A PASSAGEM DA CRUZ

h26

(15/9/2007)

Evaristo Eduardo de Miranda

Muitos fazem o sinal da cruz ao entrar num cemitério, passar diante de uma igreja ou ao chegar num túmulo. No dia de Finados, o símbolo da cruz predomina nos cemitérios, sobre as sepulturas, nas capelas, nos cruzeiros e nos gestos das pessoas. A cruz seria um símbolo da morte? Não! A cruz representa a porta da vida eterna. Por isso, o sinal da cruz abre e encerra os ritos do funeral. Por isso, a cruz é colocada nas salas dos funerais; é traçada com água benta na bênção do corpo dos falecidos e das sepulturas, e vai desenhada sobre os caixões. A cruz de Cristo é símbolo da Vida.

Na cruz de Jesus Cristo foram derrubados três muros que nos separavam de Deus: o da natureza, o do pecado e o da morte. O muro da natureza separava: de um lado o divino, e do outro o humano. O Criador e as criaturas. Para muitas religiões, ainda é assim: cada um na sua realidade e dimensão. Mas o filho de Deus se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,1-12). No mistério da encarnação do Verbo Divino derrubou-se o muro das naturezas distintas. Deus se fez homem. Isso significa que nós também podemos divinizar-nos. Isso começa no batismo, continua durante toda a existência e encontra sua plenitude no face a face com Deus! Pela morte, passamos para a casa do Pai.

O segundo muro que nos separava de Deus era o do pecado. Ele foi abatido na cruz, numa sexta feira de Páscoa. Jesus morreu na cruz para nos libertar do pecado. O alcance desse amor divino ultrapassa o entendimento humano. Somos livres do pecado por termos sido libertados do medo e, principalmente, do medo de Deus e da morte. Deus não nos ama porque somos bons, mas para que nos tornemos bons, dizia Santa Teresinha. Se Deus me ama assim, eu também posso amar assim! Perdoando e fazendo o bem. Na hora da morte, a pessoa pode perdoar tudo e todos. Ninguém é perfeito diante de Deus. Todos precisarão da sua misericórdia infinita, demonstrada na cruz.

O terceiro muro abatido na cruz foi o da morte, no domingo da ressurreição. Deus tomou carne mortal para lutar e vencer a morte (2Co 5,14). A morte atacou Jesus, devorou-o como fazia com todos os mortais, mas não pode absorvê-lo porque nele havia Deus. E é assim que ela foi morta. A Igreja proclama na liturgia pascal: morrendo, ele destruiu a morte. Ele provou a morte em benefício de todos (Hb 2,9). No dia de Finados, festejamos a vida, a esperança da ressurreição e não a morte. A cruz é o grande sinal da vida e da proteção divina.

Os restos desses muros podem dificultar sua união com Deus. Nessa união divina já estão as pessoas falecidas que você amou. Muitos tentam reconstruir esses muros, fazendo da morte uma terrível ameaça e de Deus um juiz implacável e vingativo. Eles escondem-se nas ruínas do passado e em novos muros divisórios baseados no poder, riqueza ou saber. Não tema. O dia de Finados nos recorda: na cruz de Cristo, a morte mudou de nome e natureza. Agora ela é uma passagem para o Pai, para os céus. Não se trata de um lugar, mas de uma situação. Estaremos no amor de Deus, penetrando no seu mistério e vivendo a totalidade de nossa condição de filhos amados de Deus.

 

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A passagem da cruz. Família Crista, São Paulo, p. 40, 01 nov. 2008.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A Passagem da Cruz. A Tribuna, Campinas – SP, v. 98, p. 13, 2007.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A Passagem da Cruz. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 8, p. 05, 2007.

 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *