A PERFEIÇÃO É NOSSA PERFECTIBILIDADE


(15/11/1999)

Evaristo Eduardo de Miranda

O Padre Pedro Cipolini ora, labora, elabora e escreve sobre tantas coisas neste livro! Seus textos límpidos tornam nossas, todas as suas santas causas: a Santa Casa, a solidariedade com os excluídos, os desafios da partilha neste tempo de jubileu, a família diante da violência, o casamento e o casal casual, a ética e o morrer, a morte dos índios e o processo de Jesus, as melhores armas contra a corrupção, a idolatria, a visão do crucifixo, o ateísmo e a ciência, a fé e a razão, a mística cristã etc etc. Madre Teresa (sobre quem ele também escreve) aconselhava: esteja atento, pois, talvez, o único evangelho, que seu vizinho ou colega de trabalho leia, seja você!

Neste evangelho do Padre Pedro, o grau de civilização de uma sociedade é medido pela atenção e pelo cuidado, que é capaz de dedicar aos mais fracos, aos mais pequeninos: os deficientes, os menores abandonados, os prisioneiros, as vidas abortadas. Numa terra de barbárie e de neopaganismo crescentes, a leitura de cada capítulo deste livro faz a esperança jorrar, até formar uma corrente de águas poderosas, cujo canto anuncia uma possibilidade: Paz na terra pelos homens de boa vontade!

Nas palavras do Padre Pedro não existe julgamento. O julgamento é uma resposta órfã à sua pergunta. Na perspectiva judaica e cristã, a resposta deve conter ainda e sempre a força da pergunta, do questionamento, da vida e do tempo. A verdadeira resposta a todas as interrogações levantadas nesta coletânea de artigo, é situar-se numa posição dinâmica entre a pergunta e a resposta.

Na ótica da mística cristã, a resposta-viva interroga e envia à pergunta que a gerou. O Padre Pedro não se interessa por respostas a perguntas e questionamentos já resolvidos. Ele sabe que a verdadeira perfeição do homem está na sua perfectibilidade. O homem não é homem pela natureza humana, mas pela sua capacidade sobrenatural de se ultrapassar. Se fossemos acabados, como as pedras ou o mar, estaríamos mortos. Diariamente nos reinventamos, ascendemos. Em cada palavra, em cada sentença, em cada gesto, morremos e ressuscitamos. Destruímos o definido para abrirmo-nos ao infinito, como seres responsáveis pela nossa liberdade.

Alguém poderá achar, que o Padre Pedro insiste junto aos campineiros e brasileiros, com uma teimosia de pedra, sobre temas repetitivos. Nossa impotência parece ficar estampada em seus escritos. O que fazer diante de tão graves desafios? Ele repete determinadas histórias e considerações como se isso fosse um dever, uma mística. Por que? A explicação é simples. Talvez ela sirva de vestíbulo para a leitura deste livro. E é também uma outra história, tirada da tradição judaica:

“Quando Baal Chem Tov, o Mestre do Bom Nome, o rabino místico que fundou o hassidismo, tinha uma tarefa muito difícil diante de si ou quando via uma desgraça prestes a abater-se sobre seu povo, ele ia se recolher solitário num certo local, no meio da floresta. Ali, ele acendia um fogo, meditava em oração e as orientações e inspirações de Deus chegavam. As desgraças eram afastadas. O milagre acontecia.

Uma geração mais tarde, quando seu discípulo, o Maguid de Mezeritch, devia intervir junto aos céus pelas mesmas razões e problemas, ele ia no mesmo local, no meio da floresta, e dizia: “Senhor do Universo, escuta-me. Eu não sei mais como acender o fogo, mas ainda sou capaz de dizer a oração”. E as orientações e inspirações de Deus chegavam e as desgraças eram afastadas. O milagre acontecia.

Na geração seguinte, o rabi Moisés Lev de Sassov, para salvar o povo das mesmas desgraças e ameaças, também ia solitário na floresta e dizia: “Eu não sei como acender o fogo; eu não sei mais rezar, mas eu ainda me lembro do lugar e isso deve bastar.” As orientações e inspirações de Deus chegavam, as desgraças eram afastadas e o milagre acontecia.

E depois chegou a vez do rabi Israel de Rijine de afastar as ameaças e desgraças. Sentado em sua poltrona dourada, no coração do seu castelo, ele punha a cabeça entre as mãos e dirigia-se a Deus: “Senhor do Universo, eu sou incapaz de acender o fogo; eu não conheço mais a oração; eu não sou capaz de achar o lugar na floresta. Tudo o que eu sei fazer é contar essa história, e isso deve bastar.” E de novo, as inspirações de Deus chegavam, as desgraças eram afastadas e o milagre acontecia.

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