A ESPADA E A VINHA

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(10/7/2006)

 

Evaristo Eduardo de Miranda

 

No evangelho de Mateus, Jesus afirma: “Não pensem que eu vim trazer paz à terra; eu não vim trazer a paz, e sim a Espada. De fato, eu vim separar o filho de seu pai, a filha de sua mãe, a nora de sua sogra. E os inimigos do homem serão os seus próprios familiares” (Mt 10, 34-36). Essa mesma espada era agitada na saída do paraíso terrestre, guardada pelos querubins (Gn 3,24). Essa mesma espada foi convocada pelo rei Salomão para dividir em dois, um bebe reivindicado como filho por duas prostitutas (1Re 3,16-28).

Jesus não levanta os familiares, uns contra os outros, como em certas versões da Bíblia. As traduções recentes resgataram o sentido de dividir como “fazer dois”, como separar em dois o que poderia se tornar um, se a espada redentora não chegasse a tempo. No sacrifício de Isaac, ao levantar sua espada – punhal, Abraão se separa de um filho que não lhe pertencia. Abraão sacrifica o vínculo possessivo e estéril com seu filho único (Gn 22). A separação torna os filhos sujeitos de seu lugar e de sua história. Os filhos sujeitos e não sujeitados, reconhecem seu lugar e o ocupam na linhagem familiar, como jovem Jesus no templo (Lc 2, 48-52). Reconhecem o lugar do pai e da mãe, de forma diferenciada.

Quem é a mãe, segundo Salomão? É aquela que ama seu filho mais do que sua ligação a ele. Ela toma a espada e corta, sacrifica, sua ligação com o filho para que ele viva. Eu amo mais meu filho do que o vínculo que me une a ele. A outra mãe, possessiva, é apresentada como tendo sufocado involuntariamente seu filho, por dormir com ele na mesma cama. Ao falar, a mãe verdadeira não aceita a arbitragem proposta por Salomão e, pelo amor, escreve a história, sob a sombra redentora da espada. A diferença entre “eu te amo porque você é meu” e “eu te amo porque você é seu” tem a dimensão da lâmina de uma espada.

Separar pai e filho, diferenciar filha e mãe, é um trabalho que a espada opera inclusive entre não parentes, entre nora e sogra. No livro do Gênese, o homem é chamado a deixar seu pai e sua mãe (diferenciados) e se unir a sua mulher (Gn 2,24). Como o homem poderia fazer isso se a nora fosse igual à sogra? Ele estaria trazendo para sua casa a própria mãe! Ele estaria voltando para a própria mãe. E quantos não engajam suas vidas nesse caminho. A tragédia de Édipo é o exemplo desse curto-circuito do desejo. Pensa estar casando com uma estrangeira, de outra cidade, e na realidade casa-se com sua própria mãe.

O filho não separado do pai torna-se a mesma coisa que seu pai. O mesmo ocorre entre a filha e sua mãe. Essa ausência de separação e diferenciação está na origem da desgraça de quem mantém com um dos pais um estado fusional, parecido à situação intrauterina onde dois formavam um. Essa preocupação com a diferenciação é permanente na Bíblia. Os mandamentos de Deus ensinam honrar pai e mãe e não os pais (Ex 20,12). Isso significa: reconhecer cada um, pai e mãe, na sua condição e alteridade. Para muitas pessoas só um dos pais conta realmente, o outro ficando em plano secundário. Talvez essa seja uma das realidades mais comuns a serem enfrentadas nos consultórios de psicólogos e psicanalistas. Honrar significa reconhecer o peso de cada um. A raiz hebraica do verbo honrar, cavod, tem o sentido de pesar, dar o devido peso. Quem honra pai e mãe não confundidos, com seus devidos pesos, não pertence mais a nenhum.

Em seu primeiro gesto salvífico, Jesus transformou a água em vinho em Caná da Galiléia (Jo 2) e não mais em sangue como ocorrera com Moisés no Egito (Gn 7,17). Pelo amor, esse vinho será transmutado em sangue e ainda pelo amor esse sangue será transformado eucaristicamente em espírito de salvação (1Cor 11,23-26). Jesus se apresenta como a verdadeira videira e seu Pai o agricultor. “Todo ramo que não dá fruto em mim, o Pai o corta. Os ramos que dão fruto, ele os poda para que dêem mais fruto ainda” (Jo 15,1-2). A vinificação é uma espiritualização da vinha e da vida no sentido figurativo apresentado por Jesus.

Na última ceia, Jesus transformou o vinho em sangue de aliança, derramado em favor de muitos (Mt 26,27-29). As próprias palavras do Cristo sobre o cálice (Mc 14,24) contradizem o componente do ritual pascal dos hebreus que pedia a Deus para derramar sua fúria sobre as nações (Sl 79,6). Pelo amor, cada homem pode forjar uma espada e usá-la no sentido da transmutação de seus conhecimentos inconscientes em saber e sabedoria. Nunca em poder, violência ou idolatria.

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A Espada e a Vinha. Jornal Universidade, Curitiba -PR, v. 7, p. 12, 2006.

 

 

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