A FILHA DO SACERDOTE


(10/1/1997)

Evaristo Eduardo de Miranda

Era uma vez uma jovem, conhecida de todos, por ser a filha de um personagem famoso. Desde seu nascimento, sua identidade esteve ofuscada ou determinada pela proeminência dos pais. Quantas pessoas não vivem esse drama: ele é o filho de fulano ou ela é a filha de sicrano. Ao conhecê-los somos apresentados, sem querer, aos seus pais, às suas famílias, como uma referência obrigatória e determinante. Esse comportamento social externo tem sua correspondência interna, na casa, no lar. Ao invés de colocarem-se a serviço da vida, da vida em plenitude a que os filhos têm direito, os pais e familiares os colocam a seu serviço.

Essa jovem de nome desconhecido apenas o nome de seu pai é conhecido – foi levada a incorporar, muito mais fortemente do que em outras famílias, os modelos paternos e maternos. Eles foram veiculados com uma forte dose de coerção: lembre-se de que você é filha de… E por isso não deve ou não pode se comportar desse jeito, ou ter como amiga determinada pessoa etc. Não fica bem para os pais, nem para os avós, esse seu comportamento. Quem sabe um dia essa menina será uma legítima filha da família, graças ao seu comportamento internalizado.

Durante a infância a criança obedece. Assustada e maravilhada. É uma menina, vestida como convém. Levada pelo braço como todas as crianças, tratada como o produto acabado de uma relação amorosa dos pais. Ela é mostrada como uma espécie de prova das coisas que seu pai apregoa. E lá vai a filha do senhor prefeito, ou do fazendeiro, ou do empresário famoso etc. A fatura de comportamento a ser paga pela criança nunca é a mesma, conforme o perfil de sucesso dos pais, sua cultura, religião e tradições.

Até a adolescência as coisas vão mais ou menos bem, mas na hora do despertar maior das forças anímicas, da sexualidade ao intelecto, a crise emerge. Os filhos, como todos adolescentes em grau variado, buscam afirmar sua identidade e entram em conflito com os modelos impostos pelos pais. No caso de nossa jovem, o conflito era muito pior e maior. Seu pai era a principal autoridade religiosa da sua cidadezinha. Chefe da sinagoga, ele pregava como um legítimo representante de Deus. A ela cabia comportar-se como a filha do rabino, do pastor ou do padre. A opção do celibato faz com que os padres não casem, nem tenham filhos. Mas a regra é geral. Ela não podia escandalizar a comunidade, no que pese a dose renovada de hormônios em suas entranhas e os sentimentos florindo na flor de sua pele.

Para alguns ela ainda era uma menina. A filha do rabino. Para ela, uma jovem. Sempre mais velha do que os pais imaginam. Pela lei de Israel essa menina havia atingido a idade para ser prometida em casamento. Biologicamente fértil, ela já podia gerar filhos. Por ser o pai um religioso tão destacado, ela recebido uma dose muito grande de cobranças comportamentais. Lembre-se: você é a filha do rabino…

Como muitas adolescentes, diante de obstáculos demasiadamente grandes na sua busca de identidade, ela decide regredir, recuar. Como tantas adolescentes, ela volta para o seu quarto, onde dorme e sonha. Cercada de seus desejos e de seus astros perdidos, ela regride. Essas patologias psicológicas desatam rapidamente patologias somáticas e corporais. A adolescente interrompe seu ciclo menstrual, emagrece. Sua saúde é abalada. A idéia de suicídio ronda por perto. Ela tem medo de sair de casa e se tranca entre quatro paredes. Há casos em que, numa regressão patológica, a jovem voltou a gatinhar!

No começo os pais não percebem nada e até se comprazem em determinados comportamentos. Alguns guardam os filhos prisioneiros junto a si, a seu serviço, até a morte. Outros percebem a enfermidade em sua casa. E ela será tanto mais difícil a admitir, quanto terá sido a idealização dos modelos paternos e sua imposição sobre os filhos.

A nossa jovem desligou-se do mundo. Não dava para enfrentar. Muitas cometem suicídio. Ela preferiu adoecer para retirar-se. Ela adormece, como a bela adormecida, para os castelos, os sonhos familiares, as imposições celestes e todos os malefícios que não tem forças para combater. Os palpites dos parentes e vizinhos, dos membros da igreja e do clã invadem sua casa. São como latidos, miados, piados, mugidos e outras sonoridades açoitando a corpo e a alma da jovem adormecida. Ela pára de ouvir, de ver, de sentir e de ser. Adormece para sempre no seu quarto, no meio do murmúrio e dos palpites alheios.

Diante da gravidade da situação, o maior responsável pela situação da jovem, seu pai, nome e sombra indeléveis inscrito nos ossos da filha, sai em busca de ajuda. Por amor, Jairo coloca-se a serviço de sua filha, plenamente. Talvez pela primeira vez, em espírito e verdade. Ele arrisca sua imagem, sua carreira religiosa, suas amizades e relações e vai publicamente ao encontro de Jesus, um galileu iluminado. Ao contrário de Jairo, Jesus vivia cercado de más companhias. Apesar de acusado pelos doutores da lei por seu comportamento religioso e cultural, Jairo se aproxima, e de joelhos suplica por sua ajuda. Jesus põe-se a seu serviço e o acompanha em sua casa.

No caminho, os “entendidos”, palpiteiros de sempre, vêem reprovar o comportamento de Jairo ao comunicar-lhe – talvez com algum mórbido prazer que sua filha está morta. Com esse anúncio na porta de casa, talvez essas “boas” companhias queiram sinalizar que Jairo se expôs e se desgastou a toa. De que ele não fez a coisa certa etc etc. Mas Jesus conhece os corações dos homens e o seus enganos. Ela não está morta, ela dorme, afirma o Rabi. Um sorriso de deboche e desdém denuncia o sentimento dessa turba. Vamos juntos, até o seu quarto, lá na casa de Jairo, para ver se ela está morta ou não. Vamos até lá, pois pela primeira vez esse Jesus será desmascarado.

Jesus não lhes dará esse prazer, e muito menos exibirá seu poder como um triunfo publicitário. Ele os deixa do lado de fora, com a multidão. E ao encontrar na casa os juizes dos outros, os engenheiros de obras feitas, os palpiteiros da vida alheia, Ele “bota todo mundo para fora”. O texto grego do evangelho usa uma palavra forte e esse é o sentido de seu ato salvífico. Ele começa botando para fora, os que não conseguem achar seu devido lugar – no mundo e nas relações – e tentam usurpar a linhagem alheia, imiscuindo-se em relações que não lhes diz respeito.

Ele toma apenas três de seus discípulos, como testemunhas (mártires) para o ato sacrificial dos pais que se anuncia. Como no episódio de Abraão e Isaac, Deus revela o que deve ser sacrificado: a fusão, a posse, a confusão nas relações pessoais e familiares, o desejo de submissão. Talil tacumi! diz o Rabi ao tomá-la pela mão, como tomou a sogra de Pedro. Ela também, diante das opções delirantes do genro de deixar a família e seguir um galileu desconhecido, havia adoecido. A jovem desperta. Ao abrir os olhos ela vê um novo mundo. Os palpiteiros e íntimos da família desapareceram e com eles as cobranças sociais. Ela encontra um novo rosto no rosto dos pais. E Jesus coloca, definitivamente, a família a serviço dessa moça. Nesse momento, o texto do evangelho releva que ela não era mais uma menina, mas uma jovem. Ele ordena a mãe de preparar novos alimentos para sua filha. A mãe se coloca a serviço da filha. E ela esta com fome. E essa fome deverá ser saciada. A alegria não retorna a esse lar. Ela se instaura, de verdade, pela primeira vez. Doravante, ela não será mais a filha do rabino, mas uma miraculada, salva pela fé.

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