A DIFERENÇA DO SEMELHANTE


(6/4/2007)

Evaristo Eduardo de Miranda

Perguntaram a um rabino: “- Por que os homens são todos diferentes? Por que não existem duas pessoas iguais?” O rabino respondeu sem hesitar: “Porque são todos imagem e semelhança de Deus”. Passada a Quaresma, a Páscoa e a Campanha da Fraternidade, cabe uma reflexão sobre esses tempos e temas.

Para os judeus, a lei divina e a Páscoa os incita a nunca esquecer que os hebreus foram estrangeiros no Egito. O relato do Êxodo relembra: uma parte de nós é estrangeira e nos será sempre estrangeira. Essa parte estranha e estrangeira, quase alheia, deve ser reconhecida em nós mesmos, para entender-se a alteridade de nossos semelhantes.

Parece um paradoxo falar de alteridade dos semelhantes. Mas essa é a lição quaresmal dos encontros com os enfermos, com os prisioneiros, com os deficientes físicos, mentais e sensoriais… Ninguém é inteiramente semelhante a nós. Ninguém é radicalmente estranho ou diferente de nós. Há sempre uma dose de identidade e de diferença.

Todos os homens são filhos de um único Deus (Gn 5,1). E numerosos ensinamentos bíblicos começam com a expressão “ Se o teu irmão…”. A fraternidade é sempre apresentada como um fundamento do dever de justiça com relação a todos. Essa fraternidade original está no começo e realiza-se plenamente no final.

“Que o teu irmão viva com você…” (Lv 25,36). Que ele viva ao teu lado, na mesma casa, na mesma classe do colégio, no mesmo trabalho, na mesma sociedade. Nossos deveres com relação ao próximo, nosso irmão, tem esse objetivo de fraternidade: que ele viva conosco. Aceito e não rejeitado, acolhido e não discriminado, ajudado e não explorado, amado e não esquecido.

O termo fraternidade anda pouco utilizado na sociedade contemporânea. Fala-se mais de direitos, igualdade, respeito, liberdade… e menos de fraternidade. A palavra da moda é solidariedade. Uma Campanha da Solidariedade seria mais eficiente do que a da Fraternidade?

A fraternidade da tradição judaica e cristã é como uma imposição da consangüinidade. Ninguém pode escapar ou tem como escapar. A solidariedade não se impõe como um fato da natureza, mas vêm de uma atitude pessoal, de uma iniciativa pessoal. A exclusão é uma impossibilidade teórica quando a fraternidade define os vínculos entre os homens. Já a solidariedade depende da boa ou da má vontade de cada um, diante de uma opção de atitude solidária.

A fraternidade com os deficientes, por exemplo, é um imperativo da natureza para a tradição judaica e cristã. A solidariedade é no máximo uma obrigação moral relativa. Entre o ideal cada vez mais abandonado da fraternidade e a realidade de uma solidariedade cada vez mais proclamada e pouco realizada, está o futuro da existência do humano no homem (G. Bernheim).

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A diferença do semelhante. A Tribuna, Campinas – SP, v. 98, p. 13, 2007.

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A diferença do semelhante. Jornal Universidade, Curitiba – PR, v. 8, p. 11, 2007.

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