A SATISFAÇÃO DE REALIZAR


(15/10/2012)

Evaristo Eduardo de Miranda

Quando alguém sobe uma montanha desfruta da caminhada, da paisagem, do esforço e da sensação de sentir-se cheio de vitalidade e livre. Ninguém reserva o prazer apenas para o objetivo de atingir o cume. Cada momento do esforço é prazeroso. Pode ser desfrutado. Cada passo na caminhada e até os tropeços são fontes de prazer. Para quem resume a caminhada no objetivo final, não há alegria, nem crescimento, nem prazer durante sua realização.

O mundo e a vida são vistos como um vale de lágrimas. O que vale no vale é a busca da perfeição. Essa atitude perfeccionista, focada absolutamente no resultado final, afeta a vida espiritual. Pessoas perfeccionistas dão a impressão de serem exemplares. Nada deve ser reprovado em seu comportamento, alimentado por critérios de alta perfeição. “Sede perfeitos, como vosso Pai é perfeito” (Mt 5,48) é para eles o suprassumo dos evangelhos.

Não lhes basta ter uma boa vida, um trabalho satisfatório. Também seus filhos, seu carro, sua casa, suas férias, sua aparência, sua comunidade, sua paróquiaTudo deve estar perfeito para que sejam felizes. Os perfeccionistas da vida espiritual são pessoas insatisfeitas, angustiadas e insaciáveis. O menor erro já os tira de seu eixo. Um probleminha e esquecem tudo que houve de bom durante o dia ou durante uma missa. Um fato negativo e a paróquia, a pastoral em que participam ou até a diocese, para eles, estão abaladas.

Preocupados em que tudo seja perfeito em suas vidas, deixam de aproveitar e desfrutar das alegrias cotidianas. Os perfeccionistas duvidam de seu próprio valor e competências. Acham de que devem fazer muito para merecer o amor e o reconhecimento do próximo e de Deus. Fazem grandes esforços para parecerem perfeitos e, no fundo, são frágeis. Eles se privam dos prazeres cotidianos da vida. Atingir o topo da montanha é um objetivo, mas a caminhada é também. O topo talvez nunca será atingido. As alegrias cotidianas estão ao alcance da mão, do olhar, do sorriso e do carinho. Deus não compensa, nem recompensa. Ele vai muito além de nossos merecimentos.

A maioria das Bíblias traduz a palavra grega teleio por perfeito. Na realidade, essa expressão significa: íntegro, completo e maduro. E, nesse sentido, perfeito. Os chamados evangélicos à perfeição são convites, e não imposições, à busca da plenitude. Não há mal algum em desejar ser perfeito, mas a perfeição não existe. A sabedoria está em saborear o que realizamos e vivemos o tempo todo. Desfrutar do dom da vida e dizer, como Santa Teresinha: Tudo é graça!

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