A CRIAÇÃO DO UNIVERSO NÃO ACABOU


(7/2/2013)

Evaristo Eduardo de Miranda

Olhar por um telescópio é um chamado à humildade. O Vaticano possui dois observatórios astronômicos. Por que o Papa precisaria de astrônomos? Talvez para se defender da tentação do criacionismo ou do dualismo de um Deus ausente, acima do Universo. Os telescópios do Vaticano deram mais contribuições à teologia, do que se possa imaginar. O Observatório foi fundado em 1891 por Leão XIII para mostrar que “a Igreja e os seus pastores não se opõem à ciência autêntica e sólida, tanto humana como a divina, mas abraça-a, impulsiona-a e promove-a com a mais completa dedicação”. Ele é muito ativo. Em 2007, por exemplo, um total de 210 astrônomos de 26 países participou de uma conferência internacional organizada pelo Observatório Astronômico do Vaticano sobre a formação e evolução das galáxias.

Graças em parte às próprias descobertas científicas realizadas por homens de fé como Isaac Newton e católicos Galileu Galilei, Nicolau Copérnico, Giambattista Riccioli, Atanásio Kircher, Nicolau Steno, Gregor Mendel, Georges Lemaître, Teilhard de Chardin e tantos outros, há muito tempo a elaboração teológica aprendeu a diferenciar origem e criação, evolução e criação. Deus não fabricou o Universo. Ele o criou e o cria de forma incessante. Não existe abismo entre Deus e a criação, entre ela e a evolução, entre Deus e o mundo, entre Ele e o Universo. Como dizem os místicos: em cada momento, o Universo renasce. O Universo não é nada mais do que um lugar e um tempo da manifestação do divino. Aqui que se experimenta a unidade, o Uno e presença de Deus. O cientista e jesuíta Teilhard de Chardin,disse em 1927, ele defendeu a ciência como dever sagrado: “Em nome de nossa fé, nós temos o direito e o dever de nos apaixonarmos pelas coisas da Terra. (…) Eu quero me dedicar, corpo e alma, ao dever sagrado da Pesquisa. Sondemos todas as muralhas. Tentemos todos os caminhos. Escrutinemos todos os abismos. Nihil intentatum… Deus o quer, e disso desejou necessitar”.

Com 13,7 bilhões de anos, o Universo possui um raio estimado em 47 bilhões de anos-luz. Apesar as resistências de grupos e indivíduos acostumados a ler o texto bíblico fora de seu contexto, há séculos os relatos da criação do livro do Genesis têm sido entendidos como alegóricos e simbólicos, desde o bispo, teólogo, filósofo e Padre da Igreja, Agostinho de Hipona. O Criador é atemporal, não tem princípio nem fim. Hoje, essa é a posição da Igreja Católica e de diversas igrejas protestantes tradicionais como os luteranos, anglicanos, metodistas etc. Não é bem assim no caso dos evangélicos e outras seitas fundamentalistas.

A Bíblia não é um documento científico, nem esclarece como o cosmos foi criado ou em que ordem, e sim qual o sentido dessa criação. O diálogo entre fé e razão, ciência e religião, busca compreender a inteligibilidade do Universo, a complexidade da vida e o lugar do homem no Cosmos. A linguagem científica não pode ser confundida com a religiosa. Por isso talvez, o Papa mantenha observatórios astronômicos, além de igrejas, obras de caridade, hospitais, escolas, universidades e museus. Para os católicos, a criação do Universo não acabou.

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