A ALMA DOS ANIMAIS


(12/9/1996)

Evaristo Eduardo de Miranda

Uma coisa é certa:

apesar de Aristóteles ser de opinião contrária,

os animais, sobretudo os animais superiores, não são de forma alguma representantes de espécies sem sujeitos.

Eugen Drewermann

1 – Natureza, tempo e eternidade

As descobertas da ciência de como a vida surgiu e se desenvolveu em nosso planeta, colocam a emergência do homem entre os animais em termos temporais e filogenéticos cada vez mais precisos. São quase quatro bilhões de anos de história da vida sobre a Terra. Foi uma lenta e recente evolução dos antropóides, ao longo dos últimos quatro milhões de anos, até o atual momento da hominização. Essas descobertas questionam as visões religiosas e filosóficas do homem e do Cosmos, construídas em contexto histórico muito diverso do atual. Até pouco tempo acreditava-se num surgimento rápido e quase instantâneo da vida sobre a Terra e tinha-se como certa a imutabilidade dos seres vivos.

Ao contrário das visões criacionistas das religiões, a ciência demonstra a permanente evolução de todos os sistemas físicos e biológicos existentes no Universo, mas não somente no sentido da dialética heraclitiana do panta rei, do tudo passa. Nada é fixo. As ciências derrubaram sem cessar os seus próprios paradigmas fixistas: a imutabilidade das espécies de Cuvier, a imobilidade da Terra no centro do universo criado por Ptolomeu, a concepção mecanicista de Descartes que considerava toda matéria como inerte e até a mecânica de Newton, que via o mundo como um relógio perfeitamente ajustado.

Nenhuma dessas visões resistiu ao progresso do pensamento científico, mesmo se nossa compreensão do mundo e do universo continua aproximativa e fragmentada. Mais do que nunca as ciências se constroem sobre verdades transitórias. Hoje a Teoria da Relatividade de Einstein e a visão da física quântica nos implicam num espaço multidimensional muito diferente da nossa idéia comum de espaço e de tempo. Poucas pessoas conseguem dimensionar essas novas realidades espaço-temporais e suas conseqüências para nossa visão do mundo. Amanhã essas visões do mundo real serão mais uma vez corrigidas por novas descobertas. E se existe um campo onde a ciência tem avançado muito é o que trata das relações entre o mundo físico e o biológico.

O aparente divórcio entre a física e a biologia começou a ser superado significativamente a partir das pesquisas de Ilya Prigogine. Os conceitos de seres animados e inanimados perderam muito de seu significado tradicional. Graças a esse físico-químico as leis da termodinâmica aplicaram-se cada vez mais a compreensão dos fenômenos vitais. Os limites entre a matéria inanimada e a matéria animada são mais permeáveis do que se imaginava. Hoje a ciência demonstra como a matéria inanimada, simples, pode se estruturar em sistemas mais complexos e, sobretudo, manter estável essa estrutura através da dissipação de energia (entropia) recebida de uma fonte externa (neguentropia).

O exemplo mais esquemático e simplista desse processo é o de um sistema constituído por uma panela com água colocada no fogo. As moléculas de água estão movimentando-se de forma desorganizada. A medida que o aporte de energia exterior aumenta, a agitação e desorganização das moléculas de água aumenta dentro da panela. A entropia é crescente com a dissipação de energia, seguindo o primeiro princípio da termodinâmica. Até que de repente, com o início da ebulição, formam-se “células” mais ou menos hexagonais na água. No centro de cada uma dessas células está o ponto de origem das bolhas de vapor. Rapidamente aumenta a estruturação do sistema e diminui a entropia.

Se globalmente no sistema fogo-panela a entropia está aumentando, localmente, no interior da panela esta diminui. Essa diminuição se estabiliza por certo tempo enquanto a água está estruturada em células convectivas. Mas trata-se de um equilíbrio meta-estável. Se deixarmos o processo prosseguir chegará um momento em que a água irá se evaporar completamente, a panela derreterá e o gás acabará. A dissipação de energia (entropia) pela água recebida de uma fonte externa do fogo (neguentropia) permitiu um crescimento local da informação estruturada. Mesmo se no final triunfou, como sempre, o princípio da termodinâmica.

O sistema Terra-Sol vive um processo semelhante, apesar de infinitamente mais complexo. Para os sistemas vivos da Terra o sol é nosso meganeguêntropo. A conversão hélio-hidrogênio libera a energia de radiação que mantém os metaestáveis sistemas biológicos terrestres. O Sol em cerca de quinhentos milhões de anos se esfriará, o que impossibilitará a manutenção dos sistemas biológicos sobre a Terra. Mas antes mesmo que isso ocorra a sua expansão, decorrente de sua evolução, calcinará a superfície de nosso planeta. Como a Terra, somos um sistema termodinâmico aberto, vivendo da conversão da energia dissipada e irradiada para nós. O estudo dos chamados equilíbrios metaestáveis em nosso planeta permite uma compreensão da produção natural de sistemas termodinâmicos abertos que se auto-organizam e mostram a forte permeabilidade existente entre sistemas físicos e biológicos.

Essas pesquisas, sobre como os sistemas vivos evoluem e se mantém, colocam novas escalas de tempo e atingem, em cheio, muitos dos postulados éticos, teológicos e até espirituais aceitos durante séculos como eternos. Principalmente quando, como no caso do judaísmo, do cristianismo e do islamismo, a doutrina tomava como fatos históricos os três primeiros capítulos do livro do Gênesis. Diante desses novos desafios, o antropocentrismo das doutrinas historicamente estabelecidas pela tradição judaica, cristã e islâmica apresentam sérias limitações no sentido de entender e dar significado aos novos conhecimentos científicos sobre a origem e a evolução da vida na Terra.

2 – Os chimpanzés irracionais e a costela de Adão

Até pouco tempo documentos oficiais da própria Igreja defendiam o surgimento do ser humano como um ato particular, fruto de uma intervenção especial de Deus. Ainda hoje grande parte das seitas pentecostais criacionistas entendem no sentido mais literal possível essas passagens da Bíblia. Nos Estados Unidos, esse posicionamento chegou a questionar os conteúdos dos curricula universitários. O próprio ex-presidente Reagan deu uma declaração na qual dizia que a Teoria de Darwin ainda não estava totalmente comprovada.

A estreiteza dessa dogmática, diante das descobertas científicas, é hoje flagrante. O que as religiões percebiam como “plano de Deus” revelou-se de uma infinita pobreza. As descobertas científicas sobre a Terra e o Universo mostram o quanto é infinito e insondável o chamado plano de Deus. De um lado desde Copérnico e Galileu a ciência não para e revelar dimensões espaciais e temporais absolutamente inimagináveis para o Universo.

Pelo telescópio descobrimos o infinitamente grande. São centenas de bilhões de galáxias evoluindo a cerca de 15 bilhões de anos. Somente na nossa galáxia, a Via Láctea, são 200 bilhões de estrelas enquanto em outras galáxias esse número pode ser multiplicado por cem ou por mil. Enquanto as dimensões espaço-temporais do Universo atingem essas grandezas o pensamento teológico de muitos continua funcionando em seus esquemas tradicionais: o homem representa o objetivo final de todas as manifestações de salvação, testemunhadas no Antigo e no Novo Testamento. Apesar das dimensões atingidas pelo Cosmos ultrapassarem todo o entendimento humano, apesar dos fenômenos que envolvem sua evolução e seu destino estarem fora da possibilidade de compreensão pelo homem atual, vive-se no campo teológico sobre uma visão antropocêntrica do Cosmos, gerada em outro contexto. As descobertas contínuas da ciência nesse campo pouco excitam as mentalidades teológicas, sobretudo num campo dos mais fragilizados, o da escatologia.

Pelo microscópio descobrimos o infinitamente pequeno. Mais de 99% das formas de vida existentes sobre a Terra são absolutamente invisíveis para o homem. O que se denomina natureza é apenas um pequeno reflexo do fenômeno da vida sobre a Terra, visível para os olhos da atual espécie humana que domina o planeta. A cada instante regeneramos partes de nós mesmos seguindo os princípios da termodinâmica: o estômago semanalmente, a pele mensalmente, o fígado a cada seis semanas. Os átomos mobilizados por cada espécie são de fato compartilhados entre milhões de espécies. A cada vez que se respira se compartilha quatrilhões de átomos já respirados pelo restante da humanidade nas duas últimas semanas e mais de um milhão de átomos que cada indivíduo do planeta respirou (Dossey, 1982).

Os sistemas vivos representam para a física um estado possível, mas pouco provável em termos de ordem e complexidade. Os sistemas vivos conseguem manter-se num estado de meta-estabilidade tomando níveis superiores de energia e matéria do meio ambiente e restituindo-os em níveis inferiores. Trata-se de um processo de disseminação e dissipação bastante efêmero, mas suficiente para manter o sistema estável por um brevíssimo lapso de tempo. Esses estados de meta-equilíbrio, que se mantém pela dissipação de energia graças a uma troca constante com o meio ambiente (sistemas dissipativos), podem ser observados no mundo orgânico e inorgânico. Eles trouxeram um paradigma de conhecimento absolutamente novo que impede, pelo menos nesse vasto campo, a separação dos objetos de conhecimento de seu contexto global e de sua perene transformação.

Todos os estados e manifestações da vida, da matéria e da energia no planeta estão sujeitos a essas transformações, regidas pelas leis da termodinâmica. Essa dinâmica se acomoda mal com a representação estática do mundo desenvolvida ou consagrada pela escolástica medieval: o mundo como algo acabado, desejado e legitimado por Deus. O estudo da evolução das espécies sobre a Terra revela ciclos, fases, expansões, regressões e fenômenos surpreendentes. Eles estão longe de autorizar qualquer voluntarismo do tipo escatológico: entramos na fase final (eschaton) da história determinada pela vontade divina da salvação. Mais ainda, nesse raciocínio escatológico essa vontade divina está encarnada na Igreja que professa uma fé refletida e nos propõe uma doutrina interpretativa dos tempos, inspirada pelo Espírito de Deus. Mais do que nunca a escatologia está confrontada ao desafio de elaborar outra doutrina interpretativa dos tempos atuais: a humildade diante do destino da Criação.

Olhar através de um microscópio ou de um telescópio, para tomar o exemplo desses dois instrumentos que nos levaram ao encontro do infinitamente grande e pequeno, é e será sempre um chamado à humildade. O que cabe perguntar é em que contexto histórico surgiu nossa visão escatológica e o que autoriza projetá-la sobre todo o Cosmos, cujo entendimento ainda nos ultrapassa. O que nós chamávamos de plano de Deus era e será sempre uma percepção muito tênue e aquém de seus insondáveis desígnios. Dentro dessa perspectiva deve-se retomar, não com bases panteístas, mas dentro de um enfoque absolutamente novo, as questões sobre a Criação e seu destino escatológico.

A ciência demonstra: a vida que nos tornou possível, também tornou possível os golfinhos, as baleias, as árvores, os chimpanzés e toda biodiversidade existente. O homem se insere na série animal, como qualquer outro. Nada permite descartar que é a mesma corrente de vida que nos mantém vivos, nós todos, vegetais e animais superiores e inferiores. Nada permite descartar que esse fenômeno não esteja ocorrendo em outros corpos celestes. Origem comum, destino comum? Todos os seres vivos não estariam destinados a algum tipo de imortalidade?

Nossos animais de estimação, com os quais algumas pessoas atingem um nível de entendimento extremamente complexo, amoroso e elaborado, nos encontrarão no reino dos céus? O teólogo alemão Eugen Drewermann, retomou em um livro recente sobre a ressurreição intitulado “La barque du Soleil“, a questão da imortalidade dos animais. Para ele, ao contrário do que pensam alguns, não se trata de projetar para os animais uma imortalidade sobre os modelos existentes para a nossa própria imortalidade. Mas hoje, a resposta à pergunta sobre a imortalidade dos animais difere do passado e não precisa mais ser feita com base numa concepção aristotélica onde os seres vivos e o próprio planeta eram vistos como permanentes e não evolutivos.

A visão estática dos seres, ainda dominante nas religiões monoteístas, advém do fato que os processos evolutivos são demasiado lentos para serem percebidos durante uma vida humana ou mesmo na escala de várias gerações humanas. Somente as ciências modernas foram capazes, em cerca de um século, de estabelecer a filogenia das espécies e consagrar a teoria da evolução vegetal e animal proposta por Charles Darwin. Hoje, a corrente de pensamento neodarwiniana deu coerência à história evolutiva da maior parte dos seres vivos atuais e de muitos outros já desaparecidos. Muitos dos mecanismos e das leis desse processo evolutivo vêm sendo conhecidas e elucidadas através da contribuição de outras ciências e disciplinas como a ecologia, a geologia, a genética de populações e molecular etc.

Esses resultados, aplicados a novas pesquisas no campo da etologia animal, fazem emergir evidências de comportamento ético, de cultura e até de manifestações “pré-religiosas” em determinados grupos de animais superiores, como os chimpanzés. Vários grupos de animais entoam cantos e vocalizações ao sol nascente. Isso ocorre com os macacos que vivem no vale do Nilo e até hoje nas vizinhanças das pirâmides. Os egípcios antigos também entoavam cânticos matinais ao deus-sol. É fácil imaginar quantas vezes homens e macacos se encontravam vizinhos nesse ato religioso. O respeito pela vida animal tinha um significado muito além dos que mobilizam os ecologistas de hoje em dia. Vários estudos realizados com macacos na África, e, sobretudo, no Japão, mostram sua capacidade de gerar e manter um acervo de práticas e comportamentos, socialmente compartilhados e evolutivos, característico de uma protocultura.

Esses conhecimentos atingem em cheio o pretenso antropocentrismo de determinadas concepções ocidentais e orientais da vida e do Universo. As pesquisas científicas mostram que os chimpanzés e gorilas, animais evolutivamente próximos dos homens, dispõe dos mesmos movimentos expressivos natos dos homens: riem e choram, alegram-se e sentem medo, manifestam ternura e cólera, são capazes de sonhar durante o sono. Além do mais são capazes de utilizar extensões corporais (usam pedaços de galhos e folhas para capturar insetos, para derrubar frutas etc.), manifestam uma capacidade limitada de autoaprendizagem e de assimilação com a experiência de membros de suas famílias ou grupos, prefigurando em muitas espécies uma gênese de cultura: cultura como um traço natural e a natureza como um traço cultural.

Outro exemplo desse aprendizado cultural com o grupo e a família está no caso dos animais, em geral ameaçados de extinção, reproduzidos ou protegidos em cativeiro, como o mico-leão dourado, as baleias ou os golfinhos. Quando liberados na natureza, como foi realizado com o mico-leão dourado em alguns locais da Mata Atlântica brasileira, não sobrevivem sem ajuda do homem. Eles não aprenderam, com seu grupo, a cultura de como utilizar os recursos da floresta, as formas de escapar dos inimigos, de se abrigar dos rigores do clima etc. Todo um trabalho de adaptação é necessário.

O gesto de dar a vida por seus amigos e familiares também não é o privilégio de alguns humanos especiais. Outros animais, como os babuínos e os suricatos, por exemplo, possuem comportamentos de solidariedade e altruísmo, a ponto de em determinadas situações um indivíduo emergir “voluntariamente” para dar sua vida pelo grupo, independentemente de idade ou sexo. Comportamento decidido e bastante diferente do de determinados grupos de mamíferos onde o mais velho acaba “salvando” o grupo ao ser apanhado com mais facilidade.

Não podemos mais, como S. Tomás, acreditar que a única característica desses animais “irracionais”, em termos de imortalidade, seja seu desejo de reprodução responsável pela perpetuidade da espécie. A ciência nos revela a cada dia, outros parâmetros sobre a riqueza escondida nas populações e nos povoamentos animais.

3 – O duelo monoteísta do elo perdido

Talvez a primeira dificuldade das doutrinas monoteístas, principalmente das filosoficamente helenizadas, frente a essas realidades científicas é de ordem temporal. Construídas sobre uma visão “criacionista” da vida sobre a Terra, essas doutrinas tiveram e têm grande dificuldade em aceitar e se deixar questionar pelos conhecimentos científicos relativos à origem da vida e às leis que regem a evolução das espécies. O questionamento do geocentrismo foi aceito, pois na prática não suscitou maiores revoluções e questionamentos das doutrinas estabelecidas. Não é assim com os conhecimentos relativos ao surgimento da vida e à evolução das espécies.

Ainda perdura nessa visão, tão ocidental quanto acidental dos monoteísmos, a idéia que Deus interviu instantaneamente e de forma fulgurante na evolução. Um pouco como se os primeiros capítulos do livro do Gênesis fossem realmente o relato científico de como as coisas sucederam. A cada dia um pouco e, num passe de mágica, Deus cria e realiza numa semana o que levou no mínimo 15 bilhões de anos! Ainda hoje essa é a posição oficial de muitas igrejas. Mesmo quando não é, as dimensões de lentidão e extensão temporais que implicam os processos evolutivos (dezenas e centenas de milhares de anos) ainda não foram integradas ao pensamento filosófico-religioso, salvo talvez em alguns esforços extraordinários e cheios de brilhantes intuições como, por exemplo, no realizado pelo padre e paleontólogo jesuíta Teillard de Chardin.

Hoje, a ciência desperta as consciências e questiona o antropocentrismo com novas perguntas e respostas.

Desde quando o homem existe?

Desde quando ele difere dos animais?

Quem é capaz de determinar uma data de seu aparecimento?

Quem é capaz de estabelecer uma fronteira nítida entre a animalidade dos antropóides e nossa pretensa humanidade?

Quem ou o que será o sucessor evolutivo da forma atual de hominídeos?

Qual o destino evolutivo dos outros animais?

O processo de hominização está estabelecido pela ciência em mais de quatro milhões de anos. Esse foi aproximadamente o tempo decorrido entre os primeiros hominídeos ancestrais diretos do homem, os Australopithecus, e a emergência do Homo sapiens sapiens.

Os Australopithecus possuíam muitos ossos herdados e idênticos aos dos chimpanzés (o crânio, os dedos, as omoplatas, o ilíaco…). Mas também, esses mesmos Australopithecus, nos deixaram de herança outros ossos, bem diferentes dos chimpanzés, e que mantemos até hoje em nossa configuração morfológica (a arcada dentária larga e arredondada, a bacia adequada a posição ereta, os joelhos próximos, os pés bem plantados no chão e com os dedos voltados para frente). O homem não surgiu só, nem em um dia, sobre a face da Terra. Os Australopithecus foram contemporâneos do Homo erectus durante muito tempo. Por centenas e centenas de milhares de anos várias espécies de hominídeos viveram, conviveram e se sucederam sobre a Terra.

O exame dos ossos da mão de fósseis do Australopithecus robustus indica que ele já manuseava ferramentas de pedra há 2,5 milhões de anos atrás. Existe uma relação entre o tamanho e a forma dos ossos e os músculos do polegar que permitem segurar e manipular objetos com força e precisão. O Homo habilis viveu a 2,7 milhões de anos e também tinha essas características. Nós não temos e possivelmente nunca teremos maiores informações sobre o que aconteceu naquelas épocas em que nossos hábeis ancestrais transformavam a natureza. Quase não ficaram vestígios desses períodos de centenas e centenas de milhares de anos onde os hominídeos manipularam, como os chimpanzés fazem hoje, pequenas extensões corporais – galhos, pedaços de madeira, pedras não trabalhadas – para construir lentamente uma emergência cultural durante mais de um milhão de anos. O que os chimpanzés não serão capazes de fazer daqui a um milhão de anos se deixámo-los evoluir?

O Homo erectus, por exemplo, viveu em família por cerca de um milhão de ano, amou, fabricou instrumentos, conhecia o fogo, enterrava seus mortos e desapareceu há 300.000 anos. O homem de Neandertal, o Homo sapiens neanderthalensis, foi um “irmão” de nossa espécie. Ao que tudo indica conviveu temporal e geograficamente com nossos ancestrais de forma até mais “refinada” em alguns aspectos. Viveu em família, usou o fogo, enterrava seus mortos e também desapareceu, sofrendo talvez atos de canibalismo por parte de nossa subespécie.

A evolução das espécies continua, diariamente. O que será de nossa espécie daqui a algumas centenas de milhares de anos? Teremos substitutos ou sucessores, caso não nos autodestruamos? Serão hominídeos ou outro tipo de animais? É nessa escala temporal que devemos, no mínimo, buscar resposta às velhas indagações. É nessa escala temporal que devemos refletir sobre o destino escatológico da Criação. O homem, tal como o conhecemos hoje em seu estágio evolutivo, está muito mais perto do animal do que do pressentimento do Homem existente em cada um. Como diz Konrad Lorenz, o elo que falta entre o macaco e o Homem, o elo perdido, somos nós mesmos!

4 – Criação: Destino Escatológico ou Escatologia Pré-destinada

Se todos os sistemas vivos estão evoluindo, qual seria o destino dos outros animais no plano de Deus? Essas questões ainda não foram devidamente assumidas pelas tradições religiosas. Para muitas delas, a história da humanidade é ainda a história da “revelação”, ou seja, um epifenômeno de menos de quatro mil anos onde Deus atua de forma fulgurante e instantânea dentro de um script rigoroso. A dificuldade de refletir sobre os conhecimentos científicos está ligada a um antropocentrismo obscurantista, para não evocar o terrível etnocentrismo de certas histórias da revelação, no que pese seu interesse como mito fundador.

O poema do Gênesis sobre a criação foi composto na Babilônia nos meados do século VI AC, durante o cativeiro dos hebreus, inspirado em mitos locais. Ele tem semelhanças e diferenças com o mito babilônico do nascimento dos deuses, do mundo e do homem, escrito para glorificar Marduk, deus da Babilônia. Os redatores do texto bíblico também se inspiraram visivelmente na lenda de Gilgamesh, principalmente no segundo poema da criação. Historicamente muito da riqueza desses poemas foi deixada para trás em benefício de seu pretenso valor explicativo da origem do mundo e do homem.

Nessa linha de raciocínio simplista, Deus se daria todo o imenso trabalho da criação para simplesmente agradar e servir o homem, feito a sua imagem e semelhança. O homem seria o ponto mais alto da criação (Gn 1,1 e 2,4) e mesmo o centro de toda a criação (Gn 2,4-25), destinada simplesmente a servi-lo. “Sejam fecundos, multipliquem-se, encham e submetam a terra; dominem os peixes do mar, as aves do céu e todos os seres vivos que rastejam sobre a terra. E Deus disse: “Vejam! Eu entrego a vocês todas as ervas que produzem semente e que estão sobre a terra, e todas as árvores em que há frutos e que dão semente: tudo isso será alimento para vocês.” (Gn 1,28-31)

No espírito dessa ode magistral ao antropocentrismo, não pode mesmo caber nenhum planejamento familiar, nem métodos artificiais de controle de nascimentos. Os homens seguiram a risca, consciente ou inconscientemente, esses preceitos bíblicos. Foram fecundos e multiplicaram-se chegando a quase seis bilhões de habitantes, num ritmo onde a população do planeta dobra, aproximadamente, a cada 30 anos! Dominaram as espécies animais e vegetais deixando um rastro de extinção de formas de vida e de destruição de suas moradas em todos os ecossistemas existentes no planeta. Parques nacionais e áreas preservadas representam hoje pequenas ilhas ou refúgios de vida selvagem cercados por crescentes e agressivos sistemas agrícolas e industriais urbanos, consumidores de recursos e produtores de lixo e detritos. O problema não é só dos países desenvolvidos como alegam alguns.

Os países do Terceiro Mundo realizam essa destruição em termos inéditos e em ritmo sem precedentes na história da humanidade. Pior, se acham legitimados por um discurso hipócrita que evoca o direito de repetir o erro dos outros, os desenvolvidos. No Brasil, em quatrocentos anos a Mata Atlântica passou de mais de um milhão de quilômetros quadrados para menos de 95.000. Os fragmentos de floresta atlântica representam hoje apenas 8% do total da biodiversidade de origem e seguem ameaçados e em processo de erradicação (Miranda 1994). Já na Amazônia, os dados dos satélites revelam que uma área equivalente à metade do desmatamento total da Mata Atlântica foi destruída em menos de 40 anos, numa demonstração de eficiência tecnológica e destrutiva inédita (Miranda & Mattos 1992).

Depois de entupir a Terra de seres humanos, dominar todas as espécies, eliminar as florestas, disseminar numerosos locais de possíveis dispersões radioativas, poluir todos osoceanos,, esgotar os estoques pesqueiros, alterar o clima do planeta e até deixar lixo no espaço sideral, o homem se preocupa se não terá comprometido irreversivelmente o planeta e a sua própria qualidade de vida. O homem estaria no direito de perguntar ao Criador: e agora? Cumpri a primeira parte, qual será o próximo passo no script? O livro do Gênesis termina o primeiro relato da criação com “Essa é a história da criação do céu e da terra” (Gn 2,4a). Diante dos relatórios da Conferência Mundial do Meio Ambiente e do Desenvolvimento, celebrada pela ONU no Rio de Janeiro em 1992 e da Conferência do Cairo de 1994, dando conta da situação da vida sobre a Terra, poderíamos escrever: “Esse é o resultado da destruição que o chamado ponto alto, centro e coroamento da criação obteve em alguns milhares de anos.

Diante da destruição das formas de vida sobre a Terra e do poderoso movimento de sociedade em defesa do meio ambiente existe um esforço franciscano de releitura do texto do Gênesis, por parte das igrejas, a partir de uma nova visão ética ou moral. O homem teria sido chamado a ser um jardineiro da natureza e não seu capataz. Para outros a natureza é distinguida da criação e o sétimo dia não é só descanso, mas também contemplação da criação. Qualquer passagem de um fundador de ordem ou líder espiritual passado, inspirado pela contemplação da natureza, é resgatado como moeda preciosa nos dias que correm. Noé não teria sido utilitarista salvando apenas os animais que lhe poderiam servir no futuro, mas todas as formas de vida. Os esforços são muitos.

Antes tarde do que nunca, ao contrário dos temas sociais e dos desafios políticos deste século onde a Igreja logrou certa sintonia e atualidade, no tema da ecologia perdeu-se completamente a oportunidade. No Brasil a Igreja não esteve na origem de nada de significativo nesse tema. Muito pelo contrário, as comunidades de base e os líderes de movimentos populares trataram essa questão como sendo preocupação de pequenos burgueses, como perda de tempo ou como perfumaria de países desenvolvidos. Raros foram os cristãos a conferir uma autonomia real a temática ecológica. O assunto era assumido e imediatamente submetido à lógica da questão agrária, à lógica dos excluídos, à lógica da pobreza etc. Por estarem surdos e insensíveis a esse tema, terminaram mudos e cegos junto a esse movimento federador que uniu e animou, principalmente, a juventude brasileira.

Os esboços de revisão em termos éticos e morais das posturas tradicionais antropocêntricas são positivos, mas muito pobres e limitados. Quase nunca enfrentam as realidades trazidas pelo conhecimento científico nem o antropocentrismo ainda inerente a essas antigas concepções. A partir de novos postulados, esses arremedos filosófico-teológicos, esses esforços de releitura continuam a cultivar quase sempre a idolatria antropocentrista sob novos mantos coloridos, em linguagem politicamente correta.

Eles criam mais uma “escolástica” para recomendar novas condutas aos humanos, como se a situação vivida pelo planeta fosse uma questão de atitudes ou de ecologia espiritual. Estamos longe de uma revisão definitiva do antropocentrismo diante do processo da criação e das revelações da ciência. A violência das pretensões humanas nega os direitos da criatura de forma excepcional nos territórios conquistados pelo Cristianismo e pelo Islamismo e se espanta desde a época dos descobrimentos portugueses com a “descoberta” de que na Índia a parte da população pratique o vegetarianismo ou mantenha hospitais para animais, normalmente apedrejados em nossas cidades.

O tempo da revisão chegou. No momento amplia-se a consciência de que o mundo, seus recursos e sua capacidade de restauração são finitos e que, em muitos casos, esses limites já foram atingidos ou ultrapassados. Nesse poderoso movimento de sociedade em defesa do meio ambiente ganharam espaço as crenças, religiões e doutrinas de fundo panteísta. De alguma forma elas sacralizam a natureza e respondem melhor às indagações de jovens e pessoas preocupadas com a conservação de todas as formas de vida do planeta. Dada a força histórica do Cristianismo é como se os jovens dissessem ao defender com misticismo o futuro das baleias, das focas e florestas: religião sim, Deus não! Uma forte polaridade está criada entre os que defendem o desenvolvimento para eliminar a pobreza e os que colocam acima de tudo a tarefa de proteger a natureza. O caminho da harmonia aberto aos homens pela ciência é também dificultado pelo próprio uso que estes fazem da mesma.

5 – Barbárie e sadismo: a razão dos animais

Enquanto as religiões se calam ou fraquejam diante desse processo, parte da humanidade, totalmente secularizada, se esqueceu desse Deus fundador antropocêntrico e considera seus prodígios tecnológicos verdadeiros atos divinos. Cada vez mais a pretensão humana e sua onipotência beiram o absurdo. Falando pela humanidade alguns chegam a ponto de se atribuir – com certo orgulho – a mesma capacidade divina de intervenção fulgurante na história da vida sobre a Terra. Propaga-se a idéia de que somos capazes de eliminar a vida da face do planeta com nossas armas nucleares. Puro engano. Todo o arsenal existente, multiplicado muitas vezes e detonado sobre o planeta, poderia eliminar o homem da face da Terra e junto com ele muitas espécies de animais e vegetais superiores. Mas a evolução da vida continuaria inelutavelmente, com muitas de suas realidades atuais, sob novas formas e condições. Já o choque de um cometa, como o que ocorreu recentemente em Júpiter, poderia mudar a face da Terra de forma muito mais radical!

Mesmo a pretensão de que o homem seria a primeira espécie capaz de alterar o meio ambiente a ponto de se autoeliminar não têm fundamento. Isso já ocorreu em outras épocas. No início da história da vida sobre a Terra, os primeiros seres a realizarem fotossíntese, num ambiente pobre oxigênio e rico em raios ultravioleta viveram, sem pretensão, um evento análogo. Ao realizar fotossíntese foram enriquecendo a atmosfera da Terra em oxigênio e, sobretudo, ajudaram a formar a camada de ozônio estratosférico que nos protege da ação mutagênica desses raios. As formas de vida na superfície do planeta ficaram menos vulneráveis. Essa alteração do ambiente (menos ultravioleta) e novos competidores levou ao desaparecimento dessas formas de vida, tão importantes no início do processo evolutivo. Não somos os primeiros a alterar o ambiente em escala planetária, nem a sofrer as conseqüências.

Neste século, além de se multiplicar em quantidades sem precedentes, o homem pela tecnologia foi capaz de ampliar infinitamente o espaço de atuação de cada indivíduo e do seu conjunto. Uma cidade de 5.000 habitantes não tem absolutamente o mesmo significado que uma cidade de igual tamanho no tempo do Império Romano ou na Idade Média. As quantidades de matéria e energia mobilizadas e os espaços envolvidos são infinitamente maiores. Há alguns anos ouvíamos atônitos de um índio isolado, na remota fronteira do Brasil com a Venezuela, em plena floresta amazônica, a queixa de que para ele o maior problema do mundo de hoje era: “gente demais”. Gente que ele via passando pelos rios na busca de ouro, na fiscalização dos que buscam ouro, nas expedições turísticas ou científicas, nos aviões que cruzam seu céu e que ele era capaz de reconhecer até no falso brilho estrelar dos satélites artificiais cruzando a noite equatorial. A expansão das cidades e da agricultura continua erradicando as moradas dos outros habitantes do planeta, em particular as dos vegetais e dos animais superiores.

Combinada com a caça e a matança indiscriminada dos animais, essa destruição de hábitats naturais reduziu muitas espécies de animais a uma terrível prisão territorial e numérica, enquanto outros caminharam e caminham para a extinção. Talvez tenhamos criado o mais terrível campo de concentração ou a mais terrível fórmula de prisão perpétua ao aprisionar geneticamente os animais selvagens, condenados a reservas onde não tem espaço nem número para seguir evoluindo. Onde o plano de Deus prevê a eliminação das formas de vida no planeta em detrimento da expansão da raça humana? Daqui a dois milhões de anos de evolução em que grau de conhecimento do plano divino estarão os golfinhos, os chipanzés, os papagaios e os Homo sapiens?

O problema é que além de alterar o planeta, eliminando espécies e suas moradas, nos permitimos com relação aos animais uma manipulação e um tratamento próximos da barbárie e do sadismo. No livro Le progrès meurtrier (Der tödliche fortschritt), o teólogo Eugen Drewermann se interessa pelas razões espirituais, históricas e filosóficas da destruição da natureza.

A barbárie e o sadismo valem, em primeiro lugar, para as condições em que se exerce a pecuária moderna nos países desenvolvidos e mesmo em países em vias de desenvolvimento como o Brasil, em particular em Santa Catarina e nos estados das regiões Sul e Sudeste. Os criatórios de aves, vitelas, bovinos e porcos foram transformados em indústrias onde um animal pode passar toda a sua existência preso a uma pequena corrente ou confinado a um espaço pouco maior que o do seu corpo, submetido a uma iluminação e alimentação artificiais forçadas, tendo seus hormônios manipulados, recebendo altas doses de medicamentos para depois sofrer terríveis condições de transporte e de abate. Isso tudo muito distante dos olhos e das consciências dos consumidores que recebem esses despojos animais em belíssimas embalagens. Ou através de comerciais de televisão que os recomendam como exemplo de alimentação para uma vida saudável.

Em segundo lugar está o que se pratica nos laboratórios de pesquisa médica-biológica e de cosmética, onde servem de cobaias ratos, cães, gatos, macacos, etc… Trata-se de uma verdadeira violência antianimal onde a tecnociência age sem vergonha e sem reserva. Sob uma colaboração implacável da lupa, do bisturi e das pinças, os animais são submetidos a tratamentos cruéis e degradantes, numa impassível manipulação de seres vivos, fora do alcance de qualquer lei de proteção aos animais. A vivisseção é uma forma extrema de tortura legitimada. É como se a vida devesse confessar seu segredo. Na vivisseção no corpo do animal é aberto e explorado com vida. Vivisseção significa a exigência de manutenção do animal em vida o maior tempo possível, como lembra Georges Canguilhem. Sempre recordamos do caso de uma colega pesquisadora, que trabalhava em um laboratório de estudo do câncer em Lyon, na França. Um dia ela entrou em crise psicológica por não suportar mais o olhar e o choro de sofrimento dos cães em quem eram induzidos tumores e testados tratamentos químicos. Estima-se em algumas centenas de milhares o número de animais mortos nos laboratórios de pesquisa todos os anos!

Seria esse número absolutamente necessário? A idéia de que existe uma cumplicidade secreta entre o antropocentrismo e a exploração da natureza tem emergido nas concepções neomarxistas de Adorno e Horheimer (Dialectique des lumières) e mais ainda nos pensadores neoheideggerianos. Esse tema foi desenvolvido de forma exemplar por Elisabeth de Fontenay em 1991, num artigo intitulado “O animal não tem razão“. Muitos animais morrem para avaliar os riscos de um corante de cabelo ou de um novo creme facial! Ao discutir com um pesquisador dessa área, ouvimos certa vez um discurso que caberia perfeitamente na boca de médicos nazistas defendendo suas experiências com prisioneiros de guerra. Para o bem da humanidade.

6 – A alma dos animais

É interessante destacar: foi na Alemanha nazista que surgiram as primeiras leis de proteção do reino animal como um todo. Criticando a visão antropocentrista de uma proteção utilitária dos animais, as leis alemãs de 1933, 1934 e 1935 (Reichsnaturschutzgesets) reconheciam-lhes um direito intrínseco. “A alma viva dos campos” (Die Lebendige Seele der Landschaft), segundo a fórmula de Goering, que criava uma ligação entre a estética do sentimento e a idéia de que o mundo natural – nele mesmo – é digno de respeito, independentemente de toda e qualquer consideração dos seres humanos, como sinaliza o filósofo Luc Ferry em seu trabalho “A Nova Ordem Ecológica“. O destaque ao caso da Alemanha é justificado também pelo fato de que até hoje muitos países europeus não possuem leis que penalizem os maus tratos aos animais selvagens, inclusive a própria Inglaterra. Nesse ponto específico a legislação brasileira é avançada e trata a caça como crime inafiançável, por exemplo.

Mas na maioria das sociedades ocidentais e no mundo moderno se mata por prazer, sob o manto da caça esportiva. Caçadores ameríndios, dos esquimós às varias tribos da América do Sul, nunca o fazem por esporte ou prazer. Após o abate do animal costumam ajoelhar-se diante dele, pedir desculpas, explicar que o necessitavam para diversos fins. Muitas vezes pedem ao espírito do animal, que os antecederá junto a Deus, que interceda por eles. Os xamãs, capazes de se tornar como determinado animal e trazer informações sobre sua localização e comportamento para que outros guerreiros possam melhor caçá-los, nunca comem sua carne ou se aproveitam de seus despojos. Épocas e métodos de caça são impostos ao caçador pela religião tradicional, particularizando cada animal com prescrições e proscrições.

Nas grandes religiões monoteístas os homens não têm nada a aprender com os animais. Já em muitas das religiões indígenas os diversos animais servem de modelo de comportamento para os homens e os ensinam como proceder em determinadas situações. O único exemplo da Bíblia nesse nível é a da jumenta de Balaão que vê o que seu mestre e seus dois servos não vêm: o Anjo exterminador de Javé postado no meio do caminho! Tenta salvar seu dono por três vezes, desviando da rota. Apanha muito por fazê-lo a ponto de Javé abrir sua boca para interrogar seu dono: “O que foi que eu fiz para você me espancar três vezes? (Nm 22, 22-28).

Sem tocar voluntariamente no tema do vegetarianismo, a visão das tradições hinduístas, das religiões do Egito antigo e dos vários grupos ameríndios é muito diferente do observado na tradição das grandes religiões monoteístas. No julgamento dos mortos do Egito antigo, diante da balança de Maat, não somente as faltas cometidas contra a humanidade eram consideradas, mas também todas as faltas cometidas com relação aos animais. Escritos nas sepulturas evocavam que o morto nunca havia atentado contra os animais (“Nunca molestou um ganso, nem retirou o capim de um boi…”). Era a crença dos egípcios que os animais podiam comparecer ao julgamento final para testemunhar contra os seres humanos. Em outras palavras, não só o comportamento do homem em suas relações humanas era julgado, mas também seu relacionamento com a natureza. Para nossa teologia antropocêntrica isso sempre foi simplesmente inconcebível.

Os mitos indígenas e de outros povos, relativos a criação do cosmos, sempre buscam situar o homem dentro da criação e do meio ambiente. Na tradição judaico-cristã é o contrário. O cosmos inteiro é que é situado no interior do mundo dos homens, ao qual fica absolutamente submetido. Como destaca o teólogo alemão Eugen Drewermann, nessa ótica o cristianismo é ainda pior, pois este estendeu sua antropologia à cosmologia. Toda a criação foi levada ao mal pelo pecado de Adão e deve ser salva pelo Cristo, quer dizer pelos homens, seguidores do Cristo (Igreja): “Essa imagem do mundo é sem dúvida altamente mitológica, mas, com relação ao mito pagão, sua mitologia vem do fim oposto: no antropocentrismo da visão cristã do mundo (caso se continue a interpretá-lo assim!), o ser humano continua o tema principal do universo; ele e seu destino decidem o conjunto do cosmos; tudo que existe foi criado para ele. Trata-se de uma teologia que recusa simplesmente, como nos dias de Galileu, a ver e a levar em conta o que deveríamos reconhecer na primeira olhada que se desse através de um microscópio ou de um telescópio: a completa refutação do antropocentrismo cristão”. Galileu e Copérnico enterraram a duras penas o geocentrismo, mas pouco arranharam o antropocentrismo. Talvez suas descobertas científicas até afirmaram a infinita capacidade deste singular ser racional que seria o homem.

As visões antropocêntricas, de direita ou de esquerda, sempre marcaram as conferências e os debates mundiais sobre o desenvolvimento, até mesmo na primeira reunião de Estocolmo sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento em 1972. Já a RIO-92, vinte anos depois, deixou uma marca biocêntrica indelével em todos os debates e documentos. É preciso defender a vida em todo o planeta. A própria qualidade de vida do homem moderno dependerá cada vez mais do sucesso que se tenha na preservação do meio ambiente. Isso está nos levando talvez a um novo centrismo, mais amplo que o anterior e muito aceito entre a juventude e as populações urbanas mais escolarizadas. Mas o que necessitamos – e desejamos ao falar de desenvolvimento sustentado – é uma nova harmonia. Uma nova harmonia entre as sociedades humanas e os recursos naturais do planeta. Harmonia a ser buscada constantemente, pois é dinâmica e evolui com o progresso, os anseios sociais e a tecnologia.

Face à brevidade de nossa vida terrestre Emmanuel Kant postulava a fé na imortalidade da alma como uma condição subjetivamente necessária para podermos pensar de maneira sensata as exigências da vida moral. A moralidade do ser humano frente a seus semelhantes desmoronaria sem a fé na imortalidade. Drewermann defende que “nós temos necessidade, pelo menos como idéia reguladora de nossa razão prática, da fé na imortalidade dos animais para fundar uma ética que acorde a consideração devida aos outros seres que são também criaturas como nós. Nós não devemos “salvar” os animais, mas nós temos o dever de deixá-los em paz na medida do possível”.

Nesse contexto, o chamado do Gênesis para dominarmos a natureza necessita outra compreensão. O historiador William Leiss afirma que o domínio da Natureza deve ser compreendido como um estágio avançado da consciência humana no qual a inteligência pode regular sua relação com a Natureza (interna e externa), de tal forma a minimizar os aspectos destrutivos e autodestrutivos dos desejos humanos. Nos países desenvolvidos e industrializados, indivíduos e sociedade têm se conscientizado mais rapidamente sobre a necessidade de um equilíbrio entre o uso dos recursos naturais e sua preservação.

A riqueza dessas nações viabiliza soluções tecnológicas e operacionais para a busca desse equilíbrio no tocante ao uso das terras, ao consumo de água, ao destino do lixo e dos resíduos industriais, a caça e a pesca, etc. Nos países subdesenvolvidos essa exigência de equilíbrio se coloca de forma mais aguda e difícil de ser obtida. Necessidades de curto prazo ligadas à fome, à miséria, ao emprego, ao saneamento e à saúde básica da população levam a uma crescente e necessária exploração dos recursos naturais. Essas necessidades sociais comprometem as poucas iniciativas dos governos no campo ambiental, ao tempo em que transformam numa gota d’água no oceano a ação de organizações não governamentais preocupadas com a preservação da natureza.

Incapazes em sua maioria de integrar as realidades sociais e econômicas em sua praxis, determinadas pessoas refugiam-se numa postura biocêntrica absoluta, em contraposição com o antropocentrismo que até então dominava o cenário dos modelos de sociedade. Existiria um direito ético autônomo da natureza? Essa é uma das questões a serem colocadas a nossos filhos. São os novos desafios que podemos lançar pela educação. Neste campo perguntar vale mais do que responder. Cabe as novas e futuras gerações responder a muitas dessas questões: natureza, ciência, ética, tecnologia, vida, liberdade… Assim como nós tentamos responder as perguntas que nos deixaram de herança.

Alguns sonham com uma harmonia entre homem e natureza, baseada num retorno a um paraíso primitivo, de onde estaria banida a indústria e a tecnologia! Temos que escapar dos movimentos pendulares que nos levam do pólo do desenvolvimentismo ao pólo do preservacionismo. Superar o antropocentrismo é um passo a mais a ser dado no caminho do Caos ao Cosmos. Um Cosmos que na sua totalidade possui talvez um coeficiente positivo superior ao da humanidade pois na hierarquia dos seres ele constitui a condição primeira. A natureza pode viver sem o homem e não o contrário. Lutamos de forma permanente para superar o etnocentrismo enquanto o geocentrismo caiu por simples demonstração científica, já que até hoje ninguém viu a Terra girando em torno do Sol.

A superação do antropocentrismo não implica na adoção de um biocentrismo, hoje contagiante em muitas esferas da sociedade, junto com a mensagem de defesa do meio ambiente. Viver em harmonia com a natureza não significa viver como os animais, mas com os animais. Devemos ultrapassar a antinomia do cartesianismo que negava qualquer valor intrínseco aos seres da natureza e a dos ecologistas que tomam a biosfera como o único e autêntico sujeito de direito. A biosfera no seu conjunto é também o vírus da AIDS, o cólera e as aves do céu. Da mesma forma que o homem foi capaz de eliminar para sempre o vírus da varíola, inclusive dos seus laboratórios de pesquisa, é chegada a hora de impor limites ao intervencionismo da tecnociência no ambiente natural. Temos a oportunidade e o desafio de empregarmos nossa inteligência para dar início, talvez, à superação definitiva de todos centrismos. Temos que repensar nosso lugar e o lugar dos homens no planeta em função da unidade original de todas as formas de vida. Essa unidade inicial deveria gerar também uma unidade de destinos, unindo imortalidade e eternidade. Principalmente para os cristãos e os islamitas para quem tudo o que marca de forma indelével a humanidade estará presente no mundo da ressurreição, no reino dos céus e no paraíso.

A ciência, com as dimensões temporais reveladas nas relações evolutivas, ajuda a pensar o tempo na Eternidade numa nova perspectiva. No tempo e na Eternidade estão os desafios dos equilíbrios metaestáveis e não fixistas. No tempo e na Eternidade estão as tensas dinâmicas das harmonias resultantes de polaridades opostas como o desenvolvimento humano e a preservação ambiental. Ares, o deus da guerra, amou Afrodite, a deusa do amor. Dessa tensa união de opostos nasceu uma filha, chamada Harmonia. Como ensinava Heráclito, a superação desses desafios pode ser a misteriosa emergência da Harmonia entre tensões contrárias, como as do arco e da lira. Ao invés de nos perdermos em pequenos e narcotizantes reflexos antropocentristas, busquemos essa Harmonia que nos permitirá lançar flechas para o futuro da criação e cadenciar música com todo o Universo.

Referencias Bibliográficas

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Drewermann, E. Le progrès meurtrier. Ed. Stock. Paris. 1993.

Drewermann, E.La Barque du Soleil. La mort et la réssurrection en Égypte ancienne et dans l’Evangile. Paris. Seuil. 1994.

Nicolis, G. & Prigogine, I. Self-organization in non-equilibrium systems: from dissipative structures to order through fluctuation. New York: Wiley & Sons, 1977.

Polegar mostra habilidade de hominídeos: exame de ossos prova que manuseio de ferramentas começou há 2,5 milhões de anos. O Estado de S. Paulo, São Paulo, SP. 17 set. 1994. C. Ciência e Tecnologia, C. Antropologia, p. A/30.

Toolan, D. S. Cosmologia numa era ecológica. Loyola. S. Paulo, 1994.

Unger, N. M. O encantamento do humano. Ecologia e espiritualidade. Loyola. S. Paulo, 1991.

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