A GUERRA DA ÁGUA


(08/7/1996)

Evaristo Eduardo de Miranda

O mineral mais valioso do Terceiro Milênio da Era Cristã não será o ouro ou o petróleo, nem provavelmente qualquer metal raro, mas a água. Não qualquer água, mas a potável. O crescimento demográfico, aliado a um aumento sem precedentes da capacidade tecnológica do homem de alterar o meio ambiente estão comprometendo seriamente a qualidade dos recursos hídricos para necessidades básicas como o suprimento das cidades, o consumo humano, animal e a irrigação. Nesse contexto o Brasil ocupa um lugar único diferenciado na escala planetária: sobra água onde não tem gente (Amazônia) e falta onde as densidades de populações são maiores (litoral do Sudeste, por exemplo).

Uma cidade de 10.000 habitantes na Idade Média tinha sua economia limitada a um universo local e regional, em geral dependente e em harmonia com os ciclos naturais. Hoje, uma cidade brasileira de 10.000 habitantes, como Jaguariúna em S. Paulo, por exemplo, mobiliza recursos planetários. A capacidade de deslocamento dos indivíduos, os circuitos comerciais e todo o aparato tecnológico fazem com que um habitante desse município seja capaz de mobilizar e comprometer recursos naturais, não só na sua região, mas em várias regiões do país e do exterior.

Os novos poluentes lançados nos rios, nas redes de água pluvial, nos esgotos e nos lençóis freáticos têm características novas. Além da tradicional poluição orgânica do esgoto doméstico, cerca de 6 milhões de toneladas de urina e fezes por dia em todo planeta, as águas servidas também carregam poluentes de origem industrial contra os quais os sistemas de tratamento de águas são impotentes. Os próprios derivados de petróleo como a gasolina, o diesel e os agrotóxicos, bem como os produtos de sua decomposição parcial no meio ambiente, atravessam praticamente intactos os sistemas de tratamento de água das melhores cidades brasileiras.

Aos poucos, em muitos lugares, a contaminação dos recursos hídricos toma um caráter irreversível. Isso preocupa toda a humanidade e foi abordado com atenção durante a ECO-92 no Rio de Janeiro. A globalização da economia só faz acentuar essa tendência e não existe nenhum sinal de reversibilidade nesse quadro, apesar dos recursos tecnológicos disponíveis para evitar a contaminação das águas e se necessário trata-las.

O Banco Mundial estima que 800 bilhões deverão ser investidos nos países em desenvolvimento até 2005 para evitar um colapso no abastecimento de água potável! Em grandes centros urbanos da Amazônia, por exemplo, mesmo estão ao lado de rios enormes, falta água potável e abastecimento adequado para a população de Manaus, Belém, Macapá etc.

Qual a disponibilidade de água doce no planeta? A Europa dispõe de 4% da água dos rios. A Ásia e a América do Norte reúnem 27% e 12% respectivamente. A América do Sul concentra 47% da água doce existente nos rios do planeta. Em termos de distribuição per capita, a média mundial é de 425 m3/habitante. A América do Sul situa-se 713% sobre a média mundial. A bacia Amazônica e a bacia do Prata representam o essencial da disponibilidade hídrica do continente sul-americano e estão entre as duas maiores bacias do mundo.

Nesse sentido, o Brasil detém cerca de 40% da disponibilidade de água doce do planeta! Segundo a revista Newsweek, no decorrer do século XXI, o Brasil será uma espécie de fiel da balança da água doce, assim como a Arábia Saudita é hoje para o petróleo. Talvez seja um pouco simplista, mas em regiões semiáridas como no Oriente Médio, a disputa pela água é um foco potencial de conflitos e até de guerras.

Se o território nacional coincide com o essencial da bacia Amazônica e com grande parte da bacia do Prata/Paraná, isso não é por obra do acaso. Foi o resultado do espírito de conquista e de busca de novos horizontes e possibilidades dos desbravadores portugueses e brasileiros. O Império brasileiro soube, principalmente sob a figura de D. Pedro II, consolidar essas conquistas da nacionalidade. O último sopro territorial na Amazônia foi fruto da saga dos seringueiros: o Acre.

Preocupados com as próximas gerações e não com as próximas eleições, para os monarcas brasileiros não se tratava de somente consolidar as fronteiras, mas também de zelar pelo futuro desses recursos. Em Caldas da Imperatriz, em Santa Catarina, D. Pedro II colocou a guarda imperial para proteger fontes de água mineral de qualquer degradação! Soldados morreram nessa defesa! Mas um dos principais exemplos dessa política de longo prazo está no Rio de Janeiro: a floresta da Tijuca.

Em 1862, a água principal de abastecimento da cidade vinha do rio Carioca que descia nas faldas do Corcovado, pelo Cosme Velho e Santa Thereza, atravessando a Lapa pelo aqueduto. A expansão do plantio do café e da pecuária havia promovido erosão e desmatamento na serra da Carioca e no maciço da Tijuca. D. Pedro temia, com toda a razão, que os mananciais secassem. Pensando na água, o Imperador pede ao major Gomes Archer que inicie o plantio da atual floresta da Tijuca. Ajudado por apenas seis escravos, o major plantou mais de sessenta mil árvores. Hoje, ela é, apesar de todas as ameaças e agressões que sofre, o maior parque nacional em área urbana do planeta.

Faltará água doce no século XXI. Com a urbanização e o aumento da renda, o consumo de água não parará de crescer. Houve tempo em que a nação afirmou “O petróleo é nosso!”. Chegou o momento dos estrategistas e de todos brasileiros – ao pensarem no futuro e na magnificência do Brasil – de redescobrir o exemplo dado pela monarquia no passado como trilha de futuro. Ao redescobrir o Brasil constata-se que “A água é nossa!”, como legado do passado e bandeira de desafio para o futuro!

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A guerra da água. Herdeiros do Provir, São Paulo – SP, p. 03, 1996.

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