A FOICE DA LUA NO CAMPO DAS ESTRELAS


(15/10/1998)

Evaristo Eduardo de Miranda

No dia de Finados celebra-se a memória de todos os falecidos, os finados. Eles chegaram ao fim do seu tempo. Por isso o dia é solene, consagrado à lembrança dos antepassados, dos ascendentes e de todos os mortos. Este feriado é amplamente celebrado em todo o mundo. Os feriados são dias consagrados pelas sociedades à memória de algum evento, personalidade ou feito histórico. A consagração os faz sagrados, os coloca à parte. Nesses dias não se trabalha. O país se consagra a meditar, a lembrar.

Muitas pessoas não ligam para este feriado porque não lhes diz absolutamente nada ou porque não corresponde a sua perspectiva filosófica ou religiosa. Enganam-se. Os finados estão muito além de qualquer religião. Quem profana esta data esquece que teve ascendentes e antepassados. Perde a memória e, sem querer, profana a si mesmo. Que ascensão pode ter alguém na vida, quando não se lembra de seus ascendentes? A pessoa se esquece do Cosmos, de sua genealogia celeste e de que é semente de infinito. Muita gente vive ignorando que teve pai, mãe, avô, avó… Imagina-se só, começando em si mesmo, por se sentir triunfante e vencedor. Age como se fosse filho do nada e do vazio. Ora, os filhos do nada são sementes do caos. Na ascensão pessoal, a graça é sempre a luz da nossa consciência.

O finar evoca o findar e o morrer. Os finados chegaram ao fim (fines) e foram ceifados no seu tempo. O feno é a erva ceifada e seca que serve de alimento aos animais em períodos difíceis de inverno ou seca. Na Bíblia, o homem é comparado freqüentemente com a erva do campo. Finar e fenar são palavras com origens parecidas. Feno vem do grego phaíno e quer dizer brilhar, aparecer. Por isso epifania evoca manifestação, luz do alto que nos veio visitar. A reluzente lâmina da morte não apaga os finados, apenas os igualiza diante das leis da natureza.

A foice simboliza os ciclos das colheitas e da renovação. A colheita só se obtém cortando o caule, que, como um cordão umbilical, liga o fruto à dependência da terra alimentadora. A colheita é o grão condenado à morte para servir de alimento, sustentando a vida, ou para germinar como semente. Sinal da progressão temporal e individual, a foice da morte brilha na noite de nossas vidas, como uma lua crescente que nunca declina. Como nos dizeres do poeta árabe Ibn-al-Motazz, ao designar a lua crescente como “a foice de ouro no campo das estrelas”.

Por isso os católicos acendem velas ao lado de seus mortos: para lembrar que eles não se apagaram. Sobretudo quando, durante a vida, cortaram com a foice da consciência as ilusões do mundo e seus próprios egoísmos. Seus exemplos de vida os fazem brilhar, na lembrança dos que amaram e os amaram. A claridade de seus exemplos brilha como estrelas e pode ajudar os vivos a atravessar períodos desfavoráveis, alimentando-os de sua luz, de seu feno de luz – estocado nos corações. Neles, a luz trêmula da vela do batismo brilhou com toda a sua hesitação e beleza. Eles não viveram apagados, fizeram um trabalho de luz. Sua memória é um facho, um feixe de luz. Por isso finados é dia de acender velas e de buscar a harmonia anterior. A harmonia é um encontro de luzes vencendo as trevas e a escuridão.

No dia de finados é bom visitar os cemitérios, limpar e ajeitar os túmulos, acender uma vela na igreja ou em casa, pronunciar uma oração, fazer um minuto de silêncio (pelo menos!) e meditar… As crianças órfãs crescem com a memória viva de seus pais, mortos. Os adultos, com o passar dos anos, do tempo, vão colecionando os seus mortos. A partir de certa idade, todos passam a ter seus mortos. Na velhice, todos se tornam órfãos. A ritualizar os mortos é terapêutico. Eles são a presença de uma ausência e não ausência de uma presença. A prática desses ritos profanos e sagrados dá outra perspectiva ao tempo. Existe um tempo para tudo.

Para os cristãos, os mortos no seio da Igreja saem da comunidade eclesial e terrena para a comunidade celestial e transcendente. Saem de nossas mãos para serem acolhidos pelas mãos misericordiosas do Pai. No rito das exéquias, familiares e amigos entregam seus falecidos em melhores mãos do que as suas. Na morte e no sepultamento, o cristão compartilha a páscoa do Cristo. Ao velar e enterrar seus mortos, os cristãos revivem a sexta feira e o sábado santo enquanto aguardam, com esperança, o domingo da ressurreição. As exéquias tratam poeticamente e simbolicamente do tema da perda e da restauração da individualidade.

Infelizmente na sociedade atual, a morte tende a ser banalizada e tornou-se um assunto inconveniente. Até para o maior interessado, o agonizante, a quem muitas vezes oculta-se a real gravidade de sua situação. Cada vez mais a agonia final acaba sendo vivida longe da família e dos amigos, dentro de uma unidade de terapia intensiva hospitalar, marca de anonimato e solidão. Os funerais estão sendo realizados mais rapidamente e de forma vazia e despojada. Hoje em dia tem-se a impressão de participar de um delito. Os mortos são escondidos, como se fossem uma vergonha ou um incômodo. Os velórios já são realizados no próprio cemitério. Em poucas horas. Quase sem nenhum ritual. Da forma mais discreta e anti-séptica possível. Como se o defunto fosse foco de um perigoso contágio e devesse ser eliminado o quanto antes.

As honras fúnebres variam entre as culturas mas sempre existem e deveriam ser cultivadas. Se uma cultura perde a capacidade de honrar seus mortos é porque já não sabe honrar os vivos. Os mortos são honrados das mais variadas maneiras: presença ao funeral: coroas de flores, elogios fúnebres, orações, beleza do ritual, poesias, arquitetura do túmulo, assinaturas nos livros de condolências, epitáfios, pessoas presentes, aplausos… e nos finados. Como sementes de humanidade, os mortos estão plantados e disseminados nos mais diversos lugares. A significação das honras prestadas aos mortos é sempre mútua, do morto para o lugar e do lugar para o morto.

Honrar é um gesto que nobilita quem recebe e quem oferece. A sabedoria popular afirma o óbvio: uma das únicas certezas absolutas de nossa vida é a de morrermos. Só não morre quem não nasceu. Mas a eternidade começa aqui e agora. Nossa vida não é uma antessala da morte. O passar dos anos anuncia o prometido a todos e para sempre: a possibilidade de evolução pessoal a cada ano, o reinicio perpétuo, a morte e o renascimento nesta vida. Isso pode realizar-se em cada um, em nossos familiares e amigos. Os finados lembram que não se trata mais de viver somente a inevitável passagem do tempo, as idades e o envelhecimento. O tempo – quarta dimensão do humano – pode ser um tempo de consciência, um tempo de graça, de iluminação e de vida plena.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A Foice da Lua no Campo das Estrelas – Ministrar Exéquias. 1. Ed. São Paulo – SP: Loyola, 1998. 118p .

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A foice da Lua no campo das Estrelas. A Tribuna, Campinas – SP, v. 89, p. 6 – 7, 1998.

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