância espiritual, vai iluminar a bela catedral da cidade e também, o mosteiro das monjas contemplativas, em Barão Geraldo, o Carmelo de Santa Teresinha. Tantas vezes evocada e invocada nesse espaço de oração, silêncio e harmonia, agora a própria Teresinha atende à convocação e comparece com a sinfonia perfumada de seus dons. Todos estão convocados a esse encontro com o divino, o extra-ordinário, os sinais visíveis do Invisível, a permanência do passageiro, a perspectiva da vida em abundância. Um minuto de silêncio e oração, ao lado dessas relíquias, trará ao mistério de cada um, uma eternidade de harmonia.

 

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. Preciosas Relíquias. A Tribuna, Campinas – SP, v. 95, p. 8 – 9, 2004.

 

 

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