A DEUS, STEFANE


(7/2/1997)

Evaristo Eduardo de Miranda

Em vésperas de Carnaval, Campinas tomou conhecimento de mais uma dessas tragédias, cada vez mais banalizadas, mas sempre reveladoras das condições em que vivem os pobres de nossa cidade. A mãe troca uma filha por um barraco. A criança morre. O “contrato” foi rompido. A mãe teme ser despejada dos 15 m2 onde vive (?). A manchete do Diário do Povo: “Um bebe por um barraco” resume tudo, ou quase. Por dever de consciência vamos, agora, ouvir a Stefane.

Como disse a Igreja, ao acolher a família e celebrar as exéquias da pequena Stefane no cemitério, por mais filhos que Deus possa dar ainda a essa mãe, não haverá mais nenhuma Stefane. Por mais crianças que Deus agracie nossa comunidade, não haverá mais nenhuma outra Stefane. Ela era única e irrepetível. Revestida da glória dos que na terna idade caminham para a eternidade, a Stefane nos deixou.

Estava vestida com uma blusinha cor de rosa, pois a morte é fria e os bebes – diariamente enterrados no Cemitério de Nossa Senhora da Conceição dos Amarais – sempre vão agasalhados. Ai reside talvez um dos últimos gestos de carinho, patético, diante da aparente impotência do amor face a irrupção da morte. Flores brancas adornavam a cabecinha, coberta por um gorrinho de lã branca. Abençoada com a água do batismo e das lágrimas dos cristãos ali reunidos, lá se foi a Stefane abrir uma portinha no céu para seus pais e para todos que a amaram, na fraqueza de suas humanidades.

Em nossa moderna sociedade, as famílias estão cada vez mais divididas e desintegradas. As formas e características das famílias atuais distanciam-se do modelo patriarcal. São vários casamentos na vida de cada cônjuge. São filhos de vários casamentos. Meio irmãos, mães solteiras, crianças abandonadas, filhos adotivos… Cada vez mais os filhos de várias uniões são educados em meio a modelos familiares mal definidos e em crise. Vítimas da irresponsabilidade social ou até dos que vivem “sem medo de ser feliz”, essas crianças enfrentam uma difícil caminhada para assumir sua própria identidade. Mas até dessa caminhada a Stefane foi excluída. Esse anjo veio nos visitar. A visita foi breve, mas seu testemunho não se apagará.

O nome Stefane vem do grego stephanos: coroa. Inicialmente representava a coroa como ornamento e símbolo de vitória. Posteriormente, com o sacrifício do primeiro mártir do Cristianismo, Santo Estevão, passou a significar a coroa do martírio ou do testemunho (At 7,54-60). Diante do caos deste mundo, diante dos olhos semicerrados da Stefane víamos brilhar a luz do Cosmos! Como no protomártir Estevão, víamos seu rosto como o rosto de um anjo (At 6,15). Contemplávamos nossa miséria diante desse grão de estrelas, coroado de martírio e vitória!

Foi um rito de adeus com muita compaixão. Textualmente adeus significa a Deus, para Deus. É como dizer: eu te recomendo a Deus, eu te entrego nas mãos de Deus. Esse é o sentido da encomendação dos defuntos na Igreja. E foi para essas mãos, infinitamente melhores do que as nossas, que a Stefane foi entregue. A liturgia da palavra lembrou as palavras de Jesus: “Cuidado para não desprezar nenhum desses pequeninos, pois eu digo a vocês: os anjos deles no céu estão sempre na presença do meu Pai que está nos céus. (Mt 18,10)

Na benção final dos funerais, a Igreja bendizeu a alteridade da Stefane, semente divina plantada um dia na terra dos viventes. Ela crescerá e florescerá em nossos corações. Sinal do toque divino, da mão de Deus em nossos destinos, acima do fait divers jornalístico, ou de qualquer discurso político oportunista. Ela veio como benção e graça, e não como maldição ou desgraça. E brinca, agora, com toda aquela molecada que povoa os campos do Senhor.

A alta mortalidade infantil é um fato estatisticamente conhecido e reconhecido. Se alguém quiser ver esses números, basta ir ao Cemitério dos Amarais. Ali se concentra e materializa a mortalidade infantil de nossa região. Na perspectiva cristã, todas as crianças são mais do que o mero resultado de uma aventura sexual. São mais do que um acidente biológico. A inserção de suas pessoas na árvore da vida, na videira verdadeira, as diferencia, as insere numa outra genealogia e as ajudará a vencer a morte. As crianças não vêm ao mundo para pagar dívidas impagáveis. Não vêm ao mundo para realizar sonhos ou projetos dos pais ou, pior ainda, como fiadoras de seus desejos. E muito menos para enfrentar fatalidades. Elas nascem com direito a uma vida plena. Uma frase bastaria para indicar qual deveria ser nossa conduta frente a esses fatos trágicos. Uma frase que não engana. A palavra mesma de Jesus:

O que fizestes a um destes mais pequenos,

foi a mim que o fizestes. (Mt 25,40)

Publicado em:

MIRANDA, Evaristo Eduardo de. A Deus Stefane. Diário do Povo, Campinas – SP, p. 02, 1997.

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