A FÉ PAGÃ


(25/5/2006)

Evaristo Eduardo de Miranda

A força do cristianismo é seu paganismo, dizia Marcel Légaut, um mestre de espiritualidade. Ele pensava nessa fé das tripas, das entranhas e do coração, e não da mente ou da razão. Essa fé das pessoas simples, dos imigrantes italianos e ibéricos, dos feirantes e sapateiros, agricultores e vaqueiros. Ela expressa uma profunda esperança com relação ao futuro e ao plano de Deus para cada pessoa. É essa fé recebida do avô, da avó e da benzedeira.

Nessa fé “pagã” florescem os milagres, as maravilhas celestes, os relatos dos evangelhos apócrifos, a tradição dos santos, dos padroeiros, do anjo da guarda, dos terços e novenas, das bênçãos, procissões, promessas e sacramentais. Ministros e assessores da Igreja, ilustres e ilustrados, aliados conscientes ou inconscientes do relativismo e ideologias anticatólicas, têm se esforçado em jogar baldes e baldes de água fria nesse braseiro da fé popular. Tratam os fiéis como maus alunos, palavra cujo significado é: sem luz.

Um fiel pede o batismo de seu filho por tradição ou medo de que a criança seja acometida por algum mal, e recebe sua dose de água gelada. Na cara. – Batismo não é para isso! Ele deveria ter pedido para que o filho fosse reconfigurado no corpo de Cristo, através do batismo. Como se a Igreja não batizasse por tradição apostólica, eclesial e familiar. Alguém deseja acabar com essa tradição? O fogo da fé parece apagar. Mas, sob os carvões frios e enegrecidos por tanta falta de acolhida e compreensão, por acusações de alienação, as brasas permanecem acesas no coração dos fiéis. Basta um sopro, um hálito celeste, um respirar com Deus, e volta o calor, a luz e o fogo celeste.

Um monge carmelita amigo, quando estudou teologia, apaixonou-se pelo latim. Sua mãe, uma simples e rude camponesa, balbuciava em latim a Ave Maria, o Pai Nosso e outras rezas. Um dia, percebendo os erros de pronúncia, ele corrigiu sua mãe. Não era assim em latim. No final de suas explicações, sua mãe lhe disse: – Você fica com seu latim. Eu fico com minhas rezas!

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A fé pagã. A Tribuna, Campinas – SP, v. 97, p. 11, 2006.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *