A HORA DA ESPERANÇA


(24/7/2004)

Evaristo Eduardo de Miranda

Quando você vai morrer? A resposta é quase sempre estatística: daqui uns 20 anos, daqui uns 40 anos… A morte pode chegar daqui um ano com uma enfermidade; daqui um mês, num acidente na estrada ou daqui um minuto, num acidente cerebral. A consciência da realidade da morte e de sua dimensão natural é uma fonte de liberdade e de grande crescimento interior. Ajuda a viver o tempo presente, menos vitimado por ilusões e enganos.

A verdadeira angústia de muitos seres humanos, latente ou explícita, é a angústia da morte. Esquecer ou negar a própria morte é uma fonte de alienação e a raiz de muitos medos humanos. As pessoas não têm medo de água e sim, de afogar-se. As pessoas não têm medo de altura e sim, de cair e morrer. Muitos acabam com medo de viajar, de aventurar-se, de ser e amar, por medo da morte. O medo da morte pode instalar-se no ser humano como um veneno da vida. Ele bloqueia a liberdade que a própria morte deveria instaurar, estendendo-se a todas as relações. As ameaças à vida não devem ser negligenciadas neste mundo violento, mas não justificam essa obsessão.

Ninguém seria verdadeiramente livre se não houvesse a morte. A morte liberta ao instaurar o tempo em nossas vidas. Se não morrêssemos poderíamos viver na América durante cem anos, depois passar trezentos anos na Europa ou mil na China. Poderíamos estudar e praticar todas as profissões etc. Toda singularidade desapareceria. Toda diferença seria apagada. Todos poderiam tudo. Como em algumas visões dos reencarnacionistas. Uma forma de tornar a morte aceitável é negá-la, de certa forma, pela perspectiva da reencarnação.

Ao limitar o tempo em nossas vidas, a morte nos leva a optar. Não poderei fazer tudo o que desejaria na vida. Isso me leva a assumir critérios e valores de discernimento e, com toda liberdade, a optar. Cada um constrói sua personalidade através de atos diferenciadores, livremente assumidos. Aí reside a raiz da personificação, da esperança e da integridade. São opções livremente assumidas. Elas valem a pena e não os projetos impostos ou alheios.

Antoine de Saint Exupery dizia: liberdade não é o vazio, a planície diante de nós, para ir a qualquer direção. Trata-se de um muro intransponível com duas portas. A nós de escolher por qual vamos passar. A liberdade está na possibilidade de escolha. Consciente e não alienada. Sem o comando externo de nada ou de ninguém. Nessa luta se ganha e se perde. A liberdade constitui a prática de uma opção consciente diante de necessidades e desejos. A libertação é fruto das diferenciações ao longo da vida: diferenciar-se dos pais, da família, da mulher, do marido, dos filhos, da pátria e até de nossos deuses.

Esse paradigma é revelado no relato bíblico de Abrahão (Gn 12,1). Deus o chama, dizendo literalmente em hebreu: Vai para você. As traduções costumam apresentar um texto diferente: “Vai-te da tua terra, da tua família e da casa de teus pais para a terra… O chamado Lech lehá significa em hebraico: vá para ti, vá na direção de você, para o teu benefício, para o teu bem e para a tua felicidade. Nem sempre as pessoas podem ou querem fazê-lo: atingidos pela alienação, cooptados por projetos alheios de grandeza ou riqueza, vitimados pela miséria, mobilizados na luta do dia a dia, corroídos pela falta de saúde e segurança. Despossuídos em seu ser, muitos deixam, como Eva, que a serpente decida por eles. Para quem luta pela posse de seu eu e busca sua personalização de forma única e irrepetível, a morte instaura a abertura ao outro. O outro reconhecido e honrado em sua alteridade e diferença, na vida como na morte.

Limitado na possibilidade de vivências e experiências, inerentes à condição de mortal, para enriquecer e totalizar sua personalidade, o humano precisa abrir-se aos outros. É necessário entrar em contato e estar disponível para aprender com os outros sobre outras realidades. Eles viveram e vivem coisas que eu não poderei viver. Suas vivências podem me ajudar, enriquecer e completar. Não estou aqui para invejar, copiar ou repetir o outro, mas para reconhecê-lo e honrá-lo na sua identidade. A perspectiva da morte pode levar ainda mais ao encontro e ao respeito dos outros e de suas existências. Leituras, amizades, cumplicidades, acasos, contemplação, profissão, viagens, símbolos e celebrações… São infinitas as possibilidades de crescimento interior na estrada da vida. Sem canibalismo ou vampirismo. Reconhecendo a distância necessária à preservação mútua, tentando não violentar ninguém, nem nada.

A pessoa vive em si e vive também nos outros, pelos outros e graças aos outros. A vida plena é sempre uma vida de relação e comunhão com os outros. Deveríamos ser uma congregação peregrina e não em desagregação, em anomia social. O mistério da morte pode ser um dos mais fortes cimentos de uma vida em assembléia, em ecclesia, em Igreja. Homens amantes, em harmonia entre si, através da natureza. Alimentados no amor. Em qualquer lugar. Em qualquer hora. No kairós. Cristo é a nossa esperança, diz Paulo em sua carta aos Colossenses (Col 1,27). Por isso, os funerais cristãos são exéquias da esperança. Essa segunda virtude teologal, cujo símbolo é uma âncora e cuja cor é o verde.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A hora da esperança. A Tribuna, Campinas – SP, v. 95, p. 8 – 9, 2004.

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