A LONGA MARCHA DOS PEREGRINOS


(1/10/2013)

Evaristo Eduardo de Miranda

Católico não gosta de ficar parado. O rabi Nachmanides dizia: se você está com dor de cabeça, cuide dos pés. Em outras palavras: mexa-se. Saia do imobilismo. Em marcha! Em todas as religiões (judaísmo, islamismo, hinduísmo…) há santuários aos quais se dirigem seus devotos, devidamente mobilizados. O ato de peregrinar às basílicas e santuários católicos, o próprio evento dos Anos Santos ou jubilares com a peregrinação a Roma, indica: os católicos não têm aqui na terra uma morada definitiva. Nem se deixam fixar ou capturar.

O destino de todos é passar. Para os católicos, somos passantes, em movimento, a caminho, no reto caminho. A vida é uma passagem para quem busca a vida eterna. Perder as ilusões; desapegar-se das situações aparentemente estáveis; deixar o comodismo e a rotina; peregrinar à procura de uma vida mais justa e frutuosa. Existem peregrinações famosíssimas e até na moda: Santiago de Compostela, Nossa Senhora Aparecida, o caminho de Anchieta, Fátima, Lourdes e os lugares santos da Terra Santa. Subir as rampas e as escadarias dos montes, outeiros e colinas da Penha, da Glória, do Bonfim, da Freguesia de Nossa Senhora do Ó, do Monte Serrat, do Corcovado, de Braga, do Sacré Coeur, do Calvário e de tantas elevadas e sagradas alturas. Ir a Roma e ver o papa. Engajar-se pelos caminhos santos e vias sacras.

No Brasil, muito católico adora peregrinar, seja a pé ou a cavalo. De bicicleta ou de automóvel. Ou até de avião e trem com um belo pacote turístico. O importante é colocar-se em movimento. Como fez Jesus. Nos evangelhos, Jesus é aquele que vem. Maranatha! Será? Antes de tudo, Jesus é aquele que vai. Ele vai e volta para o Pai, lá onde ninguém pode segui-lo ou alcançá-lo. Os discípulos viveram essa experiência difícil: Aquele que eles seguem é também Aquele que, todo o tempo, se retira e escapa. Ele não veio para ficar, mas para partir.

Jesus desaparece fisicamente diante daqueles que queriam lapidá-lo no alto de uma falésia. Ele desaparece diante da possibilidade de um Herodes que desejava vê-lo. Ele desaparece diante dos que desejavam fazê-lo um rei. E mesmo, muitas vezes, Ele desaparece diante dos discípulos. Eles o buscam e o encontram solitário, longe de todos, em oração na montanha. E assim fazem muitos católicos. De repente, eles desaparecem. E lá vão os católicos em peregrinação, sozinhos ou em grupo, a algum santuário. Rezar em um alto monte.

Ressuscitado, Jesus continua com o mesmo comportamento: desaparecendo. Em Emaús, Ele consente em ficar com os discípulos. Ao ser reconhecido, Jesus desaparece diante de seus olhos. Postado atrás de Madalena, cujo olhar está voltado ao sepulcro vazio, ao chamá-la pelo seu nome, ela o reconhece. “Não me retenhas”, Ele diz. Madalena deve vincular-se a Jesus, mas não deve retê-lo. Ela deve ir a seus irmãos, anunciar… Ela queria tomá-lo, tê-lo num gesto humano, de amor. Jesus não deseja que ninguém o retenha. Ele se vai. Ele precisa partir. Os católicos também. Em marcha!

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