A PÁSCOA E OS DISCOS VOADORES


(17/3/1997)

Evaristo Eduardo de Miranda

Os trinta e nove suicidas da seita Portão do Céu levaram até as últimas conseqüências sua concepção dualista do corpo e do espírito. No Rancho Santa Fé, ao suicidar-se, eles acreditavam deixar o casulo, o veículo e o invólucro para ir ao encontro da nave que os levaria ao Reino dos Céus. No debate do corpo e do espírito, a perspectiva da ressurreição, anunciada pela Páscoa do Cristo, é exatamente o oposto dessa visão dos seguidores do guru Marshall Applewhite. A crença na ressurreição do Cristo implica numa visão unitária e irredutível da pessoa humana.

Para o Cristianismo, o homem não tem alma, ele é alma. O homem não tem corpo, ele é corpo. Essa indissolubilidade do humano, marca a identidade da sua pessoa, não somente numa perspectiva terrena, mas também eterna. Não ressuscitaremos como espíritos luminosos, etéreos, flutuando num hiperespaço ou na cauda de um cometa, mas na vida plena e perfeita (realizada) de nossas pessoas. Muitos pensadores e filósofos cristãos, como o basco Miguel de Unamuno, marcaram o pensamento ocidental, e até o movimento existencialista, ao desenvolver essa visão unitária da pessoa. A morte não significa para o cristão o apagar de sua individualidade, nem o fim de sua vida pessoal, mas a passagem para uma perspectiva de glória, junto ao Pai. Nascemos para ressuscitar, em Cristo, nossa Páscoa.

Existe um risco psicológico enorme nas perspectivas religiosas e filosóficas que reduzem o corpo a um veículo do espírito e a pessoa a uma identificação imaginária e imaginada com uma entidade espiritual inverificável. Algumas doutrinas rencarnacionistas e mesmo as dos cristãos evangélicos, por exemplo, que reduzem o corpo a um transtorno ou castigo para o espírito, tem em geral o cuidado de proibir o suicídio. Num caso isso levaria a uma reencarnação em condições mais difíceis, no outro seria a condenação eterna ao inferno. Mas na onda da nova era, proliferam milhares de seitas e visões inspiradas na reencarnação, em que o nomadismo do espírito é cósmico, vai de planeta em planeta, de galáxia em galáxia.

É claro que essas visões são totalmente tributárias das descobertas científicas em suas imagens do universo, mas agem acima da razão e da ciência. Ao lerem-se os textos dos inspiradores de certas visões esotéricas e de algumas seitas surgidas nos Estados Unidos, como a cientologia, tem-se a impressão de uma aventura de ficção científica, parecida com as narradas por Isac Azimov. Discos voadores, espíritos, extraterrestres e mensageiros celestes, mestres e escravos vivem em promiscuidade em mundos imaginários. A qualidade literária desses escritos é bem menor, mas a criatividade e imaginação dos gurus muito superiores. Nessa ótica, as pessoas relêem a realidade de forma a confortar suas ilusões. Para quem separa o espírito ou a alma (não vamos aqui categorizar com rigor) do “veículo” corporal, para quem se acredita habitado por uma nômade entidade intergaláctica ou por um mensageiro celeste, muitas vezes o melhor é separar – de vez – as duas dimensões antagônicas.

Se o suicídio pode representar uma fuga extremada para alguns, muitos adeptos dessa visão dual do homem acabam matando sua identidade pessoal, confortando-se de hipotéticas explicações de vidas passadas que em nada mudam seu presente, nem melhoram seu futuro. O resultado é uma vida de extrema pobreza e acomodação, alentada por experiências extrasensoriais, estados alterados de consciência e dominada pelo medo da morte.

A morte é um mistério impenetrável. Mesmo para quem morre na esperança da Ressurreição. Tudo que se possa dizer sobre o advir do espírito humano, imediatamente após a morte, é conjectura ou ato de fé. Vive-se em todas as sociedades e culturas a perene dissimetria entre a certeza da morte do corpo biológico e a incerteza sobre a morte da consciência.

Para os cristãos trata-se de um fim-meta e não um fim-limite. Em outras palavras, chegar à morte não é uma fatalidade, mas uma meta de entrega a Deus, em nossa evolução terrestre. Superar qualquer dualidade espírito-matéria é uma meta iniciada no batismo. Ali começamos a nascer. Na Páscoa, celebramos a certeza da conclusão desse nascimento cósmico. A morte não nos advém como um limite imposto pela biologia ou pela natureza, mas como um fim-objetivo, uma finalidade-destino: a ressurreição da pessoa, indivisível e irredutível em sua identidade, a exemplo do Cristo.

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